Carlos Leite analisa o ensino de arquitetura em nova série de artigos | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

Conversas latino-americanas

Carlos Leite analisa o ensino de arquitetura em nova série de artigos

Ensino de arquitetura: o Brasil perdeu o rumo?

POR CARLOS LEITE
Edição 203 - Fevereiro/2011

6. Novos enfoques e olhar abrangente. As escolas deveriam ser sempre organismos vivos que se atualizam, mantêm-se minimamente flexíveis e permeáveis à inter e à multidisciplinaridade, além de novas demandas. Dois exemplos recentes: enfoques sobre a produção imobiliária (Real Estate, como se tem em tantas escolas no mundo) e sustentabilidade na arquitetura e urbanismo (Green Design). No primeiro caso, ao se manter preconceituosamente distante do mercado, as escolas de arquitetura deixam de pautá-lo - em São Paulo, surpreendentemente, há um programa de Real Estate em universidade pública, mas na Escola Politécnica da USP. No segundo caso, as escolas ainda estão tímidas em abraçar o tema com profundidade e amplitude, deixando-o para cursos de capacitação em certificação verde em vez de enriquecerem o assunto como ele merece. Trata-se, afinal e inclusive, de oportunidade rica de revalorização do profissional arquiteto e urbanista na sociedade: desenvolvimento sustentável, a sério, é o maior desafio do planeta no século 21 e a nossa profissão pode fazer muita diferença no cenário.

Exceções. Como sempre, servem para confirmar a regra geral e, óbvio, são muito bem-vindas. Não há mistério. As poucas escolas que conseguem fugir do panorama geral têm história, pertencem às raízes do ensino de arquitetura no Brasil. O pioneirismo - pela história e pela presença dos grandes mestres - das escolas carioca e paulista fizeram emergir instituições de ótima exceção: UFRJ (derivada da pioneira Escola Nacional de Belas-Artes, 1945), FAU-Mackenzie (1947), FAUUSP (1948). A sabedoria em construir uma tradição própria com inovação e rigor no ensino e pesquisa tem construído a boa reputação de UFRGS, USP-São Carlos, UnB, UFSC, UFPR, UFMG, UFRN, UFBA, PUC-PR, PUC-RS e PUC-MG para citarmos algumas evidências, dentre públicas e privadas.

Assim, vivemos hoje uma situação perigosa. Escolas de arquitetura que estão mais para fábricas de expedir diplomas do que para formar pensadores de construir cidades e edifícios.

E, note-se, (a) a situação já foi alertada antes e (b) incorpora graduação e pós-graduação, conforme Edson Mahfuz mostra em artigo. "O objetivo do ensino em qualquer universidade, especialmente as públicas, não deveria ser a mera obtenção de títulos, mas a formação de uma profissão. Nos últimos 20 anos o número de escolas de arquitetura saltou de pouco mais de 30 para mais de 130. Na grande maioria dessas escolas o ensino de arquitetura se afasta da formação profissional e cada vez mais visa à mera concessão de títulos. As escolas públicas não ficaram imunes a esse vírus e até a pós-graduação se viu afetada, pois a exigência feita pelo MEC de que os professores universitários devam ter pelo menos grau de mestre detonou uma verdadeira corrida à titulação", expõe Mahfuz.

O projeto especula sobre instalar uma barra de moradia coletiva industrializada junto ao território informalmente ocupado, mas de proteção ambiental, de Guarapiranga, SP. Devolver o território não urbanizado à cidade, oferecendo à população uma alternativa de morar junto às águas, resgatando a possibilidade de relação cidade-água. Autor: Gustavo Delonero.

Meu argumento é de que isso não se reproduz mundo afora.

O Brasil tem 197 escolas de arquitetura e urbanismo e população de 190 milhões de habitantes. Cerca de uma escola para cada 970 mil habitantes.

Vamos às situações em alguns países de produções arquitetônica e acadêmica consagradas.

Estados Unidos: 96 escolas e população de 310 milhões de habitantes. Uma escola para cada 3,2 milhões de habitantes. Canadá: 11 escolas e população de 34,3 milhões de habitantes. Uma escola para cada 3,1 milhões de habitantes. França: 22 escolas e população de 65,4 milhões de habitantes. Uma escola para cada 2,9 milhões de habitantes. Espanha: 29 escolas e população de 46,1 milhões de habitantes. Uma escola para cada 1,6 milhão de habitantes. Reino Unido: 43 escolas e população de 60,9 milhões de habitantes. Uma escola para cada 1,4 milhão de habitantes. (Os números foram extraídos dos institutos/colégios de arquitetura desses países. Nem todos são muito claros sobre o número exato de escola creditada. No caso de países como Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, foram indicados programas que mais se aproximariam às nossas escolas, ou seja, os M.Arch e não os B.Arch).

À massificação do ensino no Brasil alia-se outro fator agravante: a ausência de exame de ordem.

Nos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido o exame de ordem não apenas existe, como é rigorosíssimo. Nos Estados Unidos, o futuro arquiteto estuda, em média, seis anos em período integral (essa balela de estágio enquanto se estuda é outro vício pernóstico nosso), para posteriormente ser trainee na práxis (mercado ou setor público) e, então, submeter-se ao exame de ordem: exaustivo, realizado em vários dias de provas e com média de reprovação de 70%.

Resumo da ópera: não é fácil nem para qualquer um tornar-se um arquiteto ou urbanista nesses países. Exige muito estudo, seriedade, rigor. Suor, lágrimas e paixão. A recompensa? Reconhecimento da sociedade. A profissão é valorizada, porque não é mediocrizada.

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