FLORES EXÓTICAS | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

FLORES EXÓTICAS

DO PONTO DE VISTA DE UM EUROPEU, OS EDIFÍCIOS DE NIEMEYER NESSE CONTINENTE, EMBORA RAROS E POR VEZES DESLOCADOS, INTRODUZIRAM CALOR E SENSUALIDADE ONDE FORAM IMPLANTADOS

POR JONATHAN GLANCEY FOTOS LEONARDO FINOTTI
Edição 165 - Dezembro/2007

A sede da Mondadori é um impressionante e belo complexo de três prédios interligados e, com o lago, a colunata do bloco central, as formas voluptuosas e os saguões e restaurantes subterrâneos, se parecem mais com a essência da arquitetura de Niemeyer. Mas esse centro editorial existe em um mundo próprio, afastado das complicações de planejamento da parte histórica de Milão e, nesse sentido, foi bem-sucedido em um contexto europeu sem ter que trabalhar duro para atingir esse sucesso, com uma lei própria.

O centro cultural em Le Havre, por outro lado, é um projeto bem brasileiro na forma e na aparência, e parece um pouco desconfortável por sua localização na costa fria e úmida da Normandia. Aqui está um prédio, e lugar público, implantado na foz do rio Sena, implorando pelo sol tropical e mares do sul. Conhecido localmente como "vulcão", "pé de elefante" ou "pote de iogurte", a Maison de la Culture é um dos diversos projetos construídos na França sob a direção original de André Malraux. A idéia era criar uma Maison de la Culture em cada bairro ou província da França como parte de um processo descentralizador do poder político e cultural. Contudo, isso nunca aconteceu.

O projeto de Niemeyer, concluído em 1982, tem a forma de dois "vulcões" de concreto com pintura branca que emergem de uma praça rebaixada. As construções ficam nos limites da cidade à beira-mar e contrastam deliberadamente com a arquitetura dominante de Le Havre. Isso, a propósito, é muito distinto. O centro da cidade foi destruído pela luta dos Aliados contra as forças alemãs entre o fim do verão e início do outono de 1944. A maior parte do estrago foi causada por um bombardeio da RAF (Royal Air Force, a força aérea britânica).

Le Havre foi reconstruída por Auguste Perret (1874-1954), o antigo mentor de Le Corbusier. Posicionadas em grelha ortogonal, as ruas são delineadas com os prédios de concreto "estruturais racionalistas" de Perret. Em sua maioria, blocos vastos e austeros de edifícios sem elevadores, dominados pela poderosa e um tanto assustadora torre de 106 m da extraordinária igreja de São José. Os "vulcões brancos" de Niemeyer trazem um certo alívio diante dessa dose de rígidez do Atelier Perret. Ainda assim, parecem não pertencer àquele lugar, como estranhos trazidos pela maré. Refugiados arquitetônicos, os volumes parecem olhar o mar na esperança de conseguir uma oportunidade de ir para uma parte mais quente do mundo.

Um país europeu que teve pouca influência nos trabalhos e vida de Niemeyer é a Grã-Bretanha. Pelo que se sabe, o arquiteto nunca visitou a Grã-Bretanha. Em 1998, aos 92 anos, recebeu a Royal Gold Medal for Architecture, um prêmio da rainha entregue pelo Riba, mas não quis viajar a Londres para a ocasião. Talvez, as formas sensuais de Niemeyer e sua crença de que a arquitetura é, acima de tudo, invenção, tenham feito dele uma criatura muito exótica para o consumo britânico.

Em anos recentes, no entanto, a arquitetura britânica adotou uma atitude mais relaxada, se desfez de seus metafóricos coletes engomados e rígidos paletós de tweed. Para uma geração jovem da Inglaterra, Niemeyer é o máximo do chique. Mesmo assim, ninguém pediu que desenhasse um prédio por lá. Pelo menos até 2002, quando Juliet Peyton-Jones, diretora da Serpentine Gallery, uma instituição artística situada na belíssima região do Parque Kensington, em Londres, foi visitar Niemeyer no Rio para pedir que considerasse a proposta de criar um pavilhão de verão para a galeria no ano seguinte.

Peyton-Jones havia contratado com sucesso, nos anos anteriores, projetos de Zaha Hadid, Daniel Libeskind e Toyo Ito. Inicialmente, Niemeyer recusou, mas mudou de idéia quando Peyton-Jones foi vê-lo. O resultado foi um sketch de Niemeyer, executado com perfeição em concreto, aço e vidro. De fato, o Serpentine Pavillion de 2003 parecia mais um prédio que poderia durar muitos anos do que uma estrutura temporária. De certa maneira, foi uma forma de muitos londrinos experimentarem um prédio do arquiteto.

O Serpentine Pavillion não foi tão sensacional quanto o cativante Museu de Arte Moderna de Niterói, mas ofereceu um gostinho do trabalho do arquiteto para o grande público britânico e se tornou muito popular. Muitos visitantes perguntaram por que não temos um prédio permanente de Niemeyer na Grã-Bretanha. Infelizmente, parece que isso nunca será possível. Não apenas Niemeyer está envelhecendo, mas suas energias atuais, tirando o Brasil e a América Latina, estão concentradas em países europeus, principalmente na Itália, onde projetou uma sala de concerto para Ravello, na costa de Amalfi, e na Alemanha, onde, após tantos anos, projetou uma piscina pública para Potsdam, a sudeste de Berlim.

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