Universalidade e identidade | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

Universalidade e identidade

Arquiteto pela FAU-Mackenzie e mestre pela Universitat Politècnica de Catalunya. Professor na Escola Tècnica Superior d'Arquitectura da Universitat Internacional de Catalunya, onde desenvolve tese de doutorado.

AFFONSO ORCIUOLI
Edição 104 - Novembro/2002
É possível que na história da arquitetura nenhum outro arquiteto tenha sido tão homenageado postumamente como Gaudí. Barcelona comemora no presente ano uma série de atividades pelo 150o aniversário de seu mais ilustre arquiteto, responsável maior pela projeção da cidade. O Ano Internacional Gaudí 2002 é uma oportunidade única de aproximar-se de forma completa e inusitada da obra do arquiteto catalão, que vem despertando grande interesse na contemporaneidade pelo seu método de trabalho, originalidade e uso de uma particular geometria que conjuga a estrutura com a forma. Há muito o que se descobrir na arquitetura gaudiniana, uma referência indiscutível para o século 21
Retrato de Gaudí, feito em 1878

O modernismo catalão
Surgido na Catalunha no último quarto do século 19, o modernismo catalão se destacou sobretudo na arquitetura e nas artes decorativas. Teve como um dos seus principais precursores o arquiteto Elies Rogent (1821-1897), a partir da execução da Universidade de Barcelona. Rogent, considerado um pré-modernista, aportou à arquitetura catalã as idéias do racionalismo estrutural francês de Viollet-le-Duc, bem como defendeu uma liberdade formal e eclética. Foi o primeiro diretor da Escola de Arquitetura de Barcelona, criada em 1877, e quem entregou o título de arquiteto a Gaudí.

Em 1878, um discípulo de Elies Rogent escreveu o texto Em busca de uma arquitetura nacional, organizando as bases teóricas do modernismo catalão. Trata-se de Lluís Domènech i Montaner (1850-1923), arquiteto que deixou excelentes obras em Barcelona, como a antiga Editorial Montaner i Simon (hoje, Fundação Tàpies), o Palau da Música Catalã, o hospital da Santa Creu i de Sant Pau e o café-restaurante que foi construído para a Exposição Universal de Barcelona em 1888, obra que não foi terminada a tempo e que abriga hoje o Museu de Zoologia. Domènech também foi professor, historiador e político.

Outro fato que contribuiu para o modernismo catalão foram os revivals, uma retomada de estilos históricos dos mais diversos, como se pôde observar nos edifícios que faziam parte da Exposição de 1888. O modernismo catalão foi influenciado pelo Arts & Crafts, uma tendência artística da segunda metade do século 19 que despontou na Grã-Bretanha. O ideólogo mais importante deste movimento foi o designer William Morris, que pregava a revitalização do artesanato e das artes aplicadas para a produção de peças singulares. Este movimento é paralelo ao Art Nouveau (França), ao Jugendstil (Alemanha), Sezession (Áustria) e Liberty (Itália), que se caracterizaram pela tendência a utilizar linhas curvas e ondulantes, produção de objetos individuais e não em série, e a recuperação das qualidades do trabalho manual. O auge do modernismo na Catalunha foi no começo do século 20.

Também se destacou o arquiteto modernista Josep Puig i Cadafalch (1867-1957), estudioso da história, arqueologia e grande promotor da cultura catalã. Entre suas obras se destacam as casas Terrades, Macaya e Amatler. Um edifício emblemático de Cadafalch foi a antiga Fábrica Têxtil Casamora, recentemente restaurada, revitalizada e transformada em um centro de cultura, mesmo destino dado à Casa Macaya.

A Barcelona da virada de século
O modernismo foi financiado pelas classes burguesas que tinham feito fortuna no comércio com as ex-colônias espanholas nas Américas, e respondeu a um sentimento patriótico, religioso e econômico comum. Aglutinou ideais políticos, intelectuais, artísticos e industriais que dominavam a região da Catalunha, onde a indústria têxtil destacava-se como principal motor econômico. Barcelona, grande cidade industrial e portuária da Espanha, e capital da comunidade mais próspera do território espanhol, atraía imigrantes provenientes de todo o país. Chegou a ser conhecida como a Manchester do sul da Europa.

Esta explosão econômica e demográfica necessitava expandir-se fisicamente fora da minúscula cidade que se encerrava dentro de suas muralhas. O bairro do Raval, primeira ampliação da cidade a partir do seu núcleo medieval, bem como a Barceloneta, já não eram capazes de suportar a concentração de fábricas e de uma população proletária. A falta de higiene, luz e ventilação ofereciam uma péssima qualidade de vida para seus habitantes.

É com o projeto do Eixample (1859), do engenheiro militar Ildefons Cerdà, que Barcelona dá seu grande salto, tanto qualitativo como quantitativo. Eixample, que em catalão significa expansão, aglutinou em uma trama quadriculada pequenos núcleos urbanos que haviam se desenvolvido fora da cidade. Sua imagem unitária e contínua aportaria aos singulares edifícios modernistas o cenário ideal para a expansão de novas idéias, uma nova configuração urbana, fruto de um momento de grande disponibilidade econômica.

Gaudí - máximo expoente do modernismo catalão
Antoni Gaudí i Cornet nasceu no dia 25 de junho de 1852 em Reus, província de Tarragona. Foi o quinto filho de família de caldeireiros, tanto por parte de pai como de mãe. Gaudí viveu uma infância difícil, pois desde os seis anos sofria de reumatismo, doença que não lhe permitia brincar com crianças de sua idade e que originou uma personalidade retraída e tímida. Passava longas horas observando as formas da natureza, como troncos de árvores, ossos, crustáceos, pedras, etc. Gaudí sofreu de reumatismo durante toda sua vida. Por recomendação médica, tinha como exercício caminhar diariamente e seguir uma dieta estritamente vegetariana.

Na cidade de Reus cursou o primário na escola do mestre Francesc Berenguer e, entre 1863 e 1868, estudou no convento de Sant Francesc, começando a prática religiosa da qual jamais se desprenderia. Atualmente, o Vaticano estuda o processo de beatificação de Gaudí.

Com a ajuda do pai, Francesc Gaudí Serra, o jovem Gaudí partiu para estudar arquitetura em Barcelona em 1869. Até 1873 acompanhou o curso preparatório para aceder à Escola Técnica Superior de Arquitetura, obtendo o título de arquiteto em 1878. Elies Rogent, presidente do Tribunal da Escola, proferiu a célebre frase no dia de sua colação de grau: "Hoje damos o título a um gênio ou a um louco. O tempo o dirá."

Em 1876, ainda como estudante de arquitetura, o falecimento de seu irmão Francesc, seguido do de sua mãe, Antonia Cornet Bertran, tiveram grande relevância em sua vida. Proveniente de uma família humilde, Gaudí teve que dividir o curso de arquitetura com a prática em escritórios, havendo participado de projetos no Parque da Ciutadella, no Mercado do Born, nos postes de iluminação da Plaça Reial e Pla del Palau e, sobretudo, na Cooperativa Mataronesa, uma tentativa socialista avançada onde o objetivo era o de transformar os operários em donos das fábricas. Este projeto evidencia algumas influências em Gaudí das teorias socialistas de Marx, bem como das anarquistas de Bakunin, bastante presentes nesta época.

Começando sua carreira profissional, Gaudí recebe o encargo de projetar, para o Pavilhão Espanhol, uma vitrine de luvas para a Exposição Universal de Paris de 1878. Este pequeno móvel despertou a atenção daquele que seria o seu grande mecenas, Eusebi Güell (1846-1918), um bem-sucedido homem de negócios que além de converter-se em seu maior cliente era também um grande amigo.

Pode-se estabelecer três etapas na evolução da obra de Gaudí. A partir do ecletismo da primeira etapa, o arquiteto começa a estudar as leis da natureza e incorporar a união da forma com a estrutura nos espaços que cria.



Primeira fase: historicismo eclético
Gaudí utiliza diversos estilos históricos presentes na Espanha, como a arquitetura árabe, gótica e barroca, patrimônios dos quais extrai toda sua essência. Seguindo uma interpretação pessoal, Gaudí faz uso da arquitetura árabe sobretudo no tratamento da luz e na própria composição volumétrica de seus edifícios. Do gótico aplica os princípios estruturais das catedrais, castelos e mosteiros presentes na Catalunha, fruto das visitas que fazia ao Instituto Catalão de Excursões Científicas para conhecer os edifícios emblemáticos de seu país.

A partir desta revisão histórica, e não se tratando de um tradicionalismo arqueológico, mas sim de criar a partir do conhecimento adquirido, Gaudí assume uma postura que fica clara com sua célebre frase "ser original é voltar às origens". Aos 26 anos, dá início ao projeto de sua primeira obra, a Casa Vicens (1878-1888), uma vila com influências da arquitetura medieval e da árabe. Situada no bairro de Gràcia e construída para ser utilizada no verão, o projeto foi encarregado por um fabricante de tijolos e azulejos, materiais muito presentes nesta obra. Destaca-se a utilização de linhas entrelaçadas em forma de figuras geométricas conhecida como mudéjar, estilo arquitetônico que floresceu na Espanha, caracterizado pela fusão dos elementos românicos e góticos com a arte árabe.

Gaudí continuaria com este interesse pelo Oriente na Casa El Capricho (1883-1885), em Comillas, província de Cantábria. O resultado é uma arquitetura exuberante, rica em detalhes, trabalhada também com tijolos e cerâmica com motivo de girassóis. Gaudí continua rompendo com o classicismo imperante, buscando uma linguagem no exótico Oriente e na arte mudéjar.

Na segunda metade do século 19, surge na Europa um despertar de nacionalismos. No âmbito da arquitetura, viveu-se uma busca por identidades inerentes a rasgos históricos peculiares de cada país ou região. Se o norte da Europa se identificava com a arte gótica, a Espanha tinha no seu passado um legado que a distinguia dos demais países: a influência da arte mudéjar. Os Pavilhões da Finca Güell (1884-1887) seguiram as mesmas características das obras anteriores, onde é notória a influência da arquitetura árabe, que havia sido mais presente no sul da Espanha.

Gaudí realiza, assim, o primeiro projeto para Eusebi Güell. Num terreno de 30 hectares, próximo à sua residência de verão, o Palau de Pedralbes, Güell encarrega a Gaudí a construção de instalações para a guarda e cuidado dos seus cavalos. A iconografia dos Pavilhões da Finca Güell é resultado da interpretação de uma obra literária que causou muito impacto na época, como bem descreve o conservador da Càtedra Gaudí, Joan Bassegoda. Trata-se do poema L'Atlàntida, escrito por Jacint Verdaguer (1845-1902), um amigo tanto do cliente como de Gaudí. Neste poema aparece o grande dragão Ladon acorrentado, representado por Gaudí na conhecida porta de acesso para carruagens. Este magnífico trabalho de ferro forjado simboliza a vitória de Hércules sobre o dragão, quando teve que executar seu décimo primeiro trabalho: o de obter frutos de ouro custodiados pelas Hespérides. A casa do zelador e o picadeiro completam esta obra, onde aparece pela primeira vez o uso dos arcos parabólicos (atual sala de leitura), bem como do trencadís.

No ano seguinte, e como prova da confiança no ainda jovem Gaudí, Eusebi Güell lhe encarrega a construção de sua casa, de seis andares, que deveria transmitir o poder econômico e sensibilidade artística do proprietário. Construído em pedra talhada de formas regulares, material que reforça a idéia de fortaleza e durabilidade, o Palau Güell (1885-1889) servia de residência para a família Güell, bem como lugar para festas, audições musicais e recepção de celebridades do mundo político. Construído na rua Nou de la Rambla, ao lado do centro histórico da cidade, dispõe de um espaço central de 17 m de altura, arrematado por uma cúpula repleta de pequenos orifícios que provocam interessantes efeitos da luz. De dia, se assemelha a um céu estrelado. Destaca-se também a rampa em forma helicoidal de acesso ao subsolo, utilizado para a guarda de carruagens e cavalos. Uma série de excelentes artesãos colaboram com Gaudí, mantendo os preceitos do movimento Arts & Crafts.

Gaudí já incorpora definitivamente ao seu repertório o uso de catenárias por razões estruturais. Entre todos os arcos, a catenária é a mais mecânica, uma vez que a linha de pressão segue exatamente a forma do arco. Se tomamos uma corda qualquer, e seguramos ambos extremos, a resultante sempre será uma catenária: um arco espontâneo, elegante e extremamente correto.

Gaudí volta a trabalhar fora da Catalunha, construindo na Província de León o Palácio Episcopal, em Astorga (1887-1893), e a Casa Botines (1891-1892) com evidentes inspirações medievais. Trata-se de duas obras construídas em pedra e não muito conhecidas, nas quais Gaudí retoma o gótico interpretando-o ao estilo de Viollet-le-Duc. Na Escola das Teresianas (1888-1889), construída num prestigioso bairro de Barcelona, as soluções adotadas quanto à imagem externa do edifício se diferem totalmente da interna. Por dentro, ambientes diáfanos, bem transparentes e luminosos e, por fora, um ar austero e opaco, assemelhando-se a uma fortaleza medieval. Tanto nas fachadas como nos corredores internos aparecem as catenárias, que começam a ser uma constante na obra de Gaudí.

Nas Bodegas Güell (1895-1901) em Garraf, província de Barcelona, Gaudí constrói em pedra, material com o qual também construiria a Casa Calvet (1898-1899), sendo este, talvez, seu edifício mais convencional, passando quase desapercebido no Eixample barcelonês. Com esta obra, ganha o prêmio de melhor edifício do ano de 1900, seu único reconhecimento em vida por parte da prefeitura. A Casa Calvet é um edifício residencial com tipologia clássica do Eixample: somente duas fachadas, uma orientada à rua, e outra ao interior de quarteirão, ficando o edifício sempre compreendido em suas laterais.

Os edifícios do Eixample geralmente têm o pavimento térreo destinado ao comércio, o andar principal é ocupado pelo proprietário e os demais eram alugados. No caso da Casa Calvet, dois pátios de luzes centrais garantem luminosidade à caixa de escada e ao interior dos ambientes voltados para este pátio. Na fachada, Gaudí segue curiosamente uma rígida simetria, permitindo-se certo movimento com curvas e contracurvas de linha barroca no tratamento dado aos balcões. Nesta obra se destacam os detalhes, como as maçanetas, visores e sobretudo os móveis, desenhados exclusivamente para este edifício.

A Casa Calvet encerra uma primeira etapa de caráter vinculado ao historicismo na carreira de Gaudí. A partirde sua próxima obra, compreendida pela crítica como sua primeira obra prima, Gaudí se definiria como um arquiteto revolucionário. A Cripta da Colônia Güell (1898-1916) marca uma ruptura decisiva com os estilos históricos e funciona como um grande laboratório que marcará posteriormente sua arquitetura. Desenvolve um espetacular sistema conhecido como funicular, que consiste em uma maquete composta por cordas, os "funículos", palavra que em sua origem significa cordão umbilical. Este é um método empírico empregado para determinar a forma espacial de uma estrutura sem aplicar fórmulas matemáticas. Para definir a forma de cada arco, Gaudí utiliza a curva resultante de uma corrente suspendida por seus extremos e da qual pendem cargas equivalentes às que terá que suportar o arco uma vez construído. A colocação de um espelho sob a maquete funicular permite ver a estrutura do edifício.

Estrutura e forma
Para compreender as componentes estruturais da arquitetura de Gaudí é importante conhecer os métodos construtivos vernaculares da Catalunha, segundo explica detalhadamente George Collins. Este método contribuiu para o surgimento das estruturas leves em forma de casca de concreto armado, largamente utilizadas pelo movimento moderno, aparecendo nas obras de arquitetos como Félix Candela, Eduardo Torroja e Pier Luigi Nervi, entre outros.

Surgem dois personagens-chave na recuperação deste sistema que conjuga a estrutura com a forma. O arquiteto valenciano Rafael Guastavino (1842-1908), considerado um pré-modernista, aperfeiçoou o sistema tradicional catalão de abóbadas leves feitas com tijolos ao introduzir tirantes de ferro que possibilitaram a cobertura de grandes espaços públicos. Em 1881, Guastavino se mudou para os Estados Unidos onde, entre outras importantes obras, construiu a Grande Estação Central, em Nova York. Em Barcelona, projetou a Fábrica Têxtil Batlló (1870-1875), uma das mais importantes da Catalunha, edifício que teve sua estrutura muito estudada pelos alunos da Escola de Arquitetura de Barcelona na época de Gaudí. Guastavino também se destacou com o projeto da Fábrica de Cimento Asland (1901-1904) para Eusebi Güell.

Outro personagem que teve grande influência na obra de Gaudí foi o engenheiro Juan Torras (1828-1910), que proclamou, "o arquiteto do futuro construirá imitando a natureza, porque é o mais racional, durável e econômico de todos os métodos". Também Guastavino observaria que, ao entrar numa caverna subterrânea, "todo este espaço colossal foi coberto por uma só peça... sem armaduras ou andaimes..., sem vigas pesadas..., tudo feito de partículas colocadas umas sobre as outras tal como a natureza as colocou". A admiração de Gaudí por ambos processos, natural e simbólico, é bem conhecida, ainda que geralmente não se reconheça que ele, ao evoluir suas formas arquitetônicas, recorria mais às leis da natureza que à sua própria aparência.

O método tradicional de construção na Catalunha, herdado e fomentado por Gaudí, se baseia na utilização de um tijolo muito resistente e fino chamado rasilla. Este tijolo, que mede aproximadamente 15 cm x 30 cm, com uma espessura de 2,5 cm, serve para a construção de coberturas, lajes ou paredes. Este tijolo é disposto um ao lado do outro pelo seu lado mais estreito. No caso das lajes, a quantidade de capas de rasillas se determina pelos esforços a que estas se submeteram. A argamassa pode chegar a ocupar 50% do volume da construção. O resultado trabalha fisicamente como um conjunto homogêneo e maciço, de grande resistência.


No texto Dificuldades para chegar à origem arquitetônica, Rubió i Bellver definiria, já em 1913, a importância dos procedimentos desenvolvidos por Gaudí. Segundo Bellver, "a dificuldade fundamental da solução arquitetônica é hoje, como sempre foi, a de escolher formas apropriadas que se devem dar aos elementos sustentantes e sustentados com o fim de que, intimamente relacionados, um seja a simples continuação do outro, tanto nas formas como nas leis de equilíbrio". Na opinião de Bellver, "talvez o único que se defrontou com o problema, fazendo avançar a solução arquitetônica, é Antoni Gaudí".

É no projeto da Igreja da Colônia Güell onde aparece, pela primeira vez, a genialidade de Gaudí. Do que seria uma igreja chegou-se a construir o que hoje se conhece como a Cripta da Colônia Güell. Neste edifício, utilizando materiais simples e muitas vezes reciclados (como os restos metálicos de bobinas têxteis), Gaudí rompe com todos os estilos e sintetiza seus conhecimentos das leis da mecânica, utilizando a natureza como referência. A partir de então, suas próximas obras farão dele um dos arquitetos mais importantes na história da arquitetura.

Eu sou geômetra, ou seja, sintético
Antoni Gaudí

As grandes obras
O Park Güell (1900-1914), uma urbanização criada fora da cidade, foi projetado originalmente para ser uma cidade jardim, seguindo o modelo inglês inspirado nas idéias do teórico Ebenezer Howard. A isso se deve a palavra inglesa Park, grafada com k, e não com c, como seria em catalão, composta em cerâmica na entrada principal. Em 15 hectares e num terreno de topografia bastante acentuada, Güell resolve colocar à venda 60 lotes de grandes dimensões, querendo assim construir uma pequena cidade burguesa. Gaudí é contratado para desenhar toda a infra-estrutura, criando ruas, espaços de recreação, jardins, uma praça central, um mercado, casa de zelador e de convidados (os dois pavilhões da entrada principal). Havia ainda projeto de uma capela, que não chegou a ser realizada. Devido à distância da cidade, na época, o empreendimento não vingou. De fato, os únicos que resolveram viver ali foram Güell e Gaudí.

A construção de passarelas, viadutos e muros de arrimo para poder vencer a topografia foi feita com as próprias pedras do terreno. A interferência na topografia original é mínima, tal como explica Alberto Estévez. "Gaudí resolve projetar não na natureza, mas com a natureza, destruindo a dicotomia da fusão do objeto arquitetônico tradicional com seu entorno."

Devido à complexidade das formas geradas pela geometria de Gaudí, no Park Güell aparece o trencadís, técnica de mosaico formada por fragmentos de azulejos. Na impossibilidade de fixar um azulejo inteiro nas superfícies curvadas, Gaudí realiza uma nova composição, gerada por uma decomposição.

O trencadís aparece desde as primeiras obras de Gaudí, mas assume destaque pela primeira vez no Park Güell. Muitas vezes, Gaudí recicla materiais, como cerâmicas defeituosas ou garrafas de vidro. No Park Güell, Gaudí conta com aquele que seria seu grande colaborador e discípulo, José María Jujol, que lhe acompanharia em suas próximas obras e que, curiosamente, não foi o arquiteto contratado para dar continuidade à Sagrada Família depois da morte de Gaudí.

Na Casa Bellesguard (1900-1909), Gaudí utiliza nervuras nos tetos, tal como na Cripta da Colônia Güell e na Casa Milà. Segue-se a esta obra um de seus edifícios mais conhecidos, a Casa Batlló (1904-1906), resultado de uma reforma completa de um típico edifício do Eixample, em que o proprietário, um bem-sucedido empresário têxtil, dá total liberdade a Gaudí. Situada na famosa "manzana de la discórdia", no Passeio de Gràcia, o edifício compõe, com a vizinha Casa Amatler e a Casa Lleó Morera, um excelente mostruário do que foi o modernismo catalão.

A Casa Batlló recebeu a alcunha de "casa dos ossos", aludindo às formas de esqueletos, caveiras e omoplatas presentes em todo o edifício. A fachada é revestida com cerâmica e vidro, culminando com um espetacular telhado que lembra as escamas de um dragão. Os balcões têm formas que sugerem figuras que atraíram os surrealistas. Se destaca o tratamento da luz no pátio interior, onde Gaudí utiliza um dégradé de cerâmica azul, do claro ao escuro, fazendo com que a intensidade da luz seja a mesma desde os andares inferiores até a cobertura, efeito reforçado pela variação do tamanho das janelas. Formas ondulantes caracterizam também o interior deste edifício, um dos cartões postais da cidade.

Em 1905, Gaudí construiu em La Pobla de Lillet, província da Catalunha, o Chalets Catllaràs e os Jardins Artigas, duas obras pequenas e pouco conhecidas. O Chalets Catllaràs é um edifício para os engenheiros e técnicos que trabalhavam na fábrica de cimento Asland, propriedade de Güell. Os Jardins Artigas compõem um singelo e pitoresco jardim dentro da propriedade de um importante industrial têxtil. Este jardim esteve abandonado por muitos anos. Em 1991, a Reial Càtedra Gaudí começou sua recuperação.

A Casa Milà (1906-1912) é a última obra civil de Gaudí, e uma das mais originais. A obra ganhou da população barcelonesa a alcunha de La Pedrera porque, durante sua construção, os operários que trabalhavam os grandes blocos de pedra nos andaimes davam a forma desejada diretamente por Gaudí. Assim, a construção mais se parecia a uma grande pedreira. Esta casa de proporções bastante consideradas, situada no Passeio de Gràcia, destaca-se pelo emprego de dois sistemas estruturais. Até o último andar, Gaudí utiliza pilares de pedra, tijolo e ferro, e vigas de ferro, o que lhe permite obter uma planta de livre distribuição, pois não há paredes de carga, o que alivia a fachada de funções estruturais. O ático é uma obra prima no uso das catenárias dispostas em forma de leque, de extrema leveza (aproximadamente 5 cm de espessura) e grande resistência, permitindo cobrir o máximo volume de espaço com o mínimo material possível. O uso original deste espaço era de lavanderia, e sua função era de proporcionar isolamento térmico ao edifício.

Atualmente abriga o Espaço Gaudí, uma mostra permanente de suas obras mais importantes, com ficha técnica, plantas e seções, além de uma seleção de fotografias que destacam diferentes aspectos construtivos, ornamentais, técnicos e estéticos de cada obra.

Nas Escolas Provisionais da Sagrada Família (1909), Gaudí continua utilizando a menor quantidade de matéria, obtendo a máxima estabilidade do conjunto a partir da geometria das superfícies regradas. Esta pequena construção, que despertou tanto interesse a Le Corbusier em uma visita a Barcelona, em 1928, é um exemplo do uso das abóbadas de tijolos, bem como das paredes em ondulantes, que têm maior rigidez.

A Sagrada Família
Por suas dimensões, tempo de execução e complexidade geométrica, o Templo da Sagrada Família (1883-1926) é o ponto culminante de todo o universo gaudiniano, síntese do conhecimento e de sua experiência construtiva, bem como de um intenso sentimento religioso. Foi uma obra que o acompanhou durante toda a sua carreira profissional: a partir de 1915, Gaudí se dedica exclusivamente a ela, chegando a viver durante o último ano de sua vida de forma precária e sem luxos, no próprio ateliê instalado na Sagrada Família. Esta obra também guarda um forte sentimento nacional, pois durante a Guerra Civil Espanhola foram destruídas esculturas, móveis e maquetes, bem como queimados os desenhos e demais documentos da obra. A partir de restos encontrados foi possível recuperar alguma documentação e dar continuidade à sua construção.

É na Sagrada Família onde mais se destaca o método de trabalho de Gaudí. Diferente de um escritório de arquitetura - onde, em geral, se elaboram documentos, planos, cálculos ou orçamentos - o local de trabalho de Gaudí, situado debaixo da Sagrada Família, mais se parecia com o ateliê de um escultor, onde se amontoavam modelos em gesso, maquetes, moldes, etc. Gaudí projetava seus edifícios mediante maquetes em constante evolução e chegava a utilizar modelos vivos para as esculturas. Tanto os moldes como as maquetes eram fotografados e o arquiteto logo as pintava, desenhava e corrigia. Gaudí trabalhava com ferramentas e com as mãos diretamente sobre a matéria.

Atualmente, a continuação das obras da Sagrada Família está sendo desenvolvida com as mais avançadas tecnologias CAD-CAM. Até o ano de sua morte, Gaudí havia realizado a Fachada do Nascimento e uma das torres. No dia 10 de junho de 1926, Gaudí faleceu atropelado por um bonde em pleno Eixample barcelonês. Foi enterrado na cripta da Sagrada Família.

Antoni Gaudí foi um arquiteto que viveu o exercício de sua profissão de forma fantástica, entregando-se totalmente às suas obras, que surpreendem pela simplicidade alcançada a partir de uma grande complexidade geométrica e estrutural.

Seu gênio não foi só o de atingir seus objetivos. A observação atenta de seu trabalho é como aquele conto preferido, em que a cada leitura se descobrem detalhes. E a que sempre retornamos.

Bibliografia
COLLINS, George, em CASANELLES, Enric e outros. Antoni Gaudi [seleção e introdução: Salvador Tarragó], coleção Estudios Críticos, no 5, Ediciones del Serbal, Barcelona, 1991
TARRAGÓ, Salvador, op. Citada
ESTÉVEZ, Alberto Tomás. Gaudí. Editora Susaeta, Madri, 2002.
CASANELLES, Enric e outros. Antoni Gaudi [seleção e introdução: Salvador Tarragó], coleção Estudios Críticos, no 5, Ediciones del Serbal, Barcelona, 1991
LAHUERTA, Juan José. Antoni Gaudí, 1852-1926: arquitectura, ideología y política, Electa España, Madri, 1993
MONTANER, Josep Maria. Barcelona. Ciudad y arquitectura, Taschen, Colônia, 1997

AU leituras
www.lavanguardia.es/multimedia/html/extras/gaudi2002/home-gaudi.htm
www.gaudiclub.com/
www.cccb.org/espanol/activ/expos/expos_12.htm
www.gaudi2002.bcn.es/
www.terra.es/arte/gaudi/
www.rutamodernisme.com


Destaques da Loja Pini
Aplicativos