Hora de se aposentar: existe um momento para os arquitetos? | aU - Arquitetura e Urbanismo

Fato e Opinião

Exercício profissional

Hora de se aposentar: existe um momento para os arquitetos?

Edição 222 - Setembro/2012

Em julho de 2012, Robert Venturi, 87, e Denise Scott Brown, 81, anunciaram suas aposentadorias. E levantaram a questão: existe um momento para o arquiteto se aposentar? Quando tinha 72 anos, I. M. Pei anunciou a sua aposentadoria também. No entanto, passou as duas décadas seguintes projetando ininterruptamente. Hoje, aos 95 anos, voltou a afirmar que está aposentado, dessa vez, segundo ele, para sempre. Philip Johnson tinha 85 anos quando decidiu se aposentar. Mesmo assim, passou os treze anos seguintes, até 2005, ano de sua morte, trabalhando. Aos 83 anos, Frank Gehry ainda comanda um escritório de arquitetura responsável por projetos em andamento no mundo todo, como o Memorial Eisenhower, em Washington DC, e o Parc des Ateliers em Arles, na França. Tinha 68 anos quando se tornou famoso com o projeto do Guggenheim de Bilbao. Nessa lista, não pode ficar de fora Oscar Niemeyer que, aos 104 anos, continua produzindo arquitetura. Por que tantos arquitetos continuam a exercer a profissão? Quando um arquiteto deve se aposentar? Existe um momento ideal?

 

Foto: Fabia Mercadante
Siegbert Zanettini
arquiteto, diretor-presidente da Zanettini Arquitetura Planejamento e Consultoria

 

O trabalho de arquitetura é, para uma boa parte dos profissionais, extremamente estimulante e revigorante. Os constantes desafios a serem superados e a doação sem limites pelo ofício para a realização dos nossos sonhos fazem de nossas vidas uma busca permanente com a razão, sempre cúmplice da sensibilidade. Não há porque parar. Os limites são as nossas condições físicas. Quase sempre coincidem com o tempo integral de nossas existências.

 

Foto: Marina Cordiviola
Alberto Cordiviola
professor-titular de projeto da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (UFBA)

 

Frequentemente ouvimos pessoas em idade próxima à aposentadoria falar que agora poderão fazer o que sempre desejaram: pintar, tocar violão, dar atenção aos netos, viajar... Há uma vida postergada que começa a se vislumbrar na aposentadoria. Significa que se passou a vida trabalhando para viver e não vivendo para trabalhar: característica do trabalho alienado, segundo Marx. Mas, para quem ama o seu trabalho e vive para ele livremente, a aposentadoria é um castigo. O escritor, o pintor, o músico, o poeta não têm hora de se aposentar. Os arquitetos, aqueles que amam o que fazem, sentem a aposentadoria como um exílio.

 

acervo pessoal
Nestor Goulart Reis
professor da FAUUSP e autor dos livros Dois séculos de projetos no Estado de São Paulo: Grandes obras e urbanização (Edusp/ Imprensa Oficial), Evolução urbana do Brasil (Pioneira) e Vilas e cidades do Brasil colonial (Edusp/Imprensa Oficial)

A relação que temos com a arquitetura e com o urbanismo tem sempre dois lados: um agradável e um penoso. É como todos os profissionais, com as suas respectivas áreas. Mas, com a aposentadoria, eles renunciam às duas. Para nós, arquitetos, é sempre diferente. O lado penoso é o da burocracia e das rotinas dos escritórios. Desse, podemos nos aposentar. Mas do outro, o agradável, jamais nos aposentamos. Seria impossível. Quando deixamos a burocracia e saímos de férias - temporárias ou definitivas - viajando, andando pelas ruas, observando as paisagens urbanas, nunca sabemos se estamos trabalhando ou apenas curtindo os prazeres da vida. Nesse sentido, a nossa é a mais bela das profissões. Para nós, que trabalhamos com pesquisa e teoria, há outra linha de satisfação, jamais interrompida. Vivenciando a arquitetura e os espaços urbanos, aprendemos a ler a lógica de seus projetos e planos, a partir das evidências materiais. Nosso diálogo com os espaços construídos faz parte de nosso cotidiano, em qualquer época de nossas vidas. Para esse prazer, não pode haver aposentadoria.

 

acervo pessoal
Witold Rybczynski
professor-emérito de arquitetura da Universidade da Pensilvânia, autor dos livros Esperando o fim de semana (Record, 2000), Vida nas cidades: expectativas urbanas no novo mundo (Scribner, Nova York, 1996) e The biography of a building (Thames & Hudson, 2011). Possui um blog em seu site www.witoldrybczynski.com

Há muitas razões para os arquitetos não se aposentarem - ou não poderem se aposentar. Levam-se décadas para aprender a ser um bom arquiteto, não é uma profissão para prodígios. Mesmo aqueles que começam jovens, como Wright ou Alvar Aalto, não produzem seu melhor trabalho imediatamente. As obras-primas normalmente vêm tarde. Mies van der Rohe tinha 72 anos quando projetou o Seagram Building. Louis Kahn tinha 71 anos quando o Museu Kimbell abriu e, se não tivesse morrido dois anos depois, não há dúvidas de que teria continuado trabalhando. Arquitetos não são como pintores, sozinhos em seus estúdios. A arquitetura é feita em equipe, e o velho mestre está cercado de jovens assistentes - e a juventude é sempre um estimulante aos mais velhos. As mentes jovens propõem e o mestre descarta, e as principais decisões ainda se beneficiam de anos de prática e experiência. Como edifícios representam grandes investimentos, do ponto de vista do cliente é sempre confortante saber que um profissional com décadas de experiência supervisiona o processo. Todos os arquitetos já experimentaram tempos difíceis no escritório e, por isso, enquanto chegar um cliente com um projeto interessante, o arquiteto não abandonará o ofício. Um arquiteto deveria se aposentar quando passou sua melhor fase? É fácil lembrar de arquitetos que não sobreviveram a sua promessa quando mais jovens - Walter Gropius, Marcel Breuer, Charles Moore. Mas a arquitetura não é um esporte, e quem pode nos dizer que um octogenário não pode mais nos surpreender? Gehry tem 83 anos e possui projetos em todo o mundo. A julgar por seu design, mais experimental do que nunca, ele está olhando adiante, não para trás. Gehry acabou de me mostrar um projeto de sua nova casa, que planeja construir. Não arrisquei a impertinência de lhe perguntar quando irá se aposentar. A resposta é óbvia.

 

 



Destaques da Loja Pini
Aplicativos