João Filgueiras Lima, o Lelé, conta histórias que presenciou durante as obras de construção da nova Capital | aU - Arquitetura e Urbanismo

Correspondência

João Filgueiras Lima, o Lelé, conta histórias que presenciou durante as obras de construção da nova Capital

POR JOÃO FILGUEIRAS LIMA (LELÉ
Edição 192 - Março/2010

acervo pessoal
No alojamento de Brasília, Lelé no acordeão
Havia muitos problemas de sobrevivência naquela sociedade de pioneiros que crescia desorganisadamente com uma rapidez alucinante. Os de segurança, por exemplo, eram sempre preocupantes. Havia pequeno setor policial improvisado pela Novacap, mas seus integrantes nem sequer andavam armados por falta total de treinamento. E a chegada frequente de marginais, atraídos pela exuberância financeira reinante, causava uma preocupação extra nos acampamentos. Ao contratar um operário, tínhamos o cuidado de exigir que ele entregasse qualquer tipo de arma, que cadastrávamos e recolhíamos, devolvendo-a quando ele deixasse a obra. No fim de algum tempo, tínhamos um cômodo cheio de caixas com as armas mais estranhas, algumas remanescentes até da guerra do Paraguai.

Mesmo assim, eram inevitáveis os confrontos. Uma vez, um pedreiro muito bom procurou-me pela manhã de uma segunda-feira pedindo um conselho. Tinha participado de uma briga em um bordel nas imediações de Luziânia e ele achava que tinha matado umas dez pessoas. Diante de tanta sinceridade e da confiança depositada em mim, assumi uma postura bem pragmática aconselhando-o a desaparecer da obra para sempre porque certamente a polícia de Goiás viria procurá-lo e nós não iríamos esconde-lo. O fato é que ele sumiu, mas nenhuma polícia do País e muito menos a de Goiás procurou-o em nosso acampamento. Cerca de doze anos depois, em pleno período Médici, encontrei-o na cidade satélite do Guará. Ele contou-me que estava muito bem de vida, que era policial e que participava da repressão política, oferecendo-me gentilmente sua ajuda. Agradeci, e até achei que naquele período em que as pessoas eram presas sem qualquer aviso prévio, como havia acontecido com meu amigo Fernando Andrade quando desaparecera do nosso escritório por uma semana, não seria de todo mal contar eventualmente com aquela disponibilidade.

Outro problema que nos assustava era a falta de assistência médica. Havia um pequeno posto do IAPI (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriais), que mais tarde se transformou num hospital de campanha, mas que não dava conta dos casos, sobretudo devido aos acidentes criados pelas condições improvisadas de trabalho. O local com atendimento médico satisfatório para uma situação de emergência mais complexa era Goiânia. Mas a distância de cerca de 200 km que hoje a separa de Brasília exigia um tempo imprevisível de viagem, principalmente no período das chuvas de 1957/1958, pois o trecho Brasília-Anápolis era constituído de pequenos caminhos que só poderiam ser transitados por um jipe com tração nas quatro rodas.

Numa ocasião, com muita sorte, fiz essa viagem em sete horas levando um funcionário com fratura na perna que berrava de dor a cada solavanco causado pelos buracos inevitáveis. Em outra vez, exatamente no dia em que o Brasil foi campeão do mundo na Copa da Suécia, meu amigo arquiteto Abílio Marques Cardozo caiu num buraco de mais de 5m de profundidade que havia surgido em uma estrada provisória em consequência das escavações no entroncamento eixo monumental-residencial, onde surgiria a estação rodoviária. Abílio ficou preso sob o jipe com uma grave fratura de bacia. Tivemos que improvisar uma maca sobre os bancos de um avião Scania da Vasp para removê-lo para o Rio de Janeiro. E o sofrimento do Abílio também foi grande devido aos solavancos, desta vez do avião que enfrentou um temporal durante praticamente toda a viagem.

acervo pessoal
Lelé às margens do rio Paranoá - onde foi construída a barragem - com a dona do circo e a cantora Dora Lopes
Com tantas aventuras desse tipo, acabei criando amizade com médicos pioneiros, entre eles Célio Menicucci, Farani,Carlos Ramos, Wilson Sezanna e já no início de 1964 com Aloysio Campos da Paz que havia chegado de uma experiência na Inglaterra para assumir o setor de ortopedia no 10º andar do recém-inaugurado 1º HDB. Mas desta vez, os acidentados fomos eu e Alda, quando retornávamos de uma viagem ao Rio de Janeiro. Alda ficou internada no hospital durante 60 dias assistida por Carlos Ramos, que cuidou do tratamento em geral e Aloysio de sua fratura de bacia.

Durante as noites Aloysio e eu discutíamos questões relacionadas com atendimento médico, e eu o ajudava na organização do setor de ortopedia, registrando em desenhos as trações que ele aplicava nos pacientes. A partir daí, passamos a nos encontrar em saraus com ele tocando trompete e eu teclados. Estabeleceu-se, assim, uma grande amizade e, que criou condições também para várias parcerias profissionais e, mais tarde, já em 1976, para a própria criação rede Sarah.

Para amenizar as tensões nos acampamentos, eram promovidos churrascos, reuniões e alguns eventos artísticos. Em uma dessas ocasiões, a cantora carioca Dora Lopes se apresentou em um circo instalado no Núcleo Bandeirante e eu fui convocado às pressas para acompanhá-la com meu acordeom porque o profissional por ela contratado não compareceu. Tivemos que realizar um pequeno ensaio já na hora do espetáculo e entrei em cena quase sem saber como seria a apresentação. No último número, em que dançava cantando o bolero Babalú, ela fez um streap-tease que terminou com as luzes do circo se apagando totalmente e ela, para criar um clímax na assistência, encostou-se escandalosamente em mim.

No meio da grande algazarra que se estabeleceu na plateia de centenas de operários, eu podia distinguir as vozes em coro que gritavam: agarra ela doutor! No dia seguinte evidentemente tive que dar explicações aos operários da minha obra sobre o relacionamento com a cantora depois do show.

O DUA (Departamento de Urbanismo e Arquitetura da Novacap) transferiu-se definitivamente para Brasília em 1959 e se estabeleceu em um barracão de madeira junto ao eixo monumental projetado pelo Nauro e que pegou fogo um pouco antes da inauguração da cidade. Graças à previdência do Nauro, os desenhos dos projetos foram preservados porque ele, sabiamente, os havia guardado em um grande compartimento de alvenaria a prova de fogo. Não fora essa providência, a história da inauguração de Brasília seguramente teria sido outra.

Nesse período, meus contatos com o grupo de Oscar eram eventuais porque estava envolvido no desafio de construir, em pleno período das chuvas, 138 casas na W-3 também pertencentes ao IAPB, que deveriam ser concluídas para a inauguração da cidade. Adotei a solução de executar inicialmente as coberturas leves, em telhas de alumínio, sustentadas por tubos de ferro galvanizado que posteriormente ficariam embutidos nas alvenarias. Com isso, foi possível realizar praticamente todos os serviços, inclusive os das fundações, ao abrigo das chuvas. Um dia, quando discutia com os mestres questões de trabalho, notei que as suas fisionomias mudaram repentinamente. Quando virei-me para olhar do que se tratava, deparei-me com o Juscelino que, em seu costumeiro tom jovial, disse que tinha vindo visitar a obra que era construída de cima para baixo.

Tive alguns contatos com Juscelino, a maioria deles através de César Prates, seresteiro de Montes Claros que sempre fazia parte de suas comitivas desde sua campanha eleitoral para a presidência. Tornei-me muito amigo de César porque sempre o acompanhava ao acordeom nas noitadas de seresta em Brasília. E algumas até com a presença do Presidente. Às vezes, podíamos contar com o violão primoroso de Dilermando Reis também amigo de Juscelino. Guardo até hoje com muito carinho um violão que Dilermando escolheu cuidadosamente no Rio de Janeiro para mim.

Em 1959, conheci Alda Rabello Cunha, arquiteta do Ministério da Agricultura, que trabalhava com Filinto Epitácio Maia, presidente do GTB, grupo do DASP responsável pela transferência dos funcionários para Brasília. O sucesso das concorrências para a aquisição do mobiliário se deve à organização exemplar proposta por Alda, incluindo pela primeira vez no serviço público o julgamento em duas fases separadas, respectivamente para desenho e preço. Ajudei-a no desenho e execução de uma parte desses equipamentos.

Aprendi muito com Alda, avessa a notoriedade, mas com grande talento para arquitetura e para o desenho, além de um excelente senso de organização do trabalho. Quando fui convidado pela Embrapa para projetar o seu Centro de Pesquisas do Cerrado em Brasília a complexidade da proposta era de tal ordem que não havia nenhum funcionário no órgão que acumulasse o conhecimento abrangente indispensável para organizar o programa. Não fosse o trabalho de pesquisa de Alda, com croquis primorosos de cada tipo de laboratório, acho que aquele projeto jamais poderia ter sido realizado com a qualidade necessária. Alda produziu também excelentes trabalhos de paisagismo para projetos meus e de Oscar.  Nos casamos em 1960 e nossas filhas Luciana, Adriana e Sônia nasceram em Brasília.

Tive apenas dois contatos com Lucio Costa durante esse período: o primeiro quando o arquiteto Aldary Toledo, com quem trabalhei no IAPB, apresentou ao mestre o projeto que havia elaborado com minha colaboração na parte de desenho para a SQ 109 Sul. O segundo, já em 1962, quando submeti à sua aprovação o projeto de urbanização dos edifícios de apartamentos para professores da UnB que eu havia elaborado em pré-moldados de concreto. Dr. Lucio se interessou pela solução construtiva e me submeteu a uma sabatina de mais de duas horas para que eu comprovasse se os detalhes executivos elaborados eram de fato exequíveis. Ao me retirar fiquei muito feliz porque senti que ele concordara com minha proposta.

Passei a trabalhar diretamente ligado a Oscar em 1961, após a inauguração da cidade. Ele convocou-me inicialmente para chefiar o DUA, ocupando o lugar de Nauro que havia se afastado de Brasília. Devido às dificuldades criadas pela então Prefeitura de Brasília para a minha contratação, Oscar resolveu me indicar para a Secretaria Executiva do Ceplan (Centro de Planejamento da Universidade de Brasília). Foi um período de muito trabalho. Além de acompanhar os projetos e construções da universidade recém-criada por Darcy Ribeiro, assumi também o setor de tecnologia do curso de arquitetura.

Ítalo Campofiorito foi designado por Oscar para a Secretaria Executiva do curso. A experiência da UnB foi muito rica sob o ponto de vista profissional e me possibilitou estreitar as relações com muitos amigos ilustres como Darcy Ribeiro, Frei Mateus Rocha, Athos Bulcão, Edgar Graeff, Ítalo Campofiorito, Glauco Campello, Roberto Salmeron, e muitos outros que foram fundamentais para meu aprimoramento intelectual e profissional.

A figura de Oscar, por sua genialidade e importância no cenário internacional, causava certo temor entre seus auxiliares, sempre empenhados em não desagradá-lo. Mas, gradualmente, na medida em que a convivência ia nos revelando sua personalidade singular de uma simplicidade autêntica, generosidade e lealdade com os amigos, as barreiras iniciais iam desaparecendo. O fato é que hoje, depois de uma grande amizade de quase 50 anos, sinto que Oscar, além de meu mestre, constituiu uma das referências mais importantes ao longo de minha vida.

 

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