Cidade e reconstrução: Beirute | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

Conversas urbanas

Cidade e reconstrução: Beirute

Por Bianca Antunes
Edição 229 - Abril/2013
João Maluf
João Maluf
Construído em 1924, o então Barakat House era um edifício residencial com oito amplos apartamentos. Fica na rua onde se demarcou a chamada green line, a linha que separava os dois lados da cidade durante a guerra civil. Milícias ocuparam o edifício, por sua posição estratégica, resultando em marcas de bala por todo o prédio. Arquitetos, urbanistas e ativistas salvaram o edifício de ser demolido em 1997, que deve se transformar em um museu de memória

Beirute era, então, a Paris do Oriente. Uma cidade cosmopolita, onde se misturavam o burburinho de uma dinâmica típica das cidades árabes, com seus mercados, as pequenas lojas, as vozes e cheiros, com a de uma cidade que permitia luxo e uma vida noturna agitada, e um quê de Europa graças à influência da presença francesa no Líbano do final da Primeira Guerra - resultado da divisão do Império Otomano - até 1946. Situação que atraía famosos e endinheirados a suas marinas, praias e casas noturnas, principalmente após a década de 1960.

Em 1975, começou a destruição. Foram 15 anos de guerra civil, em que o Centro da cidade virou terra sem lei e sem dono. Ligados a partidos políticos (e, consequentemente, à religião), libaneses empunharam armas e lutaram um contra o outro. Utilizaram o alto de grandes edifícios como lugares estratégicos para atacar o inimigo. Utilizaram grandes edifícios como arma: destruir um edifício culturalmente importante para seu inimigo é derrotá-lo de alguma forma. Na linha que separava o lado leste do oeste, o cristão do muçulmano, edifícios se esvaziaram, as ruas não recebiam mais pessoas, o burburinho calou-se para dar voz às armas. O Centro da cidade virou campo de batalha.

Em 1990, a guerra civil acabou. Foram 15 anos sem um souk (o mercado árabe), sem poder cruzar ao outro lado da cidade, sem usufruir de um espaço urbano. De volta à paz, duas questões se levantam: o que fazer com um espaço tão atraente e tão destruído? E qual é a noção de espaço público para quem nunca pôde transitar pelos espaços comuns de sua cidade? Para responder a essas duas perguntas é preciso voltar um pouco ao tempo. Afinal, Beirute viu seus traçados se transformarem muitas vezes, e sua história começa um tanto mais longe: a cidade fez parte da Fenícia em 2500 a.C., e escavações no Centro de Beirute encontraram uma porta com escritas cananeias de 1900 a.C. e remanescentes dos antigos canais fenícios. Os romanos também estiveram aqui, os árabes tomaram as terras e, depois, foi a vez dos otomanos, para então chegarem os franceses. Escavações mostram cidades construídas em cima de outras cidades - incluindo edificações típicas do conquistador, como aquedutos romanos. E tantas diferentes culturas trouxeram outras tantas diferentes crenças.

Reprodução de Beiruts memory, de Ayman Trawi
Uma das ruas que levava ao antigo souk, logo após a guerra civil
Foto: Bianca Antunes
A Place d'Étoile, da qual saem, radialmente, largas ruas. É um registro da presença francesa no Líbano na primeira metade do século 20, quando planejadores urbanos impuseram um modelo urbano em cima do desenho medieval da cidade. O desenho e os edifícios dessa parte da cidade foram restaurados pela Solidere, após a guerra civil

A última grande reconstrução de Beirute tinha sido sob o mandato francês, quando os planejadores urbanos impuseram um modelo baseado nas belas-artes e na forma urbana de Haussmann, de largos bulevares cruzando praças monumentais em cima do desenho medieval da cidade. "Ao contrário de outros exemplos de planejamento colonial na região, onde se manteve intacto o centro antigo e se construiu um novo adjacente, em Beirute esse não foi o modelo planejado", contam Ludovic Toffel e Alain Vimercati em The French mandate, ao falarem sobre a destruição de uma grelha medieval para a implantação do planejamento do colonizador. É dessa época a criação da Place d'Étoile, uma praça da qual saem, radialmente, largas ruas no Centro da cidade - o que, claro, incluiu demolições. Se a história das cidades é um círculo contínuo de destruição e reconstrução, Beirute é um exemplar precioso desse movimento.

De volta a 1990, Beirute se via destruída. Mas, por um lado, havia uma chance: reorganizar o Centro para sua população, sem restrições. Pensar integração, mobilidade, densidade, uso misto, espaços públicos, cultura, religião e o passado de guerras e conquistas. Unir o respeito à história e às diferentes culturas - o Líbano possui 18 comunidades religiosas, que passaram a evocar um passado e a chamar por suas rotas próprias - com um bom planejamento urbano. Rem Koolhaas, em uma palestra em São Paulo, levantou essa questão: lembrou da sorte que teve por começar sua carreira em uma Roterdã devastada pela guerra. O lado positivo: havia oportunidade de trabalho, poucos recursos e muita criatividade.

Mas em Beirute a estrutura política e as prioridades são outras. "Não se esqueça de que Koolhaas estudava e trabalhava em uma Europa em que havia uma política forte e leis que regulavam e permitiam que ideias fossem implementadas. No Líbano, as políticas e os mecanismos para criar leis e regulamentações são muito fracos. Alguns urbanistas contribuíram com ideias alternativas para a região de downtown, mas a visão de Rafic Hariri prevaleceu, o que significa a visão da Solidere", compara e explica Fadi Shayya, planejador urbano e editor do livro At the edge of the city.

Rafic Hariri era o então primeiro-ministro do Líbano, e a Solidere, a empresa privada (uma joint-stock company) criada em 1991 para a reconstrução da downtown, como é conhecida a região central de Beirute. Formam a Solidere ex-proprietários de lotes na região central - cerca de 4.700 de donos de pequenos espaços no souk, o antigo mercado árabe, que brigaram por uma quantia na empresa. O maior acionista era o próprio Rafic Hariri.

O governo deu carta branca para que a Solidere projetasse um novo centro. "Criatividade não é domínio exclusivo do arquiteto ou do urbanista. É, primeiramente, o domínio do poder. No caso da reconstrução de Beirute, o poder é uma combinação de capital, eficiência do setor privado e falta de alternativas realísticas; no caso da reconstrução da Europa, poder é uma combinação de patrocínio estatal, capital e uma política visionária com projetos de reconstrução", compara Fadi.

No início dos planos - e ainda hoje - não faltaram polêmicas em torno dos projetos, vindas de ex-proprietários de casas ou comércio em downtown, historiadores, planejadores urbanos e arquitetos. Houve algumas boas consequências, com revisões e seleção de edifícios para serem preservados. Mas a maioria das consultas públicas foi limitada por palestras de arquitetos internacionais e exibição dos esquemas de design já decididos pela Solidere.

 

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