Assinado por GCP Arquitetura, projeto de retrofit de fábrica Valeo, em Itatiba, SP, garante uso mínimo de ar-condicionado com ventilação cruzada e sombreamento das fachadas | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

GCP Arquitetura . Itatiba, SP

Assinado por GCP Arquitetura, projeto de retrofit de fábrica Valeo, em Itatiba, SP, garante uso mínimo de ar-condicionado com ventilação cruzada e sombreamento das fachadas

Retrofit em fábrica de radiadores, com expansão do espaço, teve estudos interdisciplinares de incidência solar e de engenharias de instalação e climatização. O resultado foram fachadas escalonadas, ventilação cruzada e mínimo uso de ar-condicionado, além de um bem-vindo espaço para trânsito de pedestres

Por Giovanny Gerolla Fotos Nelson Kon
Edição 212 - Novembro/2011

Do calor intenso no chão da fábrica de radiadores, para uma nova convivência em mata ciliar tropical do vale do rio Atibaia: assim renasceu a planta da Valeo, em Itatiba, interior de São Paulo. A empresa, por um lado, declara-se focada na concepção, produção e venda de componentes, sistemas integrados e módulos para a indústria automotiva que reduzam a emissão de CO2. Na outra ponta ficaram os arquitetos Sergio Coelho e Mauricio Reverendo, da GCP Arquitetura, coordenados pela bióloga Alessandra Araujo, gestora de projetos do escritório.

"Tudo parte de um grande desafio interdisciplinar, que estuda implantação, ventilação natural do sítio, incidências solares nos solstícios de verão e de inverno, e equinócios de outono e primavera. Isso para adequar conforto térmico a uma fábrica antiga, da qual não tínhamos notícias de plantas originais, nem mesmo histórico dos cálculos estruturais", conta Alessandra.

Os arquitetos tiveram que passar por uma fase de prospecção, que chegou até as fundações. O projeto incluiu um retrofit das instalações industriais existentes, e aumento da área de produção para melhor atendimento da indústria automobilística.

O complexo existente era composto por dois prédios contíguos, com uma série de anexos e marquises de utilidades (tanques, bombas, filtros etc.), todos demolidos e substituídos por um único anexo, que compôs a nova fachada sul, voltada para a rodovia. Os equipamentos e anexos da fachada oposta, norte, voltada para o rio Atibaia, também foram demolidos e no local foi construído o novo bloco administrativo em dois níveis e contíguo ao edifício principal. E ainda foi projetado o conjunto do restaurante, ambulatório e banco com 800 m2.

A consultoria para conforto térmico é da professora doutora Anesia Barros Frota, da FAUUSP, que trabalhou intensamente com as engenharias de climatização e de instalações. Depois de muito estudar, decidiu-se que, ar-condicionado mesmo, só em restaurante, escritórios e salas de reuniões executivas. A ventilação é natural na maior parte dos espaços. "O desafio é entender que não há solução para tudo. Em uma sala de reunião fechada com vidro ou em áreas de muitos computadores, é preciso ter o ar-condicionado: o calor do corpo de várias pessoas e máquinas não poderá ser vencido apenas pela circulação natural. Por outro lado, temos de saber até que ponto se cria um ambiente agradável com o emprego mínimo de recursos que geram manutenção e custos", revela Sergio.

A fachada do edifício principal, administrativo, não está voltada para a rodovia Dom Pedro, que teoricamente seria a frente do terreno. Suas aberturas dão vista ao vale do rio, aos fundos e com orientação norte, o que originou um escalonamento da fachada em panos seccionados - no ritmo intenso das variações de altas cargas térmicas no verão, e da luz rasante, desconfortável aos olhos, no inverno. O resultado foi uma volumetria inquieta, suspensa nos pilares em Y, com a intenção de que cada bloco faça sombra em seus vizinhos, como um movimento solidário. Aqui, os brises equilibram a entrada de luz natural e de calor. Como bandejas apoiadas sobre os pilares de concreto, os brises são fixados em estrutura metálica, e receberam trepadeiras nativas, com mais sombra, e mais água fresca: desta vez, é a evapotranspiração quem vem fazer a diferença.

Os volumes escalonados têm alturas que variam entre nove e onze metros, e são fechados com sistema spider glass, a partir dos 3,5 m de altura. A construção avança e recua na busca da sombra. Encontra, também, a água fresca: espelhos d'água circundam o edifício principal, garantindo evaporação superficial que circula com o ar. As laterais trazem venezianas de policarbonato, sempre opostas ao sol poente, e com pouca insolação matinal, para que haja ao mesmo tempo ventilação e sombra.

Já na parte interna, o átrio central na recepção de visitantes funciona verticalmente como chaminé. Um rasgo no forro do segundo pavimento cria efeito de convecção que dispensa, mesmo neste pedaço de área administrativa, a instalação de equipamentos de ar-condicionado. "O ar úmido entra por baixo, vindo dos espelhos d'água e das plantas, e sai por exaustão, como ar aquecido, pelo rasgo", conta Sergio Coelho.

A nova área administrativa tem serviços de escritório para 200 funcionários e, em sua parte inferior, vestiários para cerca de 400 pessoas, áreas de laboratórios, auditórios, além da recepção e das salas de reunião.

A fachada do edifício industrial e de depósito recebeu elementos vazados de policarbonato. E em toda a área de produção, os fechamentos laterais são de painel térmico tipo sanduíche, recheados de poliuretano, e evitam trocas de calor com o ambiente externo. "Estruturas originais, de concreto, foram mantidas. A cobertura, no entanto, recebeu novas telhas metálicas - leves - com revestimento de TPO, material isolante térmico emborrachado que é estanque, envelopando o edifício contra infiltrações", complementa Alessandra.

No edifício do restaurante, foram aplicados os mesmos sistemas construtivos (concreto e painéis metálicos isotérmicos), mas em linguagem arquitetônica especial, mais descontraída e emoldurada - essa moldura de concreto funciona como um brise, protegendo a abertura da luz e calor diretos.

O complexo prevê captação de água de chuva e sistema de reúso. "Fizemos tubulação dupla em uma estação de tratamento já existente, direcionando-a para sanitários e lavagem de laboratórios", conta Alessandra. Há ainda metais e válvulas sanitárias com controle de vazão. "A economia de energia elétrica chega a 15%; a de água a 25%", diz Sergio. "O que não dá para medir, em números, é o grau de satisfação dos usuários, que ganharam uma redução térmica no chão de fábrica de até quatro graus Celsius, sem o auxílio de refrigeradores - de 29 para 25 graus.

Era preciso ainda inverter e organizar os fluxos de matérias-primas, pessoas e produtos acabados, sem parar as linhas de produção. A fábrica, cada vez mais humana, mas sem deixar de ser frenética, só parou um dia no Natal, e outro para as comemorações de Ano Novo. "O projeto executivo seguiu estratégias em fases, pela lógica da construção", explicam Sergio e Alessandra. Com o andamento das obras, conexões elétricas e hidráulicas iam sendo ligadas (o novo), ao passo que outras eram desativadas (o velho).

Um acordo prévio com a Cetesb exigiu a desocupação da APP (Área de Preservação Permanente) no vale do rio Atibaia, diante do qual se optou também por um segundo renascimento: o da vegetação ciliar original.

Para trazer o homem de volta ao sítio, priorizou-se o fluxo de humanos, em detrimento dos caminhões e automóveis que antes imperavam na fábrica de radiadores, entrando e saindo por dois acessos separados. As pessoas se contorciam entre motorizados, para ir de um prédio a outro.

Hoje, um bulevar para pedestres orienta a circulação neste organismo vivo. No novo acesso geral, único, e de circulação externa entre as divisões da fábrica, estão implantados os edifícios de apoio e lazer. Todos merecem um momento de descanso no meio do caminho.

 

SOLIDARY MOVEMENT
From the intense heat at the radiators factory floor, to a new conviviality in the riparian woods at the Atibaia river valley: thus the Valeo plant, in Itatiba, São Paulo countryside was reborn. "Everything is part of a huge interdisciplinary challenge, studying implanting natural ventilation at the site, solar incidences in the summer and winter solstices, and the autumn and spring equinoxes. All this to adequate thermal comfort to an old factory", reports Alessandra Araujo, project manager in the GCP Arquitetura studio.

Ventilation is natural in most spaces. The main building facade, administrative, opens a view to the valley, at the back of the lot and with orientation towards north, which originated a grading in the façade in sectioned panes - in the intense rhythm of the high thermal load variations in the summer, and the skimming light, uncomfortable to the eyes, in winter. The result was a volume suspended on Y-shaped pillars. Here, the brises balance the entrance of natural light and heat. Just like trays supported on the concrete pillars, the brises are fixed on a metal structure. These echeloned volumes have heights varying between nine and eleven meters, and are closed with a spider glass system, from a height of 3.5 m. The construction advances and recoils seeking the shade. It also finds fresh water: water mirrors surround the main building, guaranteeing the superficial evaporation that circulates with the air.