Como cobrar o valor do projeto | aU - Arquitetura e Urbanismo

Artigo

Exercício profissional

Como cobrar o valor do projeto

Por Mônica Tremonti Belini
Edição 232 - Julho/2013

Dentre as diversas opções para a definição do valor de um projeto de arquitetura, há muita confusão sobre como escolher a metodologia de cálculo e, em um segundo momento, como executá-la. Cálculos malfeitos podem causar prejuízos, se subestimados, ou levar à perda do contrato, quando acima da expectativa do cliente. "Não é barato fazer um projeto, não pode ser uma coisa barata. É nessa hora que começam os grandes problemas. Tem escritórios pagando para trabalhar", aponta Eduardo Nardelli, presidente da AsBEA e sócio da Artifício Arquitetura e Planejamento.

PRÁTICA DE MERCADO
Segundo censo realizado pelo CAU/BR, o método de cobrança mais adotado é o por metro quadrado de construção (35,70% das respostas). "Principalmente entre os jovens arquitetos e em projetos de programas mais simples, como residências e pequenos prédios comerciais", comenta o presidente da entidade, Haroldo Pinheiro.

Logo a seguir, entra a tabela de honorários do IAB (22,18%). Isso porque, para projetos com programas mais complexos ou extensos, haveria a necessidade de um cálculo mais aprofundado, o que é possível com a tabela, que trabalha com percentuais sobre o custo da obra e categorias de edificações.

Ainda há 6,41% que cobram sobre a porcentagem do Custo Unitário Básico da Construção Civil (CUB) e 14,71% que usam outra metodologia - o que pode indicar métodos próprios ou uma combinação de métodos. No censo, os 21% restantes afirmaram não trabalhar com projetos.

PERCENTUAL
É a metodologia mais usada internacionalmente e tradicionalmente recomendada pelo IAB. Consiste em estabelecer um valor percentual sobre o custo estimado da obra, o qual aumenta de acordo com o grau de dificuldade do projeto e diminui de acordo com o seu porte e número de repetições. "Os percentuais incidentes sobre o valor das obras variam, portanto, entre 2% e 15%, dependendo do tipo de obra e serviço", explica Odilo Almeida Filho, presidente do IAB-CE.

HORA TRABALHADA
Há escritórios que tabulam o histórico das horas gastas e o custo da hora média. "Se eu sei que vou gastar mil horas, sendo ''x'' o valor de cada hora, multiplico os valores e chego ao preço", resume Marta Ardito, sócia proprietária da Agres Projetos e Construções. "Neste custo médio da hora estão incluídos depreciação de material, compra de equipamentos e uma margem de lucro, para podermos crescer e investir", explica.

O levantamento do custo deve ser aprimorado continuamente, e, para isso, organização é fundamental. "Temos um histórico de 30 anos de diversos projetos tabulados. E sempre levantamos o que gastamos em cada projeto; com isso, possuímos uma avaliação do custo da hora", conta Marta.

Quando se faz essa organização a cada projeto, o escritório também ganha no longo prazo, e é possível prever com cada vez mais precisão a quantidade necessária de horas por projeto e até mesmo saber o quanto se trabalha por mês e quanto custa manter o escritório.

MANUAL OFICIAL
Para escritórios que ainda não desenvolveram sua composição própria de custos, o manual do IAB, hoje chamado Manual de contratação, é uma ferramenta de grande ajuda: "Ele define a organização geral do trabalho, o parcelamento adequado para o pagamento da tarefa contratada e serve como referência para eventuais mal-entendidos e mesmo em ações na Justiça", explica Haroldo Pinheiro.

O manual promete ficar mais amigável com o lançamento de um software para auxiliar as contas. "O programa cruzará as informações de escopo, categoria de projetos e complexidade para otimizar e agilizar os cálculos de honorários", garante José Armênio, presidente do IAB-SP.

O Manual de contratação deverá ser aprovado pelo CAU/BR até julho de 2013 e imediatamente publicado. Depois, ainda no segundo semestre, o software deve ser concluído e divulgado.

TABELA COMO REFERÊNCIA
Entre tabelas institucionais e a fixação de um valor por metro quadrado ou por porcentagem do valor da obra, os escritórios podem desenvolver sua própria metodologia, mesclando os métodos. Qualquer que seja o método escolhido, é recomendável checar se os valores não estão discrepantes dos praticados nas tabelas institucionais.

"Calculo os custos, incluo encargos sociais e a margem de lucro, e assim componho o preço. Verifico com as tabelas da AsBEA e do IAB eventuais divergências e quanto o mercado está disposto a pagar", explica Eduardo Nardelli. Chega-se ao valor dos custos contabilizando os custos fixos (aluguel, contas, impostos, despesas como água, luz, telefone, salários dos funcionários administrativos) e os custos variáveis. A equipe técnica, sugere o arquiteto, pode ser montada apenas para determinado projeto, como um job, entrando assim nos custos variáveis.

Francisco Spadoni, da Spadoni AA, compartilha da ideia de criar seu próprio método. "As tabelas do IAB e da AsBEA, para mim, não refletem as condições objetivas da composição do custo. Por isso, monto uma referência própria, com base nos valores praticados em obras públicas e em concursos de arquitetura. Para checar, uso alguns parâmetros internacionais, como o Royal Institute of British Architects (Riba), que orienta a compor contratos", resume o arquiteto.

COMPONDO OS CUSTOS
Para chegar em uma composição de custos, é preciso realizar uma avaliação dos gastos e uma análise do mercado. Tal tarefa, porém, não é uma somatória simples. A estrutura do escritório, o número de funcionários e a qualificação dos profissionais devem ser considerados na tabulação de valores. "O número de arquitetos juniores, de estagiários, seniores, tudo isso compõe o custo do projeto", diz Eduardo. Francisco Spadoni complementa: "O investimento feito na carreira e os anos de experiência são relevantes e precisam ser ponderados".

NA OBRA
As visitas técnicas à obra são combinadas com o cliente, e sua frequência varia de acordo com a fase da obra, podendo ocorrer desde três vezes por semana até uma vez por mês. A cobrança pode ser feita por visita ou por hora técnica. Sobre a hora técnica se adicionam custos diretos, como a viagem e hospedagem, se for o caso. Em escritórios médios, a hora técnica varia entre 250 e 300 reais.