FLORES EXÓTICAS | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

FLORES EXÓTICAS

DO PONTO DE VISTA DE UM EUROPEU, OS EDIFÍCIOS DE NIEMEYER NESSE CONTINENTE, EMBORA RAROS E POR VEZES DESLOCADOS, INTRODUZIRAM CALOR E SENSUALIDADE ONDE FORAM IMPLANTADOS

POR JONATHAN GLANCEY FOTOS LEONARDO FINOTTI
Edição 165 - Dezembro/2007

Quando Niemeyer voltou a trabalhar na Europa em meados dos anos 60, foi chamado para executar grandes projetos institucionais, cívicos e corporativos. O bloco de apartamentos em Tiergarten é com freqüência esquecido nas listas dos trabalhos de Niemeyer na Europa. Desde Brasília, quando pensamos em Niemeyer, a tendência é nos lembrarmos apenas dos projetos monumentais.

O mais famoso de seus monumentos europeus é sem dúvida o quartel-general do Partido Comunista Francês (PCF) no 20º arrondisement de Paris, concluído em 1972. A ambição e qualidade do prédio, composto por um bloco sinuoso de administração construído com aço e vidro, articulado por um saguão subterrâneo a uma espetacular sala de congressos abobadada, é uma lembrança de como o PCF era poderoso naquela época. Fundado em 1920, o partido ganhou enorme prestígio por seu papel heróico na resistência à ocupação alemã na França. Nas eleições francesas de 1945, 159 membros do partido foram eleitos para a Assembléia Nacional, quase 30% do total. O PCF, no entanto, foi em muitos aspectos um corpo conservador, apesar de não ser possível imaginar isso ao ver o prédio carismático de Niemeyer. O PCF apoiou as guerras coloniais francesas nos anos 50. Foi contra as manifestações estudantis de 1968. Aprovou a ocupação soviética de Praga naquele mesmo ano.

Hoje, o PCF é uma sombra de sua formação original. Nas eleições francesas de 2007, somente 15 de seus representantes entraram para a Assembléia Nacional e suas finanças estão em sérias dificuldades. Tanto é que o partido pode ter de vender a famosa sede projetada por Niemeyer. Se o fizer, haverá muitos compradores interessados - o prédio está na moda faz muitos anos. Em 2000, recebeu um desfile da Prada. Mais recentemente, em 2007, abrigou a conferência anual do Riba (Royal Institute of British Architects). Apesar disso parecer estranho, ou até errado para membros antigos do PCF, o prédio de Niemeyer é, de fato, visto como fashion, glamouroso e atual - tudo o que o PCF não é.

É necessário entender que a extrema esquerda na política francesa era o foco de artistas e intelectuais altamente cultos, dentre eles Pablo Picasso. Mas havia também stalinistas filisteus como Pol Pot, que foi membro do PCF quando estudava engenharia em Paris. Assim, quando Niemeyer, um comunista devotado, chegou na capital francesa após o golpe militar de 1964, foi bem recebido por políticos, artistas e intelectuais, que se alegraram com a sensualidade e alegria de sua arquitetura que, é preciso dizer, nunca seria apoiada por Moscou.

O principal protetor de Niemeyer na França foi André Malraux (1901-1976), o aventureiro, herói da Resistência, ministro gaulês da cultura, autor e intelectual. Malraux nunca foi um comunista. Certa vez escreveu, "o maior mistério não é termos sido lançados ao acaso na profusão terrestre e nas galáxias de estrelas, mas nesta prisão termos criado imagens de nós mesmos poderosas o suficiente para negar nossa insignificância". Penso que ele deve ter visto tais "imagens de nós mesmos" nas audazes e imaginativas formas de Niemeyer.

Em uma entrevista dada em 2006 para o jornal francês L'Humanité, fundado pelo PCF, Niemeyer recordou: "Eu me lembro... de ser surpreendido pelas boas-vindas recebidas de André Malraux, quem eu sempre respeitei. 'Coloquei sua arquitetura no meu museu imaginário, onde mantenho tudo o que vi e admirei no mundo'. Ele encontrou uma maneira de me deixar trabalhar na França como arquiteto francês e, graças a isso, durante minha estada em Paris, pude projetar a Maison de la Culture, em Le Havre, a bolsa do trabalho, em Bobigny, a sede do PCF em Paris e a sede do L'Humanité, em Saint-Denis". Niemeyer ainda contou ao L'Humanité que agora ele estava de volta à Europa, em espírito senão em pessoa, trabalhando em projetos na França, Alemanha e Itália, mais de meio século após ter chegado pela primeira vez à Europa, a Berlim, em 1953.

Até hoje, a sede do partido comunista em Paris ainda é o mais bem-sucedido edifício de Niemeyer no continente europeu. O conjunto casa de maneira convincente o bloco de aço e vidro com a sala de congressos de forma abobadada. O primeiro é europeu moderno. O segundo tem um inesperado ar arquitetônico da América Latina. No térreo, as duas estruturas são unidas por um pátio sinuoso de concreto, completo com um terraço que se curva para cima e compõe a parede. Dentro e fora, essa habilidade para fazer de piso paredes, e de paredes, pisos, antecipa em várias décadas arquitetos como Zaha Hadid e UN Studio. No subsolo, os acessos para a sala de congresso são material para filmes de ficção científica. Não é de se admirar que o prédio esteja tão em voga para eventos de moda.

Quando Niemeyer adotou uma identidade brasileira mais pura nos seus edifícios europeus, os resultados foram os mais variados. O ambicioso centro que ele desenhou ao lado de um lago para a editora Mondadori, a maior da Itália, na Segrate, periferia de Milão, é uma espécie de revisão de seu trabalho no belíssimo Palácio da Alvorada, o palácio presidencial em Brasília, construído em 1958 e restaurado em 2005.

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