Corpo vivo | aU - Arquitetura e Urbanismo

Sustentabilidade

Triptyque . São Paulo, SP . 2007/2008

Corpo vivo

HARMONIA, NOME DO NOVO EDIFÍCIO COMERCIAL DO TRIPTYQUE ARQUITETOS, SIGNIFICA MAIS QUE A SIMPLES REFERÊNCIA À RUA ONDE FICA. REFLETE O ESPÍRITO INTERCAMBIÁVEL E FLUIDO DE SUA ARQUITETURA

POR SIMONE SAYEGH FOTOS NELSON KON
Edição 174 - Setembro/2008

A primeira pergunta a um dos autores do projeto de arquitetura do edifício Harmonia, na Vila Madalena, foi: "Por que um prédio assim? Alguém pediu?" A resposta traduz a certeza de que uma boa e significativa parte da construção da imagem da cidade está nas mãos dos arquitetos e na sua habilidade de propor soluções e lançar idéias. "Não, ninguém pediu. A proposta era apenas um simples prédio comercial, e tudo isso veio junto com nossa maneira de ver o mundo e nosso sistema de projetação", explicam os integrantes do Triptyque, jovem escritório de arquitetura de São Paulo, responsável por arejar, literal e simultaneamente, a construção e o conceito de um edifício comercial. O "tudo isso" dos arquitetos certamente refere-se à integração harmônica (apesar do clichê, não há palavra melhor) entre concreto, metal e matéria orgânica.

Os dois blocos suspensos de dois pavimentos cada alinham-se transversalmente à rua, e conformam volumes vazados, semivazados e edificados, em um estratégico jogo de cheios e vazios. A fachada frontal é protegida por imensas venezianas móveis de madeira de eucalipto, como brises, que quando abertas revelam toda a transparência sustentada pelo concreto. O espaço da garagem salta para fora, em desalinho com a calçada inclinada que encontra uma pequena escada e entra no conjunto por entre os pilotis do primeiro bloco.

Até aí tudo bem, arquitetura inteligente e bela. No entanto, ao entrar no espaço livre comum dos volumes e caminhar por uma pequena praça de convívio entre os blocos unidos por uma passarela, aparecem fachadas recobertas por vegetação e uma profusão de tubos metálicos, amarelos e cinzas, formando um engenhoso e ao mesmo tempo delicado desenho de aparência fabril.

A pergunta salta inevitável: o que é tudo isso (bingo!)? Ora, de novo, nada mais que arquitetura inteligente e bela. "O discurso não é ecológico, simplesmente queríamos fazer um prédio que vivesse, que se renovasse e se transformasse. Esse é o conceito que faz parte da projetação", explica um dos integrantes da trupe. Simples assim. Na verdade, as paredes das fachadas laterais e posterior são duplas e recobertas por uma densa camada vegetal que, como uma pele, respira e cria matéria viva. Toda a vegetação é alimentada por uma rede vertical de delgados tubos metálicos que carrega água e adubo líquido e, na hora certa, libera o necessário ao crescimento das espécies cuidadosamente escolhidas por um especialista. Uma outra rede hidráulica transporta a água da chuva coletada na cobertura permeável até o sistema de tratamento e reutilização de água, também aparente, que por sua vez devolve água pura para a irrigação do edifício e consumo interno. É uma engrenagem perfeitamente ajustada, interconectada e cíclica, na qual tecnologia e sistemas ecológicos estão a serviço da arquitetura, e não o contrário. O resultado é que as entranhas do edifício estão expostas na fachada, como veias e artérias de um corpo vivo, enquanto o interior é perfeitamente bem acabado, com superfícies limpas e claras, como se a obra estivesse às avessas. Por fora, não há desgaste, não há envelhecimento, somente transformação.

"A história é entregar um prédio que vai evoluir com o tempo, de acordo com as estações do ano. A arquitetura no dia seguinte já está envelhecendo, já está estragando, esse prédio, ao contrário, vai começar a viver e a se renovar", explicam. 

A idéia de formação de um ecossistema próprio e o criterioso desenho das tubulações das fachadas, sua geometria e interconectividade, remetem a alguns dos conceitos que permeavam os trabalhos do grupo Archigram, do início dos anos de 1960. A nova cultura de massas que se formava na época vivia o desenvolvimento da tecnologia eletrônica e da robótica, e de uma maior agilidade nas redes de comunicação. Todo esse turbilhão de informações serviu de pano de fundo para a criação do grupo formado por arquitetos ingleses que se propuseram a romper com a tradição e padrões preestabelecidos. Para isso criaram uma revista que ilustrava por meio de desenhos, colagens, ilustrações e textos, idéias sobre arquitetura e sistemas industrializados que remetiam muitas vezes ao conceito do futuro utópico do século 21, e entrava em choque com os conceitos e mecanismos da arquitetura da época. As idéias mostravam a busca por incorporar novas tecnologias, muitas vezes tiradas de um imaginário de ficção científica, ao ambiente construído. Essa experimentação, mais do que simplesmente transformar a construção em um depositário de engenhocas motorizadas, quebrava com os conceitos de rigidez e estabilidade da arquitetura da época e trazia novos princípios como adaptabilidade, mutabilidade, transformação, obsolescência e até reciclagem, em uma clara tentativa de antever o futuro e entender o presente. Seus projetos experimentais eram carregados de redes que se intercambiavam, como uma rede virtual de comunicação.

Um claro exemplo de apropriação dos desenhos futuristas do grupo, principalmente o desenho plug in, mostrando uma imensa interconectividade entre tubos metálicos, pode ser visto na polêmica arquitetura high tech do Centro Georges Pompidou, concebido dez anos mais tarde pelos arquitetos Jean Nouvel e Richard Rogers, onde as tubulações de ar-condicionado são expostas cruamente, muitas vezes com megaequipamentos que se mostraram inúteis ao longo do tempo, em um edifício mais estético que conceitual. Longe de qualquer alusão às robustas e até acintosas estruturas do Pompidou, no edifício Harmonia é possível encontrar razão e inteligência nas delgadas instalações hidráulicas que se entremeiam perfeitamente na fachada, reutilizam a água e dão vida ao promissor verde que já se forma. 

FACHADAS VERDES

No edifício Harmonia, como em todo o paisagismo, a insolação e o vento influenciaram na escolha básica das espécies que foram utilizadas nas paredes. A maioria das plantas do edifício é epífita, que costuma crescer em cima de pedras na Mata Atlântica, ou são oriundas da África ou Índia, onde as variações do tempo são similares às do Brasil. "Essas plantas precisam agüentar flutuações radicais de temperatura e umidade, pois a vida pendurada na parede de um prédio não é moleza", explica Peter Webb, responsável pelo projeto de paisagismo.

Um dos conceitos que balizam todos os plantios é a associação de plantas diferentes para formar ecossistemas, um conjunto de plantas que se ajudam mutuamente. Algumas espécies criam sombra enquanto outras rastejam sobre a superfície do prédio provendo um banco de umidade disponível para as vizinhas. Além de insetos e pássaros ajudarem na adubação de todas as outras espécies. A massa utilizada para encravar as plantas é composta de cimento e sais minerais, propicia a retenção de umidade, além de ser isolante térmica e acústica. Foram utilizadas plantas como Asparago, Russelia, Callisia, Zebrina, Bulbine, Pilea, ao sol, enquanto que na sombra foram utilizadas Impatiens, Avenca, Samambaia de Metro, Pilea, Hoya e Rhipsalis. Já os tetos verdes são formados por uma camada de argila expandida, bidim (um geotêxtil), entulho limpo de metal, madeira, plástico e terra, e uma camada de terra. As águas captadas por esse sistema são redirecionadas para cisternas para reutilização, e já saem parcialmente filtradas pela sua passagem pela terra e argila expandida. No caso do Harmonia, além da grama há plantas pendentes nas bordas que amortecem as linhas retas da construção. "O resultado desse conjunto verde reduz os efeitos do calor excessivo, filtra a água, reduz o barulho dos helicópteros e embeleza o edifício com várias espécies de pássaros", explica Webb. 

Para ajudar a manter a vitalidade das plantas ao longo do ano, algumas borrifações são feitas com um adubo orgânico líquido dentro do próprio sistema de irrigação.  A irrigação de tantas espécies vegetais é baseada na utilização de um sistema de alta pressão e baixa vazão que, de acordo com o engenheiro Guilherme Silva Coelho, da Hidrosistemas, responsável pelo projeto, permite uma grande economia de água. Ele é composto por nebulizadores distribuídos em tubulações de PVC em dois setores verticais - duas fachadas - e sistema de sprays escamoteáveis para irrigação de dois setores horizontais, os tetos verdes. A água borrifada pelos microaspersores forma uma névoa úmida que confere um caráter ainda mais intrigante ao edifício. O sistema é pressurizado por um conjunto motobomba que também ajuda a manter a vitalidade das plantas ao longo do ano, pois possibilita a injeção de fertilizantes líquidos oriundos de um reservatório especial.

O gerenciamento é totalmente automatizado por um controlador eletrônico onde se programam o tempo e a freqüência de irrigação, além de dispor de um sensor de chuva regulado para desligar a programação de irrigação a partir de determinada faixa de precipitação.

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