AS CALÇADAS DESCALÇAS | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

AS CALÇADAS DESCALÇAS

DEIXA QUE FICA PARA VER COMO É QUE ESTÁ

POR SERGIO TEPERMAN
Edição 165 - Dezembro/2007

Agora que a lei Cidade Limpa surpreendentemente pegou em São Paulo e imagina-se (ou ameaça-se) que pegue em outras cidades, surge uma proposta: que tal aproveitar a idéia e limpá-las realmente? Não imagino que do ponto de vista urbanístico, haja algo de mais deprimente - e perigoso - para a população do que a falta de qualidade das calçadas. A questão é tão evidente que parece impensável a deterioração, que chega ao ponto do desaparecimento das calçadas das cidades brasileiras.

E o seu pior exemplo é justamente a cidade mais rica. Há uns 20 anos havia uma seção na Folha de S. Paulo que entrevistava e fotografava habitantes contando o que havia de bom ou de ruim na cidade. Fui visitado por um repórter e um fotógrafo e desci com eles para mostrar o horror da calçada ao lado de nosso prédio. O fotógrafo foi recuar para tirar uma foto minha ao lado de uma cratera e pam! Caiu na cratera que estava atrás, danificando a sua máquina. A Folha deve ter achado o exemplo muito instrutivo, apesar do prejuízo.

Além de totalmente danificadas, irregulares, com desníveis e revestidas com materiais diferentes, as calçadas paulistanas são estreitas e ocupadas de maneira absolutamente desordenada por sinais de trânsito, postes, lixeiras, pontos de ônibus, luminárias, anúncios, bancas de jornal, orelhões, bueiros destampados (tampa roubada) e pela praga dos ambulantes. Para essa limpeza, seria ideal que toda noite passasse um enorme e potente caminhão de lixo que recolhesse e triturasse todos esses itens.

Certa noite, com o carro parado no semáforo na esquina das avenidas Rebouças e Faria Lima, em São Paulo, eu vi (juro!) um sujeito que estava caminhando na calçada simplesmente desaparecer dentro de uma enorme escavação (trabalho de concessionária) ao virar a esquina. Como nas famosas pegadinhas, não deu para reprimir o nosso riso.

Por que chegamos a uma situação tão calamitosa? Há dezenas de razões, mas podemos citar algumas:

1) A falta de planejamento e a irresponsabilidade das concessionárias de serviços públicos que arrebentam diariamente ruas e calçadas.

Como se pensa sempre no imediatismo do mais barato, a "paisagem" urbana é atulhada de postes e fios elétricos, obrigando a cortes de árvores ou de energia.

Lucio Costa, no memorial descritivo para o projeto de Brasília, escreveu, "a rede elétrica será enterrada, como em toda cidade civilizada". Em boa parte do Rio de Janeiro é assim.

2) A situação absurda estabelecida pela lei, segundo a qual cabe a cada um cuidar da calçada em frente ao seu imóvel, eximindo a responsabilidade da prefeitura.
As autoridades agindo assim pensam que estamos na Suíça, onde os carros são bem sujos por dentro, cheios de papéis do excelente chocolate nacional, mas, em compensação, as ruas são limpíssimas, porque todo mundo deixa os papéis no carro.

Na democrática Cingapura, chiclete no chão é multa de 500 dólares (é proibido importar) e prisão na reincidência, mas você pode, se fizer muita questão, voar até a Austrália para dar uma mascada. Fico pensando qual seria a pena para a sujeira do graffiti.

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