A tecnologia desvenda Gaudí | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

A tecnologia desvenda Gaudí

A fabricação digital e o patrimônio histórico: uma visita ao canteiro de obras da Sagrada Família

Por Gabriela Celani e Affonso Orciuoli Fotos Felipe de Mira
Edição 177 - Dezembro/2008

As maquetes das diversas alternativas são desenvolvidas por uma equipe também instalada no porão do templo. Montadas, são submetidas ao conselho de arquitetos responsável pelo desenvolvimento do projeto. Muitas vezes esse conselho pede que algumas das alternativas sejam mescladas entre si ou retrabalhadas, até que se chegue a uma solução que se considere em acordo com as intenções de Gaudí.

O uso da tecnologia digital na construção da Sagrada Família não se restringe à produção de modelos geométricos e de maquetes em gesso: a tecnologia é aplicada na produção das próprias fôrmas do concreto moldado in loco, assim como das que servirão de molde para a pré-fabricação de peças fora do canteiro. Fôrmas de concreto são peças grandes, que obviamente não podem ser produzidas por processos aditivos e que ainda possuem muitas limitações no que se refere ao tamanho dos modelos produzidos. Por esse motivo, a técnica utilizada na Sagrada Família consiste no uso de uma fresadora de controle numérico (CNC, de computer numeric control) de grande formato, com o emprego de materiais como o isopor comum e de alta densidade. Trata-se, portanto, de um processo subtrativo.

Programas paramétricos são usados não apenas para a modelagem geométrica, mas também para a avaliação estrutural do conjunto. A produção de maquetes desse tipo de geometria, entretanto, seria muito demorada, por isso optou-se por utilizar as impressoras 3D (acima, no centro)

Curiosamente, a fresadora CNC não se encontra no porão da igreja em obras, junto com as impressoras 3D, mas no canteiro, próxima às torres em construção. Segundo Maruan Halabi, isso ocorre tão somente por uma limitação de espaço no canteiro de obras. Halabi nos leva até o elevador da obra, por onde chegamos ao nível em que a máquina foi instalada e de onde se tem uma belíssima vista da cidade de Barcelona. Ao contrário das impressoras 3D, a CNC é grande e robusta, e fica em um pequeno barracão provisório.

O processo de produção dos moldes tem início com o preparo do arquivo a partir do mesmo modelo geométrico com o qual foram impressas as maquetes na impressora 3D. A parte do modelo que corresponde à peça a ser concretada é isolada e subdividida em camadas correspondentes à espessura do isopor que será utilizado.

Devido às dimensões da máquina de que se dispõe, os moldes ou contramoldes são construídos por camadas de material em placas. Com máquinas maiores, contudo, seria possível esculpir moldes a partir de um único bloco de isopor ou outro material semelhante. As camadas cortadas são coladas com gesso e revestidas com desmoldante.

Embora apenas a parte do trabalho que apresenta maior dificuldade de execução (devido à complexidade das formas) seja automatizada, as demais etapas da execução da obra, como a dobragem de vergalhões para o preparo das armaduras ou a colocação das peças pré-moldadas no local ainda é feita por métodos convencionais, mecanizados (com o uso de empilhadeiras, gruas, etc.), porém não automatizados.

Mesmo assim, o canteiro de obras da Sagrada Família é provavelmente um dos melhores exemplos do impacto das novas tecnologias de fabricação digital do processo de projeto ao de produção em arquitetura. Trata-se de uma obra emblemática da arquitetura organicista, na qual a tecnologia é um fator indispensável para a viabilização construtiva, e não simplesmente uma demonstração exibicionista do avanço tecnológico. Nosso desafio agora é incorporar essas novas tecnologias não apenas na execução das obras do passado, mas também no projeto e execução de obras do presente, de maneira a melhorar sua qualidade e ampliar as possibilidades da arquitetura.

No canteiro da Sagrada Família, apenas o trabalho que apresenta maior dificuldade de execução é automatizado. As demais etapas da obra - da dobragem de vergalhões à instalação das peças pré-moldadas - são feitas por métodos convencionais, embora mecanizados

DOIS SÉCULOS EM OBRAS

A construção da Sagrada Família teve início no final do século 19, atravessou o século 20 e usufrui das facilidades tecnológicas do 21

1881 - A Associação Espiritual dos Devotos de São José, criada pela elite da burguesia catalã, que havia enriquecido com a revolução industrial, compra o terreno entre as ruas Marina, Provença, Sardenya e Mallorca, para construir sua igreja. O arquiteto Francesc del Villar desenvolve um projeto em estilo  neo-gótico e é contratado.

1883 - Villar abandona a obra após um desentendimento com o arquiteto Martorell, assessor do fundador da Associação. A partir de então, Martorell envia Antoni Gaudí, na época com 31 anos de idade, para dirigir a obra. Gaudí apresenta um novo projeto, bem mais ambicioso, com o dobro da altura (170 m) do projeto original (85 m).

1884 a 1900 - Construção da cripta, da capela de São José e da fachada Leste.

1906 - A partir desse ano as obras diminuem de ritmo devido a fatores econômicos.

1926 - Gaudí falece.

1936 - Durante a guerra civil espanhola, um incêndio na cripta destrói parcialmente os desenhos e maquetes de Gaudí.

1940 - O arquiteto Francesc Quintana restaura a cripta e as maquetes de Gaudí, que hoje servem de base para a finalização da obra.

1954 - Reinício da obra, sob a coordenação dos arquitetos Quintana, Puig Boada e Lluís Bonet Garí.

1985 - Finalização da fachada Oeste.

1990 - O arquiteto neozelandês Mark Burry é contratado como consultor da obra, introduzindo novas técnicas de projeto e construção, que vão desde a modelagem paramétrica até  o uso de equipamento de controle numérico.

Fonte: Antoni Gaudí, de Rainer Zerbst, Taschen, e site oficial da Sagrada Família (http://www.sagradafamilia.org/eng/index.htm)

Gabriela Celani é professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unicamp, coordenadora do Lapac - Laboratório de Automação e Prototipagem para Arquitetura e Construção.

Affonso Orciuoli é professor da Universitat Internacional da Catalunya (UIC), coordenador do laboratório de fabricação digital da UIC.

Agradecimentos: ao Dr. Arq. Maruan Halabi, membro da equipe de projetos da Sagrada Família e responsável pela máquina de Prototipagem Rápida.

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