Como reverter o fascínio dos moradores dos centros urbanos pelo automóvel? Basta melhorar o transporte coletivo? | aU - Arquitetura e Urbanismo

Fato e Opinião

Como reverter o fascínio dos moradores dos centros urbanos pelo automóvel? Basta melhorar o transporte coletivo?

Colaborou Felipe capozzi
Edição 191 - Fevereiro/2010

Mesmo com transporte público de qualidade, o brasileiro deixaria o carro em casa? É possível reverter o fascínio pelo carro? Como fazer isso - ou, contra todas as opções acima, essa deveria ser uma preocupação real? Conversamos com psicólogos, jornalistas, urbanistas e pesquisadores do tema para saber suas opiniões sobre o presente e o futuro dos automóveis na cidade e na vida das pessoas.

 

fotos acervo pessoal
Marcio Fortes, Ministro das Cidades
O fascínio dos brasileiros pelo automóvel é inegável e a indústria automobilística teve e tem seu papel no crescimento econômico do País e na geração de empregos. Mas a realidade coloca o carro numa posição diferente da que ele ocupava no passado. É importante termos garagens não mais em áreas centrais das cidades, mas em estações de metrô, onde também é preciso haver bicicletários. O automóvel é um meio de locomoção auxiliar e não o principal. Por isso, os investimentos no transporte coletivo devem ser em qualidade e em quantidade.

 

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Daniela Sandler, professora-assistente de História da arte e cultura visual da arquitetura e História urbana na Universidade da Califórnia
O carro parece representar liberdade de ir e vir, comodidade e segurança, embora nas grandes cidades tais percepções não correspondam à realidade de congestionamentos, poluição e violência no trânsito. O automóvel é um espaço privado ambulante numa sociedade cada vez mais fechada à convivência pública. Não adianta melhorar apenas o transporte coletivo se problemas como desigualdade social, crime e deterioração de espaços e serviços públicos persistem. É preciso transformar a cidade e a cultura urbana de um modo mais geral.

 

 

 

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Carlos Alberto Bandeira Guimarães, professor do Departamento de Geotécnica e Transporte da Unicamp
Existem muitos fatores associados à posse do automóvel que o tornam opção preferencial. Associado à melhoria do transporte público é necessário implantar restrições à circulação dos automóveis, como os rodízios, pedágios urbanos, áreas de circulação exclusivas do transporte público, bem como incentivos ao transporte não motorizado, restrições de estacionamento nas áreas críticas etc., como já ocorre em várias cidades do mundo. Isso deve ser uma preocupação real, pois o espaço viário urbano não cresce na mesma proporção da frota de veículos, provocando um aumento dos congestionamentos e impactos diretos na qualidade de vida.

 

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Sérgio Berezovsky, diretor de redação da revista Quatro Rodas
Gostar de carro não é pecado. O automóvel é uma das mais interessantes ferramentas criadas pelo homem, uma máquina que amplia as possibilidades do exercício do direito de ir e vir. Com o avanço da tecnologia, ele está cada vez mais seguro, eficiente e sedutoramente confortável. A questão é o uso que se faz do carro. Quem não tem prazer em pegar uma boa estrada em companhia da família? Sair quando quiser, parar onde e quando der vontade... Agora pergunte ao mais apaixonado dos proprietários o que ele acha de ficar encarcerado numa pequena "cela" por horas num congestionamento. É evidente que se houvesse a opção de um transporte urbano razoavelmente confortável, a hipótese de reservar o carro para os momentos de lazer seria cogitada até mesmo por quem mais gosta de dirigir. Seria mais econômico, confortável e exporia tanto o motorista como seu objeto de paixão a menos riscos.

 

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Gislene Maia de Macedo, doutora em Psicologia pela USP e professora da Universidade Federal do Ceará, com linha de pesquisa em Mobilidade humana, trânsito e subjetividade
O automóvel é fetiche, representa um lugar social e se configura como um modo de subjetivação. Vendido como liberdade, velocidade e autonomia, indica o crescimento econômico de um país e é reforçado como um item de consumo capaz de equilibrar os disparates financeiros, à revelia dos acidentes de trânsito e do mal-estar social. Ainda assim, hipnotizados, sonhamos com os modelos veiculados pela mídia e a possibilidade de um universo paralelo que nos suspenda da dura realidade de quatro horas de engarrafamento diário. Inverter essa lógica implica romper o paradigma mercadológico de mobilidade urbana. Requer coragem, ousadia, transformação de hábitos (do individual ao coletivo), revolução de valores e novas referências culturais. Desafia o poder público para políticas intersetoriais que envolvam segurança, habitação, novos desenhos e configurações urbanas e o apoio da população na guinada de 360 graus de uma cultura de mobilidade que atravesse nossos egos e nos coloque como semelhantes e com equidade no uso dos espaços públicos.

 

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Francesco Albanese, Presidente do Psicolab (Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento em Psicologia), em Florença, Itália
Há três fatores: conforto, status e personalidade do condutor. O primeiro é quase fácil de entender: transportes públicos nunca deixam as pessoas exatamente em seu destino, nem na hora em que gostariam. Isso gera perda de tempo e sabemos que tempo é dinheiro. Para todos os que vivem uma vida frenética e não querem se atar ao horário dos outros, um transporte público melhor não seria a solução. Para outros, carro é um símbolo de status. Fala sobre o indivíduo, suas preferências, sua posição social, seu salário. Coloca-o entre pessoas que atingiram seus objetivos de vida, mesmo que não os tenham atingido. Essas pessoas normalmente usam o carro para construir uma imagem de si mesmas, diferente da real, como uma maquiagem, da mesma maneira que o fazem com roupas, artigos tecnológicos etc. Essas pessoas não usariam um transporte público porque manter a imagem delas mesmas é importante, e a perda do carro poderia fazer isso desmoronar. Finalmente, há quem use o carro como uma extensão de si mesmos. Para alguns homens, é um instrumento de masculinidade, permitindo ficar em contato com ele e mostrá-lo a todos. O carro é visto como um tanque, uma armadura com a qual se pode encarar o mundo. Para algumas mulheres, é como um abrigo, no qual elas podem esconder-se do mundo ao redor e ficar em contato com sua profunda intimidade. O transporte público representaria a perda de uma importante ferramenta para sustentar as necessidades de sua personalidade. Todas as outras pessoas que não tenham uma ligação tão complicada com seus carros usariam o transporte público se ele fosse um pouco melhor.

 

Opiniões inéditas

Nazareno Stanislau Affonso, urbanista da mobilidade e artista plástico
O fascínio por carros é irreversível. Os brasileiros são viciados no automóvel e o governo se utiliza de vultosos recursos para universalizar o acesso ao carro. Para termos cidades sustentáveis, deve haver políticas públicas para restringir o uso dos automóveis, tais como: taxar estacionamentos e fazer pedágios urbanos nos grandes centros, destinando os recursos arrecadados aos transportes públicos; acabar com isenções de impostos para compra de veículos; transformar os estacionamentos das vias públicas dos centros urbanos e corredores de circulação em calçadas acessíveis, faixas de ônibus e ciclo-faixas; e investir permanentemente em metrôs, corredores de ônibus e VLTs (veículos leves sobre trilhos), utilizando o sistema viário existente.

 

 

Paulo César Marques, professor de mestrado em Transportes na Universidade de Brasília
Bons sistemas de transporte público são essenciais para reduzir a dependência do automóvel, mas não são suficientes. É preciso também adotar medidas restritivas ao transporte individual motorizado. Há um grave desequilíbrio entre os investimentos que toda a sociedade faz na infraestrutura rodoviária e o seu uso quase exclusivo por parte de quem anda de carro no dia a dia. A sociedade deve ser ressarcida dos custos sociais decorrentes do uso abusivo do carro pela parcela minoritária da população.

 

 

Tatiana Schor, Professora do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas, Pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas das Cidades na Amazônia Brasileira - Nepecab
O grito contra o uso particular do automóvel continua perdido nos ecos desta modernização capitalista de mão única: lucro. É o lucro das empresas automotivas, das do derivado do petróleo, das construtoras. O amor à máquina, veloz e brilhante, está impregnado no jeito de ser do homem que corre sem saber para onde e não vê o abismo que se aproxima. As cidades brasileiras são inscrições espaciais desta catástrofe. O automóvel contamina não só o espaço construído, mas as possíveis utopias espaciais. Nem se imagina uma vida, uma cidade sem o carro. Quais as possibilidades criadas nas pranchetas, nos diálogos de cidades nas quais o carro não é elemento-mor? Utopia pensar em uma cidade para a bicicleta. Investir no transporte coletivo eficiente, em ciclovias seguras e cobrar caro pelo uso do carro são receitas prá lá de manjadas no discurso político e acadêmico. Por que não sai do discurso? Precisamos criar utopias espaciais que funcionem como formas de alargarmos nosso entendimento do urbano, com formas mais democráticas e socioecologicamente justas de se viver na cidade. Esta é a tarefa de nosso tempo: ampliar o escopo dos sonhos e desejos criando cidades nas quais gostaríamos de viver, cosmopolitas e sem carro.

 

 

Jackson Schneider, presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores)
Os automóveis tiveram presença determinante desde o século 20, deram um novo perfil à sociedade e à civilização, influenciaram comportamentos e encurtaram o tempo e as distâncias. Há, no entanto, problemas a superar, como dificuldades de trânsito, acidentes e problemas de emissões de poluentes e seus reflexos sobre a saúde pública. A mobilidade urbana não deve ser vista apenas a partir dos carros, mas deverá ser solucionada por políticas públicas, considerando a quantidade de carros nas ruas, a infraestrutura viária, o transporte público eficiente e abundante, a engenharia e a educação de trânsito, a inspeção veicular, o uso racional do automóvel e, enfim, o planejamento urbano, em razão do adensamento residencial e populacional das metrópoles. Não se trata, pois, de sacralizar ou demonizar o automóvel. Nem herói, nem vilão. Apenas necessário ao homem e ao mundo.

 

 

Fábio de Cristo, doutorando em psicologia no Laboratório de Psicologia Ambiental (UnB) e autor do Blog Psicologia e Trânsito
Para algumas pessoas, o automóvel é mais do que um meio de locomoção. Estudos sugerem que sentimentos de autoestima, autonomia, proteção e prestígio estão mais associados às pessoas que usam carro do que as que usam ônibus, o que sustentaria a preferência pelo uso daquele transporte. Outra razão para isso é o hábito que adquirimos pelo automóvel. A pessoa com um forte hábito por dirigir, geralmente, não pensa sobre como chegará num determinado evento; ela simplesmente pega as chaves e sai. O hábito tem sido considerado uma forte barreira psicológica para a mudança de comportamento. A melhoria do transporte público, embora seja algo muito bom, não será suficiente para o brasileiro abandonar seu veículo. De que vale um bom transporte público se as pessoas não estiverem dispostas a usá-lo ou a experimentar a mudança? Desconsiderar a dimensão humana do trânsito (fatores culturais, sociais e psicológicos) fará com que a intervenção apenas pela engenharia seja limitada para minimizar os problemas do tráfego.

 

 

Sonia Chébel Mercado Sparti, doutora em psicologia da educação pela PUC-SP, com tese sobre Jovens no Trânsito
Transporte público de qualidade (como os "bondes" de Berlim ou Veículos Leves sobre Trilhos - VLP) é condição necessária, embora não suficiente, para as pessoas diminuírem o uso do carro porque, na sociedade contemporânea, além de meio de transporte, o automóvel simboliza prazer, poder, prestígio, afirmação, independência, desejo, sucesso, felicidade enfim. A essa poderosa fantasia, ainda são acrescidos os efeitos da máquina publicitária, ratificando carros e motos como símbolos de ascensão social. "A gente não é nada sem um carro", afirmou jovem universitário que entrevistei. Desmitologização de carros e motos é o caminho para promover a humanização da circulação humana.

 

 



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