Vazio central favorece luz e ventilação naturais no edifício do Sebrae, em Brasília, projetado pelo Grupo SP e Luciano Margotto | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Vazio central favorece luz e ventilação naturais no edifício do Sebrae, em Brasília, projetado pelo Grupo SP e Luciano Margotto

Dois pavimentos térreos marcam as atividades públicas do edifício do Sebrae, levam luz e ventilação ao interior dos blocos e promovem a integração do edifício com a paisagem externa - e também integram os usuários que percorrem livremente seus espaços, em continuação com a cidade

Por Silvana Maria Rosso Fotos Nelson Kon
Edição 204 - Março/2011

Um térreo multiplicado. Não um, mas dois. E a valorização de uma área pública aberta e franca, em continuação com a cidade - como uma referência ao conceito das superquadras brasilienses, onde "o chão é uma superfície contínua", destacam os arquitetos Alvaro Puntoni, Luciano Margotto, João Sodré e Jonathan Davies.

O edifício do Sebrae em Brasília acaba de ficar pronto pelas mãos desses quatro arquitetos paulistas, ávidos por inserir seu discurso arquitetônico na cidade projetada por Lucio Costa e Oscar Niemeyer há 51 anos. Vontade que foi o principal agente instigador que os levou a participar (e a vencer) o concurso público para a nova sede do Sebrae Nacional, realizado pelo IAB-DF em 2008.

O terreno, generoso, está junto à via L2 e com vista para o Lago Paranoá, com apenas uma divisa construída. Esses fatores deram ampla liberdade de criação aos arquitetos, que atenderam ao programa bipartite dividindo o edifício em dois. A multiplicação do térreo veio de uma interpretação da legislação local, que considera o pilotis como área construída. Assim, dois térreos passaram a acompanhar o declive do terreno, e os pisos sustentados por pilotis abertos são tratados como galerias.

O único acesso acontece no nível da rua, e culmina na laje em balanço, que funciona como mirante na fachada oposta, voltada para o lago e as Embaixadas. As garagens e o auditório são enterrados e os escritórios foram instalados nos pavimentos superiores, garantindo a privacidade necessária.

A praça integradora O vazio central é o coração do conjunto. Como o pátio que, nas palavras do escritor argentino Jorge Luis Borges em seu poema O Pátio, "derrama o céu na casa". É aqui que se organiza a distribuição do programa, pátio que traz luz e canaliza o ar. Enquanto isso, os espelhos d'água no térreo superior amenizam o clima seco, mantêm o pavimento oxigenado e contribuem para a refrigeração do edifício: a ventilação cruzada conduz a umidade para o interior, evitando o uso contínuo de ar condicionado. A cobertura verde instalada sobre o auditório e sobre as varandas de circulação regula esse microclima interno, mesclando-se visualmente com a paisagem que circunda o edifício, quando vista de cima.

Protegida por quebra-sóis, a vedação externa é constituída por vidros piso-teto. Entre brise e vidro, um grande avarandado acessado por portas garante a formação de um colchão de ar que refresca os escritórios.

Forte elemento de fachada, os brises propiciam também o conforto visual nos ambientes superiores e reduzem o consumo de energia. Tanto fechado quanto aberto, o anteparo metálico controla a claridade de forma que penetre nos espaços sempre na medida certa. Uma estrutura de sombreamento de vidro serigrafado (denominada de "nuvem" pelos arquitetos) completa o sistema de controle: ao mesmo tempo em que deixa os raios de luz passar, sombreia diferentes superfícies, em função da hora do dia.

A área dos escritórios é livre, sem pilares no meio dos pavimentos, admitindo alterações de arranjos tanto para os espaços quanto para os componentes de instalações prediais e de infraestrutura, como piso elevado e forro.

A conexão entre os setores é realizada por uma estrutura periférica dupla - dois castelos de circulação vertical, infraestruturas e apoios diversos - com múltiplas possibilidades de ligação: escadas, varandas e elevadores coletivos ou privativos que promovem a comunicação entre os diversos espaços. "A circulação incorpora no desenho do percurso cotidiano o vazio central, acentuando sua presença", enfatizam os arquitetos. Todas as redes de infraestrutura são distribuídas para o conjunto a partir de lajes com instalações (forros e pisos elevados) e dutos verticais especializados (shafts).

Os sistemas construtivos surgiram como consequência do projeto, pensados para agilizar o processo de construção que aconteceu em 18 meses e respeitar os custos estipulados em concurso. Até o térreo superior utilizou-se estrutura de concreto, que demorou oito meses para ser construída. Já no pavimento dos escritórios, especificou-se estrutura metálica, montada em quatro meses e meio. Com poucos revestimentos, destaca-se no projeto o painel de azulejo feito pelo artista plástico Ralph Gehre. A obra custou 2.300 reais/m2.

O concurso O diferencial desta obra é ter saído do papel. A competição foi dividida em duas etapas, facilitando bastante o processo. Primeiro, foram entregues seis pranchas A3 com os estudos preliminares. Para a segunda fase, o Sebrae solicitou as modificações desejadas em projeto para os três finalistas que desenvolveram oito pranchas e indicaram os profissionais responsáveis pelos projetos complementares. Claudio Libeskind ficou em segundo lugar e Francisco Spadoni, em terceiro. Carlos Dias e Mario Biselli receberam menção honrosa. Os arquitetos também assinaram o contrato para a execução da obra, desenvolveram os projetos de comunicação visual e layout, e posteriormente foram contratados para fiscalizar a obra.

 

FREEDOM, FREEDOM
A multiple ground floor. And enhancing an open and transparent public area, as a continuum of the city - a reference to the superblocks concept in Brasilia, in which "the ground is a continuous surface", as the architects Alvaro Puntoni, Luciano Margotto, João Sodré and Jonathan Davies highlined. The multiplication of the ground floor came from an interpretation of the local legislation that considers the pilotis as built area. Thus, two ground floors accompany the lot's declivity, and the floors supported by open pilotis are treated as galleries. The central void is the heart of the complex. It is here that the program is distributed, with a patio that conveys light and channels the air. Meanwhile, the water mirrors in the top ground floor soothe the dry climate, keep the floor oxygenated and contribute to cool the building: cross ventilation leads the humidity to the inside, avoiding the continuous use of air conditioning. Protected by brise-soleils, the façade consists of floor-to-ceiling glass. Between the brise-soleils and the glass there is a large veranda accessed through doors, assuring the formation of an air cushion that cools the offices. The constructive systems were designed to speed up the construction process and stay within the costs stipulated in the bid. For the top ground floor, a concrete structure was used. For the office floors the specifications required metal structure.