O ENGENHEIRO DAS CURVAS DE BRASÍLIA | aU - Arquitetura e Urbanismo

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O ENGENHEIRO DAS CURVAS DE BRASÍLIA

DISCRETO. INVESTIGATIVO. HOMEM DA CIÊNCIA, HOMEM DAS ARTES, DE ESPÍRITO INQUIETO E ALMA BRASILEIRA, JOAQUIM CARDOZO DEIXOU UM LEGADO INESTIMÁVEL PARA A ENGENHARIA DE ESTRUTURAS AO CONCRETIZAR AS FORMAS ARQUITETÔNICAS INUSITADAS PROPOSTAS POR OSCAR NIEMEYER EM BRASÍLIA - ALGUMAS DAS QUAIS ATÉ HOJE SÃO DESAFIOS PARA A COMPREENSÃO E O RACIOCÍNIO LÓGICO

POR YOPANAN REBELLO E MARIA AMÉLIA D'AZEVEDO LEITE
Edição 165 - Dezembro/2007

A cidade com corpo de pássaro de Lucio Costa é, desde o nascimento, um ícone da arquitetura moderna e sua fama percorreu o mundo tendo como marcas registradas, além do traçado urbanístico peculiar, os edifícios de formas instigadoras de Oscar Niemeyer. Inaugurando um novo tempo na história do País, Brasília despontou como símbolo de um horizonte de possibilidades políticas e sociais.

O desejo do arquiteto de fazer da nova capital um marco diferenciado da arquitetura moderna, apoiado irrestritamente pelo presidente Juscelino Kubitschek e por todo o grupo de técnicos que o acompanhou, contou com a genialidade e a ousadia de um profissional obstinado pela engenharia e pelas artes. Mas, apesar disso, freqüentemente ignorado nos abundantes textos e publicações sobre a obra de Niemeyer e a respeito de Brasília.

Joaquim Maria Moreira Cardozo (1897- 1979), cidadão recifense de origem humilde, superou com seu brilhantismo qualquer descompasso de formação que porventura tenha tido em relação aos profissionais proeminentes da área à época, em geral advindos de classes sociais mais abastadas e graduados em renomadas escolas no exterior. Conhecido por sua personalidade introspectiva e uma ligação atávica com as ciências, Joaquim Cardozo foi um elo definitivo na cadeia de fatores que levaram a obra de Niemeyer ao patamar de reconhecimento que possui, em especial no que tange àquele período.

A convicção de Oscar Niemeyer no uso das formas curvas é de domínio público, sendo quase a declaração de honra de seu trabalho, expressa nas memoráveis palavras:
"... Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, na mulher preferida, nas nuvens do céu e nas ondas do mar. De curvas é feito todo o universo. O universo curvo de Einstein...".

É em Brasília que o traço livre e generoso do arquiteto encontra sua expressão privilegiada, influenciada pelos sonhos e intenções político-ideológicas das equipes envolvidas. O próprio Niemeyer confessa:
"... mas foi em Brasília, nos palácios da nossa Capital, que a forma plástica mais me preocupou, desejo de encontrar nova solução estrutural que os caracterizasse. São as colunas recurvadas, acabando em ponta, que os fazem leves e vazados como que apenas tocando o solo. Na concepção desses palácios, preocupou-me também a atmosfera que dariam à Praça dos Três Poderes. Não a pretendia fria e técnica, com a pureza clássica, dura, já esperada das linhas retas. Desejava vê-la, ao contrário, plena de formas, sonho e poesia...".

As colunas dos palácios, a volumetria divinal da Catedral e as cúpulas do Congresso Nacional, como símbolos de uma nacionalidade em expansão, foram um desafio para além de sua expressão ideológica. A complexidade estática das formas propostas, contrapondo os esforços atuantes às características resistentes do material, impunha a necessidade de uma concepção estrutural inovadora, inédita e, por que não dizer, atrevida.

O envolvimento de Joaquim Cardozo foi pleno, em mente e coração, no enfrentamento dos problemas científicos e construtivos que envolveram a resolução dessas e outras obras igualmente singulares, custando-lhe inúmeras vezes críticas acirradas por parte de profissionais e entidades ligados à engenharia estrutural.

Movia-se pelo desígnio de viabilizá-las e pela motivação de fazer dessas os baluartes da engenharia e da técnica construtiva brasileiras, frente a um mundo tecnológico em desenvolvimento e sob o domínio de algumas poucas potências internacionais. Sempre rebelde e inconformado com toda e qualquer tendência de subserviência que pudesse ser manifestada pelos brasileiros em relação aos ditames estrangeiros, Joaquim Cardozo pregava a importância de uma soberania nacional no tocante ao conhecimento, voltada à resolução adequada de nossos problemas sociais.

Em discurso para formandos da Escola de Engenharia da Universidade do Recife à época da construção de Brasília, exortou os alunos a observarem a importância daquele momento, quando se agitavam por todo País "as vivas aspirações, os mais sinceros desejos de desenvolvimento e progresso". Disse ainda que, diante de homens cujos destinos estariam inevitavelmente ligados ao destino do País, não seria ele a lhes dizer, de forma desvairada, que tudo seria fácil, que a nação já se encontrava capacitada e aparelhada para um grande porvir, nem também, "assumindo a atitude frouxa e passiva de muitos outros, aconselhar-lhes que, ao deixar as salas de estudo desta escola, saiam já submissos e de cabeça baixa às injunções e exigências de prepotentes senhores estrangeiros".

Além da adesão irrestrita aos preceitos da arquitetura moderna, sem dúvida o sentido nacionalista ligava fortemente Joaquim Cardozo a Oscar Niemeyer. Por isso, nutriu seu trabalho na busca de soluções para os intrincados problemas estruturais que lhe permitiram contribuir para a consolidação de uma cultura arquitetônica brasileira de repercussão internacional.

Cultura esta que Niemeyer tantas vezes, de maneira estóica, revela ter defendido. "Brasil... Quantas vezes me senti jacobino ao defender meu país no exterior. Ao recusar as críticas, não raro justas, feitas muitas vezes num tom amigo e conselheiro! Mas, não sei por que, nunca as tolerei... E quando a conversa caminhava para o campo da cultura, eu explodia: 'como é fácil para nós, brasileiros, invadir o mundo da imaginação e da fantasia! Nosso passado é modesto e tudo nos permite realizar'. E continuava: 'Como deve ser difícil para vocês realizarem coisa nova, a circularem a vida inteira entre monumentos!' E repetia minha frase predileta: 'Nossa tarefa é outra: criar hoje o passado de amanhã'".

Se foi Niemeyer a criar esses tempos na arquitetura, quem os materializou, concretos, foi Cardozo.

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