Arquitetura brasileira | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

Arquitetura brasileira

Práticas de resistência nas fissuras da sociedade mercantilista

Edição 137 - Agosto/2005




O contexto da arquitetura contemporânea - Nas duas últimas décadas se tornou clara a crise disciplinar que atinge a arquitetura e o urbanismo. Trata-se de uma crise multifacetada, decorrente principalmente de fatores externos, com sérias conseqüências para a produção do ambiente construído. Embora suas origens sejam várias, o fenômeno da globalização e a conseqüente infiltração e predominância dos valores do mercado na maioria das atividades humanas parecem ser as mais importantes.


Algumas das características dessa crise são:

  • O visível deslocamento do centro real das decisões sobre a cidade do poder público para a iniciativa
    privada, principalmente no chamado Terceiro Mundo. Coincidentemente ou não, nas últimas décadas ocorreu o virtual desaparecimento do poder público como cliente: lembremos apenas a sua importância para o desenvolvimento da arquitetura moderna brasileira entre 1930 e 1970.

  • A maioria das transformações urbanas contemporâneas consiste em empreendimentos privados de grande escala, em geral enclaves fechados relacionados entre si exclusivamente pelas vias de trânsito e pelas redes de comunicações. O tamanho desses empreendimentos permite aos investidores o controle total de todos os seus aspectos, inclusive o urbanismo.

  • O espaço público perde gradualmente importância e está sendo substituído por espaços coletivos privatizados, comumente relacionados com o consumo e o ócio, mas que não funcionam como pontos de encontro à maneira tradicional, em que há mais heterogeneidade e liberdade de ir e vir.

  • A mercantilização da arquitetura. Os edifícios passam a ser tratados como objetos de consumo, cuja organização e aparência seguem as últimas modas ou "tendências".

  • A tematização da arquitetura, ou seja, a redução de suas formas visíveis a uma série de postulados determinados pelas disciplinas da comunicação e do marketing.

  • A espetacularização da arquitetura: em conseqüência do desejo de criar arquiteturas impactantes, cujo valor é essencialmente propagandístico, nossas cidades estão se tornando uma espantosa mistura de Disneylândia com Las Vegas. Não apenas entre os leigos, mas até entre os arquitetos, confunde-se ineditismo com originalidade e inovação formal com qualidade arquitetônica.

  • O surgimento do arquiteto globalizado: num mundo em que a glorificação da personalidade individual é um valor importante, o novo perfil do arquiteto e urbanista o define mais como homem de negócios do que profissional da arquitetura. "Construir uma imagem" passa a ser o mais importante de tudo e o próprio trabalho perde relevância coletiva, tornando-se um pretexto para atingir metas pessoais. O arquiteto globalizado acredita que prestação de serviços significa rendição quase total ao cliente e ao mercado. Com isso, abre mão da dimensão cultural e social da arquitetura.
    Loja Forma, São Paulo, 1987, Paulo Mendes da Rocha. Solução formal e construtiva responde ao programa e ao lugar onde o edifício foi construído, mas consegue transcendê-los, gerando uma pequena obra-prima

    Residencial Barcelona, Sete Lagoas, MG, 1997, Carlos Alberto Maciel. Duas barras paralelas configuram um pátio, solução formalmente clara que cria graus crescentes de privacidade

    A conseqüência inescapável da conjunção de todos esses fatores foi a perda da influência de que a arquitetura gozava até meados do século 20 como centro ideológico do modernismo, e sua conseqüente decadência como profissão relevante aos olhos da sociedade. De um profissional respeitado, sempre ouvido quando da tomada de decisões importantes em grandes e médios empreendimentos, passamos a simples executores de decisões tomadas por outros, em outras esferas, inclusive relativas a assuntos sobre os quais deveríamos ter o domínio.

    Some-se a isso tudo o aumento exponencial do número de arquitetos disponíveis no mercado e a insegurança cultural da clientela, quase sempre convencida de que qualquer coisa estrangeira é melhor, e que vê na arquitetura um meio de ostentação, e temos uma situação realmente muito complicada para a prática da arquitetura com autenticidade e relevância.

    O estado da arquitetura contemporânea
    Assim como a cidade contemporânea, a arquitetura que a constitui não é motivo para orgulho. Apesar da exposição que a arquitetura e os arquitetos têm tido em todos os meios de comunicação, a produção média nunca atingiu níveis de qualidade tão baixos.

    Além das causas já mencionadas acima, poderíamos acrescentar mais duas. Uma delas é o novo papel propagandístico que a arquitetura assumiu no mundo mercantil, sem controle ético no âmbito de um liberalismo político e econômico que utiliza uma pretensa liberdade para anular as reais possibilidades. Assim, nas últimas décadas houve uma escalada vertiginosa em direção à exaltação da originalidade e da excepcionalidade caracterizada por ritmos difíceis de incluir em um processo cultural estável.

    Outra causa da perda de qualidade da arquitetura atual é o rompimento da cadeia que, até há poucas décadas, relacionava a autoridade dos grandes modelos com os projetos menores, que os respeitavam, utilizavam e, inclusive, adaptavam a novas circunstâncias. Esse é um método que provém da modéstia e da excelência de um ofício desempenhado sob a hierarquia dos modelos.

    A arquitetura moderna, com todas as suas variedades, foi o segundo e último sistema formal completo surgido na história da arquitetura. O primeiro foi o classicismo, que ofereceu eficazes modelos de referência. As principais obras da arquitetura atual não cumprem tal papel de modelo interpretável. A arquitetura atual não quer servir de modelo porque sua função é, antes de qualquer coisa, publicitária.

    DPTO Propaganda e Marketing, São Paulo, 1994-95, MMBB. A forma intensa se impõe sobre o caos circundante. A sobreposição de planos de fachada resolve os problemas climáticos e de privacidade

    Atitudes predominantes na arquitetura contemporânea
    Os modos predominantes de abordagem do projeto arquitetônico e urbanístico nas últimas décadas são um reflexo das características mais notáveis da sociedade atual: subordinação aos valores do mercado, espetacularização da vida urbana e culto exagerado à personalidade individual.

    Uma das atitudes predominantes é a que resulta no que muitos chamam de arquitetura cenográfica, caracterizada pela inspiração direta na arquitetura do passado e pelo uso literal dos seus elementos. Seu objetivo é criar associações reconfortantes por meio de imagens familiares. Seu resultado é criar ambientes em que tudo é falso e culturalmente irrelevante, além de não representar qualquer atitude positiva perante o entorno. Mas sua pior conseqüência como postura regressiva e antimoderna é infantilizar e corromper os usuários, pois não os educa e os mantém num estado primitivo de cultura visual.

    É entristecedor constatar que não apenas a construção comercial abraça a via cenográfica, convencida de que só produzindo lixo cultural terá retorno assegurado para os seus investimentos, mas que muitos arquitetos a adotam sem hesitação. Certamente não se deram conta de que "voltar ao passado é uma virtude dos fracassados", como declarou Paulo Mendes da Rocha em entrevista recente.

    Ao mesmo tempo, é possível perceber uma atração disseminada por uma arquitetura "interessante", cuja principal característica é a busca por apelo visual por meio de configurações inusitadas e manipulações caprichosas dos elementos de arquitetura. Seus produtos são geralmente edifícios cuja forma não tem qualquer lógica visual, além de ter pouco a ver com o programa que abrigam ou os lugares onde se inserem. Infelizmente, a maioria da produção brasileira atual se encaixa nessa categoria.

    Catedral da Sagrada Família, Campo Limpo, SP, 1997, Projeto Paulista de Arquitetura. Agrupamento de blocos prismáticos responde à configuração do lugar e adquire transcendência pelo uso da luz e pela variação em altura, recursos que reforçam a hierarquia do programa

    Por trás de toda tentativa deliberada de obter uma arquitetura "interessante" há sempre decisões arbitrárias, falta de lógica e inconsistência formal. Sua conseqüência direta é o caráter culturalmente irrelevante dessa produção e a exacerbação do caos visual urbano.

    Nessa atitude se abrigam aqueles que confundem criatividade com manipulação gratuita da forma e contenção formal com pobreza visual. Sempre que se tem por objetivo criar objetos complexos e impactantes, termina-se com complicação e excesso. Talvez nunca tenha sido tão importante lembrar Mies van der Rohe: "o objetivo do arquiteto não é fazer arquitetura interessante, mas sim boa arquitetura".

    Se a arquitetura cenográfica pode ser comparada à pornografia - explora os baixos instintos das pessoas, lhes dá um prazer momentâneo deixando um gosto amargo depois -, a arquitetura "interessante" é uma produção narcisista, irresponsável e míope, cuja visão alcança apenas o edifício isolado e por isso quer dotá-lo de tanto interesse visual pela proliferação de elementos supérfluos. Essa arquitetura não se dá conta de que cada objeto só tem significado na sua relação com os demais, e que a variedade tem que ser buscada nos conjuntos urbanos - não em cada edificação individual. Nenhuma dessas atitudes contribui com nada de positivo para as pessoas e para a cidade.

    É importante notar que uma característica comum às duas atitudes descritas acima é que suas formas e aparências não seguem uma lógica relacionada com programa, lugar ou técnica construtiva, e que as estratégias e elementos empregados raramente são pertinentes ao problema arquitetônico que está na origem do projeto.
    Casa em Rio Bonito, Nova Friburgo, RJ, 2002, Carla Juaçaba. Um objeto de pequeno tamanho que se torna perceptivamente grande pela integração dos espaços internos e destes com o exterior. Interessante contraposição de peso e leveza, opacidade e transparência. A pedra é usada sem sentimentalismo

    O conteúdo desta parte do ensaio não é resultado de uma atitude de quem sabe tudo e quer impor suas crenças aos demais, sem respeitar outras opiniões e abordagens. Trata-se, isso sim, de comparar dois estágios do desenvolvimento da profissão e constatar que o atual representa perdas não apenas para a profissão, mas também para aqueles que são servidos por ela. Lamentamos a perda do sentido público da arquitetura, traduzido não apenas no serviço que arquitetos e urbanistas podem prestar, mas também no necessário senso de responsabilidade envolvido em lidar com os recursos duramente amealhados por indivíduos e coletividades.

    Arquiteturas silenciosas: a evolução do modernismo no Brasil
    As páginas anteriores sugerem um panorama desalentador para aqueles que ainda vêem a arquitetura como uma profissão com compromissos culturais e sociais. Embora seja cada vez mais difícil reunir as condições necessárias e suficientes para uma prática culturalmente relevante, e o número de obras consistentes seja diminuto em relação ao que é construído no País, uma observação atenta mostra que ainda há espaço para a arquitetura autêntica, ainda que seja cada vez menor.

    Aqui e ali se observa uma arquitetura que, se fosse receber algum qualificativo, poderia ser chamada de "silenciosa". Essa produção rechaça a concepção artística promovida pela pseudocultura midiática atual, que resulta em uma agressão histérica aos sentidos e ao bom senso. Ao contrário, afirma uma concepção de arte como contemplação e introspecção.

    Antes que pareça que estou falando sobre uma miragem, me apresso a identificar a produção a que me refiro como "arquiteturas silenciosas": trata-se de um grupo não muito numeroso de obras projetadas e construídas em várias partes do Brasil, de autoria de arquitetos de várias gerações, sendo o mais proeminente deles Paulo Mendes da Rocha, nosso melhor arquiteto há pelo menos duas décadas - e talvez aquele que melhor represente os princípios desse modo de praticar arquitetura.

    DVR Escritórios, Barueri, SP, 2003, ar.co arquitetos. O projeto entende a importância relativa do programa na cidade, mas não tenta monumentalizar o edifício. O modo como qualifica o espaço urbano e gera áreas coletivas sob o prédio e no pátio é exemplar

    Do ponto de vista projetual, essas arquiteturas caracterizam-se por adotarem formas elementares, serem pouco ornamentadas e figurativamente neutras, constituindo objetos enganosamente simples, cuja complexidade vai sendo revelada à medida que nos familiarizamos com eles. A falsa simplicidade dessa produção, encontrável ao longo do século 20, afasta aqueles que buscam a satisfação imediata dos sentidos, mas gratifica a persistência dos que se permitem um envolvimento emocional mais prolongado.

    A arquitetura que menciono não surgiu do nada. A melhor produção brasileira dos últimos 30 anos pode e deve ser vista como uma continuação e evolução daquele modernismo, surgido aqui na década de 30, que ganhou admiração em todo o mundo. Apesar de nas últimas décadas ter surgido um grande número de doutrinas que se propunham como substitutas de um modernismo supostamente superado, a existência de uma produção como a que comento aqui é prova cabal da vigência da modernidade. Conforme Helio Piñón, "o organicismo, o realismo, o brutalismo, o historicismo, a tendenza, o inclusivismo, o sintaticismo, o pós-modernismo, o regionalismo crítico, a desconstrução e, há alguns anos, o minimalismo, são as doutrinas mais celebradas até hoje entre as que tentaram - pelo que se vê, sem sucesso ¿ enterrar para sempre os princípios e critérios sobre os quais se apóia a noção moderna de ordem".

    Considerando tudo o que aconteceu nas últimas décadas e o cenário em que ocorre a prática atual, o que segue deve ser entendido tanto como uma explicação do que chamo "arquiteturas silenciosas" quanto da própria modernidade em arquitetura.

    Na sua essência, a arquitetura moderna representou uma ruptura metodológica com o classicismo. No modernismo, a imitação é substituída por uma idéia autônoma de forma, desvinculada de qualquer sistema prévio ou exterior. A partir daí, o marco de legitimidade da obra se situa no âmbito do objeto, onde deve ser buscada a lógica da sua constituição como artefato ordenado por leis que lhe são próprias.
    Loja Montenapoleone, São Paulo, 2002, Aurelio Martinez Flores. Economia de meios sem resultar em escassez. A concentração da estrutura resistente em uns poucos pontos resulta na liberação do nível térreo

    A modernidade abandona a autoridade normativa do modelo arquitetônico pela construção formal, conceito fundamental para a concepção moderna, que continua sendo de extrema utilidade para a prática e o ensino de arquitetura.

    Em termos metodológicos, a construção formal é a armação da forma como um quebra-cabeça, passo a passo, num processo de tentativa e erro, em vez de adotá-la como uma totalidade importada de outra situação. Por esse procedimento se obtém a síntese dos vários subsistemas que compõem uma obra de arquitetura, em uma estrutura formal que possua identidade, sentido e consistência.

    Em um tempo sem certezas, em que as coisas sempre podem ser de outro modo, afastar ao máximo a ameaça da arbitrariedade é essencial para se obter uma arquitetura autêntica. A arquitetura moderna nos ensina que um modo de controlar essa arbitrariedade é fundamentar as decisões projetuais sobre as condições intrínsecas e específicas de cada problema arquitetônico. O outro modo de garantir esse controle é não ter a busca da inovação constante como objetivo. As condições internas a cada problema arquitetônico são o programa, a técnica e o lugar. O projeto é, portanto, uma síntese formal dessas três condições que utiliza os materiais arquitetônicos (estruturas formais e elementos de arquitetura) fornecidos pela história e resulta em uma ordem visual/espacial que define a identidade formal de cada objeto.

    A busca de definição e identidade formal parece ser uma preocupação central de todos projetos aqui ilustrados. Mas é importante notar que, como na arquitetura moderna em geral, a noção de forma não se refere à aparência externa das obras, senão à estrutura relacional ou sistema de relações internas e externas que configuram um artefato ou episódio arquitetônico e determinam a sua identidade.
    Museu Rodin, Salvador, 2004, Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci. Solução pavilhonar introvertida que não compete com o palacete dá novo sentido ao conjunto e mostra como é possível a integração de arquiteturas muito diferentes

    O entendimento da noção de forma como estrutura relacional tem pelo menos três implicações importantes:

  • o arquiteto não é apenas um gestor de imagens de moda: seu trabalho vai muito além da superfície externa dos edifícios;
  • o verdadeiro ato criativo não está nos elementos, mas na ação de associá-los, o que explica porquê os projetos de Mies van der Rohe podem se parecer tanto, ao mesmo tempo em que são muito diferentes na essência;
  • a crença de que os objetos modernos são indiferentes ao entorno em que se inserem está errada. Se fosse verdade, violaria um princípio essencial do pensamento criativo da modernidade: sua renúncia aos valores de objeto como algo fechado em si mesmo.

    Atingir a identidade formal é o objetivo maior da concepção arquitetônica, pois é um valor essencial da obra de arquitetura, especialmente da arquitetura moderna. A identidade formal é a ordem específica de cada obra, aquela condição de estrutura constitutiva própria de cada objeto, independente de fatores externos e estreitamente vinculada à presença de uma estrutura formal consistente - isto é, constituída sobre os requisitos do programa, somadas às relações com seu entorno, que definem sua organização espacial.

    É exatamente a presença de uma estrutura formal, clara e consistente, definidora da identidade do objeto o que separa a arquitetura de qualidade daquele funcionalismo barato que deriva a planta do organograma funcional, assim como a separa dos projetos cuja aparência resulta de decisões arbitrárias, da imposição de caprichos pessoais ou de influências externas ao problema.
    Espaço de Convivência do Campus I, FUMEC, Belo Horizonte, 2003, Andréa Vilella Arruda & Sérgio Palhares. Um pavilhão que consegue ser acolhedor sem recorrer a elementos nostálgicos. A estrutura metálica define o caráter geral do edifício e possibilita o grande vão livre, enquanto os elementos de madeira filtram o sol e conferem tactibilidade ao objeto

    Se for certo que cada artefato moderno encontra seu critério de forma só ao final do processo da sua constituição, então o que define a sua qualidade está estreitamente vinculado à identidade de sua estrutura espacial.

    Observada com atenção, a arquitetura brasileira contemporânea autêntica se caracteriza por sua economia, rigor, precisão e universalidade, critérios presentes na melhor arquitetura moderna tanto para o projeto quanto para sua verificação.

    Por economia de meios físicos e conceituais, entenda-se o uso do menor número possível de elementos para resolver um problema arquitetônico. Economia de meios não é minimalismo, que é um estilo, uma meta que se busca atingir, nem escassez deliberada de elementos para obter uma aparência despojada. É totalmente errado eliminar elementos necessários a um projeto em benefício da forma pura. A forma econômica, caracterizada pela elementaridade, resulta em intensidade formal, o que garante a sua capacidade para existir em áreas onde os estímulos visuais são excessivos.

    A precisão de um projeto acentua sua identidade formal, o que facilita o entendimento da sua estrutura formal e a própria construção material do objeto. Projetar com rigor significa excluir de um projeto tudo aquilo que não contribui para a sua intensidade e consistência formal, focalizar a concepção em aspectos relevantes e transcendentes do problema arquitetônico, deixando de fora o que for meramente acessório. A arquitetura autêntica é rigorosa na hierarquização do programa e na definição dos elementos que materializam sua estrutura formal. Um dos problemas principais da maior parte da produção contemporânea é exatamente sua falta de rigor, traduzida em configurações arbitrárias e excesso de elementos.
    Instituto Presbiteriano Mackenzie - Campus Tamboré, Barueri, SP, 2003, Francisco Spadoni e Lauresto Esher. Um jogo de introversão/dispersão - ou formalidade/informalidade - em que um foco espacial linear ao longo da cota mais alta do terreno se contrapõe a uma série de edifícios também lineares que, partindo dessa espinha dorsal, estabelecem conexões com a natureza circundante e começam a definir espaços mais informais


    A universalidade de um objeto tem a ver com a essencialidade da sua constituição, valor cujo reconhecimento constitui uma qualidade específica da espécie humana. Além da possibilidade do seu reconhecimento, objetos dotados de universalidade têm maior possibilidade de permanência com dignidade e utilidade.

    As características aqui descritas, assim como os projetos que acompanham este texto, demonstram que há outro caminho possível para a prática da arquitetura além daqueles privilegiados pelos meios de comunicação. Este é, reconhecidamente, um caminho mais difícil, pois implica fazer a arquitetura retomar um papel cultural e social que quase ninguém quer mais lhe conceder. Mais do que isso, significa para aqueles que o trilharem operar a partir de uma atitude que privilegia valores contrários à cultura midiática atual, preferindo a modéstia ao estrelato, a discrição ao estardalhaço, a relevância ao impacto imediato, a qualidade real à vinculação aos últimos "ismos".

    Que existam arquitetos praticando nessa direção e que existam clientes que acolham suas propostas é motivo para um otimismo discreto, que não leva a acreditar numa reversão dramática e redentora do panorama atual, mas que também não nos deixa mergulhar na apatia por acreditar que tudo está perdido.

    Concluo com uma declaração de Helio Piñón em entrevista concedida a Ana Rosa de Oliveira, em dezembro de 2000. Embora tenha sido dita em outro contexto, a frase é perfeita para o caso da arquitetura brasileira contemporânea:
    "A existência de produção de tal qualidade mostra que, quando uma atividade chega a ser tão supérflua para a cultura atual como é a arquitetura, não há nenhuma desculpa para não se aspirar à excelência".

    Casa BF, Nova Lima, MG, 2003-04, Humberto Hermeto. O edifício mirante da tradição modernista é sustentado por elementos e técnicas de tempos imemoriais. O bloco transparente em balanço adquire significado na relação com a base sólida ancorada na terra

    Casa Coelho, Xangri-lá, RS, 1999, Júlio Ramos Collares e Dalton Bernardes. Uma inteligente combinação entre valores modernos (horizontalidade, transparência, abstração, planaridade) e tradicionais (cobertura inclinada, madeira), implantada em um lugar onde predominam o historicismo mal informado e a arbitrariedade narcisista


    Reportagem de Edson da Cunha Mahfuz
    AU 137 - agosto de 2005


    *Edson da Cunha Mahfuz é arquiteto, professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul


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