As estruturas | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

Interseção

As estruturas

Estruturalismo, pós-estruturalismo e arquitetura. Para entender o desconstrutivismo

Por Sílvio Colin
Edição 181 - Abril/2009

De uma maneira ampla, podemos falar de estruturalismo toda vez que um objeto de conhecimento é encarado como uma estrutura. Essa prática foi saudada como um passo adiante da visão mecanicista do mundo, segundo a qual esse objeto era encarado como uma máquina. Consideramos que foi a partir do século 17, com Descartes, Galileu e depois com Newton que o modelo da máquina se tornou o orientador do pensamento científico. Na física newtoniana, o universo era considerado uma grande máquina, e os astros, suas peças. Na física atômica, o átomo seria a micro representação do universo, uma minúscula máquina. Na medicina e na biologia, o corpo humano e os outros organismos também seriam máquinas, os órgãos, suas peças. No âmbito da arquitetura, mais recentemente, lembremos da "máquina de morar" de Le Corbusier. O modelo da máquina foi o principal orientador do pensamento moderno, e podemos dizer que a ele devemos muito do que se conseguiu em termos de conhecimento científico. Apesar disso, este modelo tem suas limitações, e estas apareceram com muita clareza já no século 19.

As limitações começam pela determinação de que para o estudo eficiente dos corpos materiais deve o estudioso ater-se às suas propriedades mensuráveis: dimensões, quantidades e movimento. Conforme o psiquiatra R. D. Laing, citado pelo físico Fritjof Capra em O ponto de mutação, "Perderam-se a visão, o som, o gosto, o tato e o olfato, e com eles foram-se também a sensibilidade estética e ética, os valores, a qualidade, a forma; todos os sentimentos, motivos, intenções, a alma, a consciência, o espírito. A experiência como tal foi expulsa do domínio científico".

Obviamente que muitas coisas não se explicavam segundo a visão mecanicista. Todas as vezes que se lidava com objetos de conhecimento mais difíceis de mensurar, como nas ciências sociais, psicologia, etc. as limitações se tornavam claras e insuperáveis.

A visão estruturalista começa com a constatação de que o todo é mais do que a soma de suas partes. Dito em outros termos, um conjunto individualizado, que se torna objeto do conhecimento, seja um grupo social, a mente humana, a língua falada, etc. é uma estrutura com características próprias e que em muito excede as de suas partes consideradas em particular ou mesmo em conjunto. A diferença entre a visão estruturalista e a visão mecanicista é a ênfase colocada nos elementos estruturantes, e não nas partes componentes. Para entender bem a posição dos estruturalistas, falemos de um argumento clássico: uma melodia. Esta é composta de notas musicais, mas o estudo isolado dessas notas, por mais acurado que seja, não esclarece nada sobre a melodia. É o estudo do conjunto e de seus elementos estruturantes, das sequências, das ênfases, das posições relativas das notas entre si, que vão permitir o entendimento desta melodia.

Para o estruturalista, o seu objeto de estudo - seja um grupo social, a mente humana, uma matemática, a língua falada, etc. - é visto como um sistema em transformação. Daí surgem as leis básicas do método estrutural. Em primeiro lugar, a definitiva conceituação de sua totalidade: quais são os elementos constituintes que, apesar de suas diferenças, pertencem a esta totalidade. Em seguida, quais são as leis que regem as suas transformações dentro deste sistema e, por fim, quais são os critérios de auto-regulamentação, isto é, quais são as possibilidades de variação e transformação admitidas dentro do sistema.

Existem estruturas em todos os campos do conhecimento: na matemática, na física, na biologia, na psicologia, na linguística, na antropologia. Muitas das obras marcantes do conhecimento ocidental atual podem ser ditas estruturalistas, como a obra de Karl Marx e a psicologia da Gestalt.
 
Estruturalismo
De uma maneira mais restrita, porém, quando falamos de estruturalismo nos referimos à vertente dominante do pensamento acadêmico francês, sobretudo nos anos de 1960 e 1970, que têm como nomes mais importantes Claude Lévi-Strauss, Louis Althusser, Michel Foucault, Roland Barthes e Jacques Lacan, entre outros, tanto assim que é comum o uso da expressão "estruturalismo francês". O ponto de partida do que poderemos chamar, mais do que um método, uma corrente filosófica, que viria a substituir nos meios acadêmicos a hegemonia do existencialismo de Jean Paul Sartre, é a obra de Ferdinand de Saussure.

Diferentemente de seus pares, o linguista suíço encarava a língua como uma estrutura de signos - especificamente signos linguísticos - mas que fariam parte de uma estrutura maior, do conjunto de signos que participam da vida social, nomeado por ele de semiologia, cujo estudo delegou a seus sucessores, concentrando-se apenas na língua, sobretudo a língua falada. 

Sem ter jamais escrito um livro, tarefa que coube a seus discípulos (Saussure ministrou o seu curso por três vezes, entre 1906 e 1911, e faleceu em 1913 sem deixar nada registrado, sequer em forma de apontamentos. Coube a seus discípulos Charles Bally e Albert Sechehaye compilar as anotações de diversos alunos e publicar o Curso de Linguística Geral, cuja primeira edição é de 1916), seus conceitos foram de enorme relevância para as novas gerações de linguistas, vindo a ser utilizado em outras áreas do conhecimento, como veremos adiante. 

Entre esses conceitos está a fundamentação do signo em duas faces: significante e significado. O significante é a parte material do signo - no caso da língua falada, o som da palavra -, e o significado é a idéia transmitida. Uma outra divisão importante é aquela entre língua e fala (langue e parole), sendo a língua um produto cultural, que não pode ser alterado por ações individuais. É a estrutura básica, com suas leis de totalidade, transformação e auto-regulamentação. Suas alterações acontecem devido a características culturais supra-individuais através do tempo (transformações diacrônicas), ou em uma mesma época (transformações sincrônicas). A fala é um produto individual, expressão de pensamento único, porém submetido às leis que regem a língua. 

Outras peças importantes na obra original de Saussure, fundamentais para o desenvolvimento da semiologia, são suas diferenciações entre sistema e sintagma e entre denotação e conotação. O sistema é uma relação de campos associativos que se unem por semelhança ou contiguidade. São os termos da linguagem, as peças do vestuário, as diferentes formas de telhados ou colunas. O sintagma é a justaposição de termos em uma unidade de significação - uma sentença literária, uma vestimenta completa, uma ordem arquitetônica, por exemplo. Denotação é o significado primeiro de uma manifestação, o mais objetivo, o mais manifesto; conotação é um significado segundo, latente, desta mesma manifestação. Uma simples sentença como "a porta está aberta", que tem apenas uma denotação, pode servir, dependendo de quem fala, o porteiro ou a dona da casa, ou do contexto, a uma infinidade de conotações.

A lingüística saussureana recebeu importantes contribuições de muitos pensadores entre eles Roman Jakobson e Louis Hjelmslev, adstritos entretanto à sua própria área. Uma mudança de qualidade ocorre nos anos 1950, quando Lévi-Strauss amplia a proposta ao aplicar as idéias de Saussure ao campo da Antropologia, dita, por isso mesmo, antropologia estrutural. Aí, as normas e costumes, as relações de parentesco, os mitos, os ritos, e mesmo o sistema fonológico e os arranjos físicos das comunidades estudadas são vistos e analisados como uma linguagem própria, submetido ao método da linguística estrutural.

Roland Barthes foi aquele que se manteve mais próximo de Saussure e Jakobson. Sua extensa obra compõe-se de 17 livros escritos de 1953 a 1980. Tomou para si a tarefa prescrita pelo linguista suíço e escreveu Elements de semiologie, em 1964. Seu trabalho volta-se para a crítica literária, modernidade e semiologia, contribuindo decisivamente para transformar o estruturalismo em um movimento dominante do pensamento ocidental.

Nessa mesma época, Jacques Lacan difundia suas idéias no Seminário que manteve de 1953 a 1966, uma leitura da obra de Freud, através do método da lingüística estrutural, partindo do seu célebre aforismo, "O inconsciente se estrutura como uma linguagem".

De certa maneira, o trabalho de Freud com o inconsciente tinha muita afinidade com a linguística saussureana na medida em que trabalhava com as possibilidades significantes das elaborações inconscientes. Coube a Lacan explicitar e explorar esta ligação, e a enfatizar a prioridade da linguagem na estruturação do inconsciente, para depois construir sua obra original, de grande influência no desenvolvimento da psicanálise.

Se podemos dizer que Marx e Freud construíram as obras que mais influenciaram o pensamento do século 20, e que Lacan fez a releitura estruturalista de Freud, coube a Louis Althusser a contraparte estruturalista de Marx. Mestre de grandes estruturalistas e pós-estruturalistas, como Foucault e Derrida, Althusser aplicou a Marx o método de "leitura atenta" que seria o princípio ativo da "desconstrução" utilizada por Derrida, enfatizando alguns aspectos não explícitos, porém latentes na obra de Marx, e definindo a sociedade como uma estrutura relacional de política econômica, prática ideológica e prática político-legal. Sua proximidade e amizade intermitente com Lacan ensejaram o uso de conceitos psicanalíticos como a sobredeterminação freudiana e a relação de ideologia com a fase-do-espelho lacaniana.

Michel Foucault talvez seja o mais difícil de definir entre todos os intelectuais do nosso tempo. A simples relação dos temas abordados em seus principais livros mostra um intelectual inquieto com as coisas de seu tempo e disposto a remexer as feridas deixadas nas mentes mais sensíveis pelas práticas sociais consagradas. E esta inquietação refletida nas posições sempre não-ortodoxas de sua obra desafiadora vai transformá-lo no elo de ligação entre o estruturalismo e o pós-estruturalismo.

Obviamente que citamos apenas alguns dos mais importantes epígonos do pensamento estruturalista. Muitos outros autores de grande importância seguiram seus passos. 

Na década de 1980, entretanto, abate-se sobre o estruturalismo como um todo um pesado destino. Um a um, seus grandes mentores vão sendo ceifados. O chamado pensamento estruturalista não consegue sobreviver a esta orfandade.

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>


Destaques da Loja Pini
Aplicativos