Carlos Leite analisa o ensino de arquitetura em nova série de artigos | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

Conversas latino-americanas

Carlos Leite analisa o ensino de arquitetura em nova série de artigos

Ensino de arquitetura: o Brasil perdeu o rumo?

POR CARLOS LEITE
Edição 203 - Fevereiro/2011

Ruth Verde Zein joga luz no tema: "A universidade e o curso de arquitetura não existem apenas para 'treinar' os estudantes para que saibam responder a determinadas demandas concretas, mesmo que paradigmáticas (ou seja, com um certo grau de generalidade); mas igualmente para prepará-los para a produção de conhecimentos novos, seja sabendo responder casos não paradigmáticos e situações inusitadas, seja sabendo exercitar, também criativamente, os cada vez mais amplos domínios da disciplina arquitetônica - que embora ainda esteja, e sempre estará, centrada no projeto, não se limita a ele".

Há alguns anos uma ex-aluna minha, regressando da canadense Montreal, relatou-me curiosa que, recém-chegada à cidade e apresentando-se arquiteta e urbanista com suas feições de uma jovem de 23 anos, todos se espantavam: "arquiteta e urbanista já formada, e com essa carinha de menina? Quantos anos se estuda essas profissões no Brasil?".

Mas nossos alunos são surpreendentes, ainda bem. Apesar de todos os problemas e limitações do sistema, sempre emergem alunos investigativos, genuinamente descontentes com a mesmice e o tarefismo do sistema. Sabem que se formar arquitetos-urbanistas é muito mais que passar nas dezenas de disciplinas com as notas mínimas ou aprender a detalhar objetos arquitetônicos. Apaixonados pelo estudo da arquitetura, dedicados e estudiosos. Que buscam, no território de nossas problemáticas cidades, inquietações que determinam pesquisa no projeto e constroem durante alguns meses nos ateliês perguntas interessantes - com discussão coletiva de projeto, com professores e alunos juntos e não "fazendo atendimento de projeto" (como se o professor fosse médico). E dessas questões saem projetos como pesquisa.

Tenho certeza de que algumas de nossas escolas ainda emergem, vez por outra e apesar do sistema, tais alunos.

As imagens que ilustram este artigo são de dois deles, Gustavo e Marcela, formando-se agora na FAU-Mackenzie. Seus trabalhos refletem uma busca bonita por uma arquitetura na cidade, onde os limites entre arquitetura e urbanismo são fluidos e cujo mote maior é questionar e propor concretamente, como designers, possibilidades de refazer trechos complexos e de enorme exclusão social da metrópole paulista.

 

ENTREVISTA

Três questões de Carlos Leite para Ricardo Sargiotti, articulista da próxima edição

O espraiamento urbano (urban sprawl) nas grandes cidades latino-americanas ocorre sobre áreas de proteção ambiental. Como enfrentar o problema?

Isso não escapa do que esse hemisfério atravessa desde os tempos da migração do campo para as cidades. As áreas periféricas começaram como acampamentos onde qualquer terreno livre era fértil - uma área que hoje consideramos reserva natural: às margens de rios e canais, em topografias acidentadas ou em zona de mata virgem. Esses primeiros acampamentos foram fagocitados pela mancha urbana e passaram de cidade informal a formal. Essas histórias acabaram sendo assimiladas por nossa cultura, de forma que nossos questionamentos sobre isso não têm o crédito popular necessário e, assim, não estão nos planos municipais. Uma das respostas a esse problema seria, facilmente, uma política responsável do estado. No entanto, poderia começar com a conscientização da população para maior pressão sobre os governantes para que o tema passe a ser uma agenda real, não apenas retórica.

Como analisa a situação paradoxal de termos, na América Latina, grandes cidades com centros despovoados e periferias em expansão gerando um movimento contrário ao desejável, de cidades mais compactas?

O desejo de cidade compacta e eficiente não coincide com o desejo de muitos de seus habitantes, pelo menos daqueles que querem realizar seu sonho norte-americano de vida natural e casas individuais. Obviamente, o fenômeno é muito mais complexo do que apenas o desejo (ainda que eu acredite que seja uma das causas principais). A monofuncionalidade terciária ou turística dos centros históricos com seus horários desérticos e inseguros, a degradação de edifícios e a perda de serviços para moradores são algumas causas. Mas esse movimento é tão irracional que já começa a ser repensado timidamente. Alguns habitantes, cansados de largos trajetos, da perda de tempo, dos guetos e dos conflitos em comunidades fechadas, da falta de infraestrutura e, quero acreditar, da falta de urbanidade, devem produzir uma corrente inversa. Se essa tendência for facilitada com melhorias na infraestrutura do centro, com densificação da primeira periferia (aquela dos bairros-jardim dos anos 1940-50), com construção de obras públicas, parques e praças, em poucos anos poderíamos falar de cidades melhores e mais racionais.

Qual a responsabilidade dos arquitetos na explosão dos condomínios fechados, gerando anticidades, se o público comprador quer (com pertinência) segurança?

Devemos ser cúmplices de uma situação que sabemos ser negativa para a cidade? Colocada desse modo maniqueísta, a resposta nos leva a uma situação passiva ou de quase paralisia, deixando tais projetos em mãos de inescrupulosos. Mas há possibilidade de produzir arquitetura, de melhorar a qualidade de vida não apenas de quem tem o privilégio de "estar dentro", e de reconhecer tramas urbanas e atuar conscientemente com o meio ambiente nesses espaços. Dessa pergunta chegamos a outras. O desenvolvimento desses projetos está guiado por empreendedores imobiliários, e isso implica que a escolha dos terrenos, a densidade, o tipo de construção, os módulos habitacionais, os espaços livres, os preços, os custos, a publicidade de sua necessidade para a sociedade e as formas que inspiram os desehos são feitos por especialistas em investimentos e por publicitários. Qual o papel do arquiteto? Resignamo-nos à decoração? Nisso está nossa responsabilidade: devemos brigar por um papel ativo em todas e em cada etapa do projeto. Desse único modo seremos capazes de retribuir socialmente nossa formação.

 

Conversas latino-americanas/Charlas latinoamericanas

Fevereiro
Ensino de arquitetura, por Carlos Leite (BRA)

Março
Periferia, por Ricardo Sargiotti (ARG)

Abril
Reconstrução, por Patrício Mardones (CHI)

Maio
Políticas públicas, por Camilo Restrepo (COL)

Junho
As novas gerações, por Derek Dellekamp (MEX)

Julho
Habitação e arquitetura cotidiana, por Alvaro Puntoni (BRA)

Agosto
Poucos recursos, boas ideias, por Javier Corvalán (PAR)

Setembro
Espaços públicos, por Monica Bertolino (ARG)

Outubro
Romper, por Felipe Mesa (COL)

Novembro
Sustentabilidade urbana/desempenho ambiental e desenvolvimento urbano, Joana Gonçalves (BRA)

Dezembro
Novas tecnologias, por Michel Rojikind (MEX)

Janeiro/2012
Novas visões na arquitetura da América Latina Roberto Segre (CUB)

 

BIBLIOGRAFIA

BARBOSA, Fabio. Depoimento "Reforma de valores". In: http://www.tedxsaopaulo.com.br/fabio-barbosa

Mahfuz, Edson da Cunha. O projeto de arquitetura e sua inserção na pós-graduação. Arqtextos Vitruvius, 022.03. Ano 02, mar 2002.

Zein, Ruth Verde. A Síntese não é ponto de chegada, mas de partida. In: LARA, F.; MARQUES, S. (org). Projetar/Desafios e conquistas da pesquisa e do ensino de projeto. Rio de Janeiro: EVC Editora. 2003, p. 81-84.

LAUANDE, Francisco. O exame de ordem para arquitetos. Uma contribuição importante para o ensino da arquitetura. Drops Vitruvius, 012.03. Ano 06, ago 2005 .

Agradecimento
Ruth Verde Zein

Carlos Leite é professor de projeto na graduação e pós-graduação na FAU-Mackenzie desde 1997 e professor visitante na Fundação Dom Cabral. É arquiteto e urbanista com mestrado e doutorado pela FAUUSP e pós-doutorado pela Cal Poly University. Participa como professor visitante e coordenador de workshops em ateliês de projeto em diversas escolas no Brasil e em Barcelona (Espanha), Califórnia e MIT (Estados Unidos), Holanda e Canadá. É sócio do escritório Stuchi & Leite Projetos (www.stuchileite.com).

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