Tradição expandida | aU - Arquitetura e Urbanismo

Entrevista

Tradição expandida

Para o atual coordenador do Docomomo no Brasil, faltam oportunidades no país para que se formem sucessores de Niemeyer, Mendes da Rocha e Guedes

Por Simone Sayegh Foto Eduardo Aigner
Edição 178 - Janeiro/2009

Professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o arquiteto Carlos Eduardo Dias Comas divide seu tempo entre a docência na graduação, a coordenação do Programa de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura (Propar-UFRGS), e a tarefa de definir as diretrizes do Docomomo Brasil, do qual é coordenador nacional do biênio 2008/2009. O Docomomo é uma organização não-governamental, sem fins lucrativos, com representação em mais de 40 países, que tem por objetivo documentar e preservar as criações do Movimento Moderno na arquitetura, urbanismo e manifestações afins. Foi fundada em 1988 na cidade de Eindhoven, na Holanda, e hoje está sediada em Paris, na Cité de l'Architecture et du Patrimoine, como um organismo assessor do World Heritage Center da Unesco. À frente da instituição, Comas pretende lançar uma campanha para alertar sobre a degradação de construções consideradas obras-primas da arquitetura brasileira, como o conjunto da Pampulha, de Niemeyer, em Belo Horizonte. "Nem todos se dão conta de que a arquitetura moderna não é só coisa do passado, é coisa do presente, que constitui uma tradição completamente viva", defende.

Todos os livros, textos para revistas e jornais, artigos acadêmicos, críticas, resenhas e trabalhos em congressos e palestras que Comas tem produzido sobre a arquitetura e o urbanismo modernos brasileiros ao longo de toda a sua carreira já dariam uma enciclopédia. Suas críticas já lhe renderam alguns desafetos, mas para Comas, "criticar o entorno construído em que se vive é questão de sobrevivência". O arquiteto acredita, entretanto, que a crítica fundamentada implica conhecimento da obra e seu contexto, e um mínimo de cultura disciplinar.

Graduado em arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1966), Carlos Comas possui mestrado em planejamento urbano e arquitetura pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e doutorado em projeto arquitetônico e urbano pela Universidade de Paris, este último obtido em 2002. Foi professor visitante na Pontifícia Universidade Católica do Chile e na Universidade de Miami. Além de tudo é membro do conselho editorial das revistas Arqtexto (UFRGS), Arcos (da Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade Estadual do Rio de Janeiro), e Arquitextos, do portal Vitruvius (www.vitruvius.com.br).

A entrevista a seguir expõe o espírito diligente deste arquiteto que se confronta dia-a-dia com a falta de políticas coerentes relacionadas à preservação até de valiosos exemplares da arquitetura moderna brasileira. "A questão não é falta de planejamento, mas os objetivos de um planejamento implícito."

aU ALÉM DO TRABALHO DE DOCUMENTAÇÃO E PRESERVAÇÃO DE EXEMPLARES DA ARQUITETURA MODERNA BRASILEIRA, QUE outras AÇÕES O DOCOMOMO BRASIL VEM DESENVOLVENDO?

CARLOS EDUARDO DIAS COMAS Os seminários promovidos pelo Docomomo se consolidaram como um foro privilegiado para a apresentação e discussão da documentação sobre a arquitetura moderna no País, com repercussão internacional devido à intensa contribuição ao debate, envolvendo cursos e programas de pós-graduação em arquitetura e urbanismo de diversas universidades brasileiras. São realizados regularmente, desde 1995, sempre a cada dois anos. O próximo será em 2009 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

aU QUAIS OS DESAFIOS DE SUA GESTÃO?

COMAS O desafio agora é tratar das questões de conservação. Estamos para lançar uma campanha visando a chamar a atenção para obras exemplares merecedoras de cuidados urgentes, como o Park Hotel de Friburgo (Lucio Costa), o Grande Hotel de Ouro Preto (Oscar Niemeyer), parte da Pampulha (Niemeyer) e o Jockey Club do Rio Grande do Sul (Roman Fresnedo Siri). Ao mesmo tempo, queremos ampliar ações de inventário em todas as capitais brasileiras, visando a criar base para uma ação concertada de valorização da arquitetura moderna atingindo tanto leigos como profissionais. Nem todos se dão conta de que a arquitetura moderna não é só coisa do passado, é coisa do presente, que constitui uma tradição completamente  viva. Os meninos da Holanda vêm aqui e chupam adoidado a nossa arquitetura moderna, enquanto os locais não a valorizam como recurso cultural e econômico, subestimando o potencial de um turismo arquitetônico.
 
aU QUAIS SÃO OS CRITÉRIOS PARA CONSERVAÇÃO?

COMAS Tem uma hierarquia para conservação proposta pelo crítico John Summerson, nos anos 30, que me parece bem pertinente. Como mostraram os debates profícuos do 10o Congresso Internacional realizado em setembro em Roterdã, mudança e continuidade não são termos autoexcludentes. 
 
aU O DEBATE E A CRÍTICA ARQUITETÔNICA SÃO CONSISTENTES NO BRASIL?

COMAS Crítica, segundo o dicionário, é avaliação. Nessa perspectiva, todo juízo sobre uma obra de arquitetura é crítica, positiva ou negativa, justificada ou não, enunciada na mesa de bar ou em livro da mais sofisticada coleção. Independentemente do veículo, o que interessa é a crítica fundamentada, baseada em argumentação plausível, implicando conhecimento da obra e seu contexto, amor à arte e um mínimo de cultura disciplinar. Tem gente fazendo isso no Brasil, sim. Talvez não apareçam como autores de livros individuais, mas amplitude, ambição e generalidade da argumentação não são privilégios de um único meio de divulgação.
 
aU VOCÊ CONCORDA COM A OPINIÃO DO ARQUITETO SERGIO TEPERMAN QUE CONSIDERA A CRÍTICA PRERROGATIVA DE ARQUITETO ATUANTE?

COMAS Crítica é avaliação, positiva ou negativa no seu todo ou em parte, tácita ou explícita. Não é prerrogativa de ninguém. Criticar o entorno construído em que se vive é questão de sobrevivência. Aliás, de arquiteto, poeta e louco todos nós temos um pouco. O que diferencia, ou deveria diferenciar, o profissional do leigo é antes de tudo um conhecimento mais amplo e profundo de soluções e problemas arquitetônicos correntes, base imperativa para qualquer eventual inovação, e isso vale tanto para o fazer como para o criticar arquitetura. 

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