As estruturas | aU - Arquitetura e Urbanismo

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As estruturas

Estruturalismo, pós-estruturalismo e arquitetura. Para entender o desconstrutivismo

Por Sílvio Colin
Edição 181 - Abril/2009

Pós-estruturalismo
Chamamos de pós-estruturalismo à corrente de pensamento, ligada atavicamente ao estruturalismo, empreendida por pensadores formados sob as idéias que acabamos de expor, mas que se adiantam sobre elas. Muitos dos personagens citados, como Foucault e Deleuse, são também considerados pós-estruturalistas, desde que a transição entre uma corrente e outra se dá gradativamente pela mudança de foco de interesse. Correndo o risco da imprecisão que costuma ladear as simplificações, diremos que o estruturalismo preocupa-se em estabelecer, nos diversos campos da cultura, os padrões da análise estrutural, e falamos de pós-estruturalismo quando os temas são ampliados e o método estrutural começa a ser flexibilizado e a abranger a cultura do século 20 como um todo, e seus conceitos estruturantes - a maior parte advinda do pensamento iluminista - são revisitados e desconstruídos, para usar um termo tipicamente pós-estruturalista criado por Jacques Derrida. 

O livro de Gilles Deleuze, Nietzsche et la philosophie, de 1962, e as obra de Derrida De la grammatologie e L'Ècriture et la diffèrance, ambos de 1967, são importantes marcos que assinalam os primórdios do pós-estruturalismo. Um dos traços fundamentais desta corrente de pensamento é trazer ao primeiro plano a contundente crítica de Friedrich Nietzsche e a visão fenomenológica de Martin Heidegger para o primeiro plano, destacando-se neste empreendimento, além dos já citados, o filósofo italiano Gianni Vattimo, entre outros.

Pós-estruturalismo e arquitetura
O termo "estrutura" é muito caro para a arquitetura e a metáfora arquitetônica há muitos séculos se faz presente nos textos filosóficos, em Platão, Descartes, Kant. Pode mesmo causar certa confusão o uso desta palavra na cultura arquitetônica atual, pois pode tanto referir-se à conjunção de vigas, pilares e lajes quanto à tradição da linguística de que estamos falando. 

Uma abordagem estruturalista (no sentido da tradição saussureana) tem sido levada a efeito na arquitetura a partir dos anos 1960 por arquitetos e críticos como Venturi e Jencks, buscando construir a malha estrutural resultante do rebatimento dos conceitos linguísticos para a produção e a crítica arquitetônica. Mais recentemente, a colaboração de Jacques Derrida com Peter Eisenman e Bernard Tschumi, iniciada por ocasião do concurso para o projeto do parque La Villette, em 1982, coloca no plano teórico da arquitetura as legítimas questões relacionadas com a crítica cultural pós-estruturalista. Diria Derrida:

"Estes arquitetos estavam de fato desconstruindo a essência da tradição e criticando tudo que subordinava a arquitetura a outra coisa - o valor da utilidade ou beleza ou habitação, etc. - não para construir algo que fosse inútil, feio ou inabitável, mas para liberar a arquitetura destas finalidades externas, destes objetivos exóticos."

As "estruturas" manifestam-se de diversas formas na arquitetura e o modelo saussureano tem sido aplicado não somente na crítica da arquitetura atual, mas também do passado. Os correspondentes à "língua" saussureana, produto cultural inacessível à intervenção individual são os estilos históricos, as poéticas estilísticas etc. As "falas" são os discursos transmitidos pelas soluções individuais, tendo por objeto o espaço, o volume, a poética mural, os elementos arquitetônicos e suas articulações.

Uma maneira própria do pós-estruturalismo de trabalhar a desconstrução, muito adequada ao uso em arquitetura, são as formulações dos pares binários.

A desconstrução localiza certas oposições cruciais ou estruturas binárias de significado e valor que constituem o discurso da "metafísica ocidental". Estas incluem (entre muitas outras) a distinção entre forma e conteúdo, natureza e cultura, pensamento e percepção, essência e acidente, mente e corpo, teoria e prática, macho e fêmea, conceito e metáfora, fala e escritura etc. Uma leitura desconstrutiva vai provar que estes termos estão inscritos dentro de uma estrutura sistemática de privilégio hierárquico, como o fato de um membro de cada par sempre parecer ocupar uma posição governante ou soberana. A finalidade é demonstrar, por meio da leitura atenta, como este sistema está incompleto internamente: como o termo segundo ou subordinado de cada par tem igual (às vezes maior) aspiração de ser tratado como condição de possibilidade para o sistema inteiro.

Derrida trabalha frequentemente com esse método de leitura atenta sobre pares binários, sendo das mais importantes técnicas do que ele chama desconstrução. O método é bastante caro à arquitetura, pois sua produção está impregnada deste pares binários.

A tradicional oposição entre estrutura e decoração, abstração e figuração, figura e fundo, forma e função, poderia ser dissolvida. A arquitetura poderia começar a procurar o "entre" dentro destas categorias.

Essa "leitura atenta", essa desconstrução tem insistente presença no trabalho dos arquitetos pós-modernistas. É, por exemplo, o caso da casa em Connecticut, de 1970, de Robert Venturi. A questão do interior-exterior, colocada como um par binário, é questionada e subvertida. A suposta "frente" - não exatamente o ponto de acesso - tem um discurso assim elaborado com uso de simetria, estudo de cheios e vazios e demais recursos que somente valem para o observador externo. Aquele ponto de interesse principal é, na verdade, ocupado por uma cozinha; a parte nobre está do lado oposto.

Poderíamos citar inúmeros exemplos deste trabalho desconstrutivo sobre pares binários "de significado e valor que constituem o discurso da 'arquitetura' ocidental", parafraseando Norris. Este foi, durante duas décadas, o principal trabalho dos arquitetos pós-modernistas sobre o questionamento de outro grande par estruturante, retirado do estruturalismo linguístico "clássico" - significante-significado. Assinalemos, pois, que, sob esse ponto de vista, o pós-modernismo arquitetônico é já um pós-estruturalismo.

Porém o que nos interessa no momento é estabelecer outro tipo de objeto de desconstrução menos afim com o trabalho meta-literário e crítico dos pensadores pós-estruturalistas e mais endógeno da arquitetura: outro tipo de conceito estruturante, particular do trabalho dos arquitetos, que cumpre a mesma função dos conceitos já mencionados, não mais nos textos, mas na elaboração de projetos - forma de "escrita" própria do arquiteto.

O pensamento do arquiteto tem sido formado por algumas estruturas das quais não se liberta a não ser mediante um grande esforço de "leitura atenta", de trabalho desconstrutivo. E esse trabalho se insere neste mesmo projeto de desconstrução das tradições da cultura ocidental e partilha dos mesmos interesses.

A linha e o plano horizontais, a linha e o plano verticais
É muito comum no trabalho dos arquitetos desconstrutivistas a quebra da relação essência-aparência no que se refere ao plano horizontal, ou plano de desempenho. A linha do horizonte e o plano do horizonte são talvez os mais importantes elementos estruturantes na concepção do projeto. Desde que nascemos, ao engatinharmos, ao observarmos uma paisagem, ao caminhar tomamos consciência primeiramente do plano horizontal, mesmo que muitas vezes esta apreensão seja ilusória, como no caso das grandes perspectivas. A verdade é que ela faz parte de nossa idéia de mundo, e constitui-se em uma necessidade básica espacial. 

Os arquitetos desconstrutivistas trabalham frequentemente com a desconstrução desse conceito, que associam a outros pares binários como interior-exterior, essência-aparência e etc. Trata-se também de um meio de exercer, por meio da arquitetura, uma crítica contundente do mundo atual, da vida atual, vistos pelos pós-estruturalistas sob o crivo da hiper-realidade e do simulacro. O mundo que vivemos é um mundo em que a imagem do real supera o real: as fotografias manipuladas, os factóides, as manipulações da opinião, têm um poder de convencimento que substitui a "busca da verdade" iluminista. A idéia, no caso destes edifícios, é criar uma imagem facilmente recebida como falsa: um "real" que não pode ser real.

Semelhante ao plano e linha horizontais, o plano e a linha verticais são estruturas básicas de nossa apreensão do mundo, ligadas à própria idéia de construir, de equilíbrio, de gravidade. Entre a infinidade de ângulos possíveis, a vertical e a horizontal determinam dois ângulos retos. O ângulo reto é o angle-type: um dos símbolos da perfeição.

Os arquitetos desconstrutivistas trabalham com linhas e planos inclinados, sobretudo em posição aparentemente instável, explorando as estruturas sólidas dos edifícios até o seu limite e representam a idéia de desafio da natureza, uma idéia iluminista em sua essência, mas deslocada para representar a instabilidade, a incompletude, a imperfeição e o desequilíbrio das próprias leis maquinistas e de seu mundo.

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