Programa fora do comum impõe desafios aos jovens arquitetos do escritório CoDA na criação da Fabrika Filmes em Brasília | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Programa fora do comum impõe desafios aos jovens arquitetos do escritório CoDA na criação da Fabrika Filmes em Brasília

Por Haifa Yazigi Sabbag Fotos Joana França
Edição 219 - Junho/2012

Fabrika Filmes - CoDA Arquitetos . Brasília, DF . 2008/2011

Concreto e estrutura metálica se unem neste projeto de uma produtora de vídeos: o estúdio enterrado é onde são produzidas as imagens, enquanto nos pisos superiores a luz natural filtrada por brises e terraços ilumina os escritórios

O programa fora do comum - uma produtora de vídeos - impôs certas limitações aos três jovens arquitetos do escritório CoDA. Isso, somado ao fato de a obra se localizar em Brasília, no setor de indústrias e abastecimento, área pouco definida urbanisticamente. A expressão estética de edifício funcional e dinâmico exigiu muitas considerações dos arquitetos para não romper com a tradição da cidade.

Outros desafios se sucederam, partindo do programa. A transferência da sede para um novo local deveria incorporar não só as funções, mas a flexibilidade de uma empresa em constantes transformações, com núcleos de trabalho bem definidos, estúdios de filmagens, escritórios para todas as atividades da empresa, alguns destinados a parceiros, espaços hermeticamente vedados de luz e som, outros abertos para convivência e maior interação entre os funcionários. Enfim, um projeto complexo que exigiu pesquisas no setor para melhor distribuição dos espaços, com previsão para futuras expansões.

O fato de o terreno de 1,6 mil m² se constituir de dois lotes idênticos permitiu a implantação de um edifício compacto em um dos lados, reservando-se o outro para estacionamento e ampliações quando necessárias. A fachada leste, voltada para essa área vazia e para receber luz natural, sombreia o atual estacionamento na parte da tarde, quando o sol é mais intenso.

Tudo foi pensado em função da luz natural e da planta flexível que obedece à modulação determinada pelo projeto estrutural. Um contraponto volumétrico revela-se entre a edificação leve, de estruturas metálicas onde estão os escritórios, e o volume sólido de concreto que abriga o estúdio de filmagens. O contraste é acentuado pela estrutura de aço, pintada de branco, e a de concreto, revestida de fuget preto.

A estrutura metálica foi definida para agilizar a construção e, segundo os arquitetos, para romper com a tradição do concreto armado na capital do País. Intencionalmente, está ressaltada ao longo das duas fachadas laterais com os perfis "I" dos pilares.

A solução para instalar o estúdio de filmagens e seus anexos sem constituir obstáculos às áreas comuns foi criar um subsolo, permitido pela legislação em quase toda a sua superfície com acessos pelo térreo e por uma das laterais para equipamentos. Semienterrado, com pé-direito duplo e 150 m² de superfície, o estúdio localiza-se na parte posterior do pavimento. Na parte frontal está o núcleo de edição, que requer maior controle de iluminação e ventilação naturais, assim como de ruídos. Saídas de ar quente e entrada de luz foram dispostas estrategicamente nesse piso para não interferir na área externa. Entretanto, apesar da restrição à luz, um recorte no terreno garante um cuidadoso e bem-vindo contato com o verde de um pequeno jardim, ou seja, com o mundo exterior, humanizando o ambiente ao permitir distinção entre o dia e a noite, já que o trabalho muitas vezes avança pela madrugada. No subsolo, além do estúdio e camarins, o núcleo de edição tem sete salas, uma das quais de projeção para apresentação dos trabalhos e outra de computação gráfica com seis postos de trabalho e ilhas de edição.

A posição do estúdio exigiu a implantação da entrada principal na lateral do edifício e os acessos verticais no centro da edificação, gerando aí um átrio vazado que organiza todos os espaços. Escritórios no segundo e terceiro pisos, acessados por escadas e elevador hidráulico, foram projetados visando a mudanças para permitir, inclusive, aluguel de salas e parcerias com outras empresas. Verticalmente, ao lado dos acessos, está instalada a coluna dos sanitários, copa e outros serviços.

No hall, primeiro contato com o interior da Fabrika, os arquitetos lançaram mão de um recurso plástico com passarelas enviesadas, revestidas de madeira, que atravessam um vão livre de cerca de 10 m - um quadrado perfeito - de forma pouco comum, como um trapézio ou um cubo torcido, na definição dos arquitetos, recurso para dar mais dinamismo ao espaço, inspirado em ideias do grupo inglês Archigram. Com a claraboia de vidro refletindo o revestimento do piso formado por placas de 120 cm x 120 cm, mais os fechamentos transparentes do elevador e as escadas vasadas, esse ambiente-protagonista parece anunciar a produção que ali acontece. Tudo se volta para ele e dele se avistam os espaços comuns dos andares.

Outra exigência do programa: áreas comunitárias, de encontros e convivência. São reveladas nas varandas amplas em balanço, que percorrem toda a fachada lateral leste. Para essa área de grande mobilidade, protegida por painéis de chapa metálica perfurada, com piso e forro de madeira, voltam-se as vidraças dos escritórios, permitindo maior integração, mesmo que visual. A modulação desses painéis segue a modulação do edifício, ou seja, a cada três metros há uma coluna metálica; na vertical a modulação repete os demais elementos da fachada, mas com 1,20 m de altura para formar os guarda-corpos da varanda e para proteção do sol. A instalação do restaurante no piso térreo, próximo à entrada principal, também foi determinada pelo programa. Com capacidade para 40 pessoas - as equipes de filmagens são grandes - esse espaço, pensado também para reuniões informais, contribui para maior convivência entre funcionários e clientes.

A fachada da lateral oeste não conta com terraços; com menos profundidade, é iluminada por janelas menores também protegidas por brises metálicos. Nesse lado corre a rampa de acesso de veículos ao estúdio.

Já a fachada frontal anuncia o caráter excepcional do prédio. Revestida de chapas de alumínio adesivados em diferentes tons de amarelo, destaca um grande painel de lona translúcida, com grafites em branco e preto, composição que expressa com equilíbrio a função e o nome da empresa. A marquise preta aponta para a entrada sobre o jardim do subsolo; abaixo, esquadrias de alumínio preto e vidro fumê dão privacidade ao restaurante. Esse elemento, prolongamento da estrutura de concreto do estúdio, estende-se pela lateral para proteção dos pedestres. Na extremidade do lado direito, uma estreita faixa vertical de vidro fixo ilumina o interior dos pavimentos; sob ela está a pequena porta de serviço.

Responsáveis por todo o projeto arquitetônico, inclusive o detalhamento das plantas, os arquitetos manejaram bem a criatividade , matéria-prima da publicidade aí produzida. E atingiram um alto nível de satisfação no desempenho do edifício, no aproveitamento do espaço e, principalmente, na expressão estética.

DYNAMIC IMAGES
Transferring the headquarters to a new location should incorporate the flexibility of a company in constant transformation, with well-defined work nuclei, filming studios, offices, some spaces hermetically enclosed from light and sound, others opened to conviviality and interaction. The task demanded from the young architects in the CoDA office to install a compact building at one end of the 1,600 m² lot, reserving the other for parking and expansion whenever needed. A volumetric counterpoint reveals itself between the light building, in metallic structure, where the offices are, and the solid concrete volume sheltering the filming studio. The solution to install the filming studio and its annexes so that they would not constitute obstacles for the common areas was to create an underground. Semi-buried, with a double ceiling height and 150 m² of surface, the studio is located at the back part of the floor. The editing nucleus is in front, and in spite of the restriction to light, has gained a contour in the lot that assures a careful and welcome contact with the green of a small garden. At the hall the architects designed cross walkways, wooden-lined, that cross a span of about 10 meters forming a trapeze or a twisted cube, in the architects' definition, a resource to give the space more dynamism, inspired in ideas from the English group Archigram.



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