As estruturas | aU - Arquitetura e Urbanismo

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As estruturas

Estruturalismo, pós-estruturalismo e arquitetura. Para entender o desconstrutivismo

Por Sílvio Colin
Edição 181 - Abril/2009

O "ponto-de-vista"
Uma das importantes criações do Renascimento, ponto de partida do mundo moderno, é a perspectiva, instrumento gráfico utilizado pelos pintores para a representação realista do mundo. Os arquitetos passaram a utilizá-la para dominar o espaço criado e orientar sua apreensão pelo usuário. A partir de então, e até o momento heróico do Movimento Moderno, a prospetiva renascentista passou a ser um recurso arquitetônico para apreender o espaço a ser criado. 

A perspectiva como instrumento traz implícita a visão renascentista de mundo, o "olhar para frente", em oposição ao gótico "olhar para cima". O humanismo, o homem como centro. Mas traz também a idéia do ponto-de-vista único: sem ele não há perspectiva. E o ponto-de-vista está ligado à ideia de "sujeito", ideia esta cuja quebra é fundamental no projeto estruturalista. O "sujeito" cartesiano, livre e independente, não pode conviver com a ideia de estruturas que o antecedam, e muitas vezes governam seus mais simples pensamentos e ações. E a ideia de "ponto-de-vista" não pode conviver com a idéia da "diferença" trabalhada por Deleuze, Foucault e Derrida como fundamentais.

Os eixos ortogonais
A geometria analítica parte do método cartesiano (1637) procurando localizar os pontos objetivos no espaço por meio de três eixos coordenados, ortogonais entre si. Independentemente de sua operatividade, representa, talvez, a mais forte referência do projeto iluminista. Ela nos traz não somente a figura de um instrumento matemático capaz de operar com figuras geométricas pela álgebra, mas também todo o esforço de reduzir o conhecimento à res extensa, àquilo que se pode medir. Descartes, com sua obra, foi um dos pontos de partida do racionalismo moderno. Os eixos ortogonais são uma referência poderosa, e raramente uma planta de edifício não ostenta esta ortogonalidade, muitas vezes explícita e intencional, mas na maioria dos casos um conceito estruturante apenas implícito, talvez o mais forte dos conceitos estruturantes do mundo moderno utilizado nos projetos arquitetônicos.

Talvez por isso mesmo, foi dos primeiros conceitos a ser atacado pelo projeto pós-estruturalista arquitetônico. Antes mesmo, já na primeira década do século 20, os artistas suprematistas, em oposição aos neoplasticistas (que aceitavam no seu mundo ideal o espaço figurativo regido pelos eixos ortogonais), propunham um espaço pictórico em que os objetos não seriam regidos por eixos coordenados, mas flutuariam no espaço. Os suprematistas são uma forte referência de muitos arquitetos desconstrutivistas como Rem Koolhas e Zaha Hadid.

O triedro mongeano
A geometria descritiva, criada por Gaspard Monge e instrumento de trabalho mais utilizado pelos arquitetos desde sua criação no final do século 18, tornou possível a expansão da maquinaria na revolução industrial e contribuiu para o aperfeiçoamento das técnicas de projeto de edifícios. A partir de então, o projeto passou a ser completamente previsível, podendo ser visto de todos os ângulos, em vistas e seções, e elaborado com maior perfeição. O triedro mongeano, três planos hipotéticos, ortogonais entre si, formam a base do sistema projetivo arquitetônico desde a sua criação. Porém este sistema não é apenas a base utilizada pelos arquitetos para projetar; permanecem representados no projeto, nas paredes e lajes de piso, como uma referência não somente ao sistema utilizado na projetação, mas trazendo à memória a cultura napoleônica, da revolução industrial, do mundo neoclássico, enfim do desenvolvimento final oitocentista do grande projeto moderno maquinista que ajudou a construir. 

O sistema mongeano tem sido substituído por outros métodos, inclusive de computação gráfica, embora ainda seja fartamente utilizado, mas a representação dos três planos ortogonais permanece em nossos edifícios e cidades. Os arquitetos desconstrutivistas trabalham muitas vezes com a desarticulação destes planos criando uma instabilidade perceptiva que melhor representa nossa instabilidade emocional e funcional, nossa insegurança quanto ao futuro do projeto moderno.

O sólido geométrico puro
Uma idéia semelhante à linha e ao plano horizontais ou verticais e que recupera o conceito cartesiano de idéias inatas, conceito este bastante estruturalista na sua essência. O cubo, o cilindro, o prisma, o paralelepípedo, a esfera, figuras ideais e fechadas, têm sido também figuras estruturantes do pensamento e das práticas projetuais arquitetônicas. Em poucos momentos na história da arquitetura os arquitetos pensaram em desobedecê-los. No período heróico do movimento moderno, a afirmação do sólido geométrico como princípio projetual torna-se mais claro ainda do que fora anteriormente. Nas primeiras décadas do século 20, Jeanneret (Le Corbusier) e Amedee Ozenfant defendiam o uso de figuras puras na pintura. Em Teoria e projeto na primeira era da máquina, Reyner Banham cita Ozenfant e Le Corbusier (em Depois do Cubismo, ou Aprés le Cubisme):

"...cubos, cones, esferas, cilindros ou pirâmides são as grandes formas primárias que a luz revela vantajosamente... estas são formas belas, as mais belas formas."

Veja-se como exemplo a Villa Savoye de Le Corbusier. Rejeitar as figuras puras como princípio projetual é rejeitar o próprio conceito de inatismo de Descartes, na busca da representação de um mundo não "racionalista", mas quem sabe mais humano e racional.

Aí estão portanto algumas figuras estruturantes, específicas do trabalho arquitetônico, e que correspondem aos pares binários estruturantes de Derrida. O arquiteto trabalha também com aqueles conceitos já citados, que ocupam os filósofos e críticos pós-estruturalistas. Diga-se de passagem, já trabalhavam com estes conceitos muito antes do termo desconstrutivismo frequentar as páginas de revistas e livros de arquitetura. Os pós-modernistas estavam ocupados em uma revisão das práticas características do movimento moderno. Mas esta crítica era bastante conceitual, focalizando a questão do ornamento, o anti-historicismo, a dessemantização, o funcionalismo, o anti-regionalismo que haviam sido as bandeiras das vanguardas modernas do início do século 20.

Com a chamada arquitetura deconstrutivista, a crítica arquitetônica à velha sociedade industrial dá um salto de qualidade. Voltando ao início, e para usar termos extraídos do mais notório par binário criado por Ferdinand de Saussure, os assim chamados arquitetos pós-modernistas trabalhavam na desconstrução dos significados - a parte conceitual dos signos arquitetônicos, enquanto que os chamados arquitetos pós-estruturalistas, ou desconstrutivistas, trabalham com a parte material dos signos arquitetônicos, com os significantes, os elementos materiais - paredes, lajes, pilares, vigas, portas. É mais uma simplificação, incompleta e até mesmo discutível em certos aspectos, mas que pode ser perdoada por sua simplicidade didática, na medida em que ajuda até um determinado ponto a entender o pós-estruturalismo na arquitetura.

Nos dias atuais, a inocência se perdeu e a esperança de construir um mundo segundo o projeto moderno muito se enfraqueceu, como também suas representações. Quando conseguimos ver através da máscara da hiper-realidade com que a mídia reveste suas manifestações, o que vemos é um mundo para o qual as imagens da arquitetura desconstrutivista parecem até realistas.

BIBLIOGRAFIA
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OZENFANT, A. e JEANNERET, C-E (Le Corbusier). Aprés le Cubisme.
 
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LE CORBUSIER. Vers une architecture
 
BANHAM R. Teoria e projeto na primeira era da máquina. São Paulo, Perspectiva, 1979, p. 365.

Sílvio Colin é arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1970, mestre em arquitetura pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da FAU-UFRJ e cursa atualmente doutorado no mesmo programa. Leciona no departamento de projeto de arquitetura da FAU-UFRJ. É autor dos livros Uma Introdução à arquitetura (2000) e Pós-modernismo: repensando a arquitetura (2004), ambos da editora Uapê, Rio de Janeiro.

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