No Centro de São Paulo, conjunto abre a quadra, formando praças e conexões, no projeto do Centro Paula Souza, de Francisco Spadoni e Pedro Taddei Neto | aU - Arquitetura e Urbanismo

Edifícios

Pedro Taddei Neto e Francisco Spadoni . 2009/2013

No Centro de São Paulo, conjunto abre a quadra, formando praças e conexões, no projeto do Centro Paula Souza, de Francisco Spadoni e Pedro Taddei Neto

Por Eride Moura Fotos Leonardo Finotti
Edição 235 - Outubro/2013

Organizado em torno de generoso espaço interior, com pátio e jardim abertos visualmente para o entorno, o Centro Paula Souza destaca-se na densa paisagem urbana do Centro de São Paulo

Situado entre os bairros de Santa Ifigênia e Luz, em meio à conhecida cracolândia paulistana, o recém-inaugurado Centro Paula Souza ocupa uma quadra de 6.870 m², delimitada pelas ruas Aurora, Andradas, Timbiras e General Couto de Magalhães. Na rua Timbiras, o Centro tem como vizinho o grande prédio circular de concreto aparente, da garagem da Polícia Civil projetada nos anos de 1970 pelo arquiteto Benno Perelmutter. E, na rua dos Andradas, a nova edificação reforça a perspectiva, enquadrando em uma das extremidades o Edifício Montreal, projetado por Oscar Niemeyer no início dos anos de 1950.

A quadra foi adquirida pelo Estado por uma operação urbana, para ser utilizada por um órgão institucional como parte dos esforços de recuperação e revitalização daquela área degradada da cidade. A entidade escolhida para ocupar o local foi o Centro Paula Souza, responsável pelo ensino técnico e tecnológico de níveis médio (Etecs) e superior (Fatecs) em São Paulo e que, até então, ocupava o antigo edifício da Escola Politécnica, na Luz, projetado por Ramos de Azevedo. Além da sede própria destinada à administração do Centro, foi construída uma nova unidade da Etec. O projeto, solicitado pelo governo paulista à Fundação para a Pesquisa Ambiental - Fupam, integrada por professores da FAUUSP, foi desenvolvido pelos arquitetos e professores Pedro Taddei, que já havia projetado escolas para o cliente, e Francisco Spadoni. Outros professores ligados à Fupam foram encarregados dos projetos complementares, como Rosaria Ono e João Baring. O programa, constituído por dois temas extensos e distintos, resultou em uma área construída de 26.922 m². Do terreno original, apenas um edifício comercial preexistente, de sete pavimentos, pôde ser incorporado ao conjunto, por apresentar escala e planta adaptáveis ao projeto.

Os arquitetos explicam que, desde o início, o partido imaginado foi o de criar um grande vazio central e permeável, com as construções organizadas ao seu redor e sobre ele. Segundo Francisco Spadoni, conquistar um vazio naquela área - uma das mais densas da cidade - seria fundamental para o desejado processo de requalificação urbana. "Observando o corte, vemos que os edifícios parecem flutuar sobre o vazio de uma praça no nível térreo, com um jardim que nasce no subsolo. Nosso raciocínio foi criar um chão contínuo com a rua, liberando a quadra e abrindo-a para as calçadas, invertendo a lógica fundiária da região, definida por lotes fechados", explica Spadoni. Para o arquiteto, a possibilidade de trabalhar com um programa de edifícios públicos, inclusive uma escola, favoreceu a inversão desses valores urbanos, e agregou a essa porção da cidade um novo fato urbano, que é a quadra permeável visualmente.

Como os órgãos do Patrimônio defendiam a manutenção das construções alinhadas às calçadas, o projeto procurou atender a essas determinações de um modo híbrido, com parte das construções desenhando o alinhamento, e parte permitindo que o interior fosse visível. As coberturas de telhas metálicas zipadas e perfuradas, elementos arquitetônicos importantes do conjunto, foram utilizadas para consolidar os volumes no alto, a 30 m (altura definida pela Operação Urbana para as construções na área), satisfazendo a exigência de fechar a quadra. O fechamento se dá exatamente nas duas faces onde o projeto abre-se como extensão da calçada. O uso das telhas metálicas perfuradas de acordo com desenho dos arquitetos foi uma solução simples e engenhosa, que permitiu que a cobertura funcionasse como elemento de sombreamento, protegendo o uso da praça, e pulverizasse as águas das chuvas, impedindo sua retenção. Com isso, o projeto eliminou quase todos os sistemas de captação de águas de chuva, usados apenas na quadra poliesportiva e no edifício preexistente.

O novo programa duplo, naturalmente complexo, fez com que os arquitetos definissem estratégias de uso para cada tema, e até quando um deveria contaminar o outro. Na prática, o prédio administrativo e as instalações didáticas da Etec funcionam independentemente, unidos apenas por uma passarela, mas mantêm funções em blocos comuns. O volume do edifício da sede administrativa foi projetado como uma grande lâmina isolada de 70 m de comprimento, com balanços em todas as faces, alinhada à rua dos Andradas, onde tem entrada independente. Sobre o subsolo de serviços, está a caixa de vidro do térreo, único pavimento de uso público, que abriga recepção e um mezanino destinado ao museu, onde estão o acervo histórico do Centro Paula Souza e os achados arqueológicos encontrados durante a escavação feita na área (fundações, faianças, objetos diversos e ferramentas do século 19). Seus cinco pavimentos são ocupados pelos escritórios da administração e, na cobertura, foi implantado um grande restaurante com varandas laterais.

O prédio didático organizado em dois blocos distintos, um deles sobre a praça, alinhava seus pilotis a um extenso mezanino de formato irregular. Entre os dois vãos foi criado um átrio, para o qual se abrem as salas de aula e laboratórios dos cinco pisos do edifício. Todos os pavimentos dispõem de passarelas de circulação que contornam o perímetro externo, organizando a circulação e permitindo vistas para a cidade. O mezanino, protegido pela projeção dos volumes, tem formato irregular e propicia igualmente visuais para todo o conjunto e para o entorno. Seus espaços são ocupados por ambientes privilegiados de estudo e de estar, com salas para laboratórios de informática e de idiomas, e biblioteca.

A área de convivência e lazer, no térreo, protegida pelo mezanino, é constituída por cantina, refeitório e grêmio, e está integrada à praça central de 3.342 m², com jardins que nascem no subsolo. Complementa os espaços da Etec, um bloco maciço de dois pavimentos que se conecta, por passarela, ao edifício da administração. Além de concentrar a circulação vertical, o volume é ocupado por dois auditórios e uma quadra poliesportiva suspensa, ancorada por dois grandes pilares de 30 m de altura. Redesenhado e recuperado, o prédio preexistente foi absorvido pelo conjunto, e está colado ao volume dos auditórios. Nele funcionam o setor administrativo da Etec e o centro de apoio aos professores do Centro Paula Souza de todo o Estado.

O acesso à Etec é feito no nível térreo, pelo foyer voltado para a rua General Couto de Magalhães, em área sob pilotis e sob a projeção do mezanino. A área de convivência e lazer, no térreo, protegida pelo mezanino, é constituída por cantina, refeitório e grêmio, e está integrada à praça central de 3.342 m², com jardins que nascem no subsolo. Como o lençol freático é muito alto na região, o plantio das árvores, feito no subsolo, exigiu relevos de terra para abrigar as raízes. As copas sobem pela abertura da laje térrea, e chegam à altura dos pavilhões, compondo um cenário verde para o espaço. Ainda devido à altura do lençol freático, o conjunto recebeu apenas um nível de subsolo, com variadas funções: sob o edifício-sede, serviços para os funcionários do Centro; sob a escola, os programas técnicos; e sob toda a área da praça, os estacionamentos.

O conjunto foi estruturado, prioritariamente, em concreto. Inicialmente, a estrutura de concreto tinha sido concebida em lajes planas protendidas mas, para a redução do peso próprio da construção, foi alterada para lajes em grelha. A estrutura de concreto aparente aproxima os vários edifícios do conjunto e determina a linguagem geral do conjunto, sempre intercalado por grandes painéis de vidro, protegidos por brises e telas de tipos e formas variados. A única cor que aparece é o vermelho dos painéis de laminado melamínico, usados em vários pontos do embasamento. A estrutura metálica aparece nas coberturas e no mezanino do museu, mas o metal foi usado também na execução da passarela que une os dois volumes e nas grades de proteção das passarelas de circulação da Etec.

Os brises e telas, elementos arquitetônicos de destaque no projeto e fundamentais no controle da luz solar direta dos edifícios, tiveram seus desempenhos devidamente calculados. No conjunto foram utilizados três sistemas de brises: em formato de lâminas, nas salas de aula; tubulares perfurados, no contorno da biblioteca, no centro do professorado, e envolvendo a quadra poliesportiva, de maneira a homogeneizar o conjunto (ambos da Hunter Douglas); e ainda os brises de tela tensionada, de aço inox, fabricados pela alemã GKD, que envelopam o edifício administrativo e funcionam como cortina, protegendo da luz solar.

CENTRAL CONNECTIONS
The recently-inaugurated Paula Souza Center occupies a 6,870 m² block in São Paulo downtown center. The block was acquired by the State and the chosen to occupy the venue was the Paula Souza Center, which is responsible for technical and technological middle-school (Etecs) and higher-school (Fatecs) education. The project, commissioned by the São Paulo State government to Fupam (Foundation for Architectural and Environment Research), staffed by FAUUSP professors, was developed by architects Pedro Taddei and Francisco Spadoni. The outcome of the program, constituted by two distinct, extensive themes, was a constructed area of 26,922 m². From the original ground area, only a pre-existing, seven-story commercial building was able to be incorporated to the set, as it presented a scale and floor plan that were adaptable to the project. From the start, the imagined approach was to create a large, central, open empty set, with constructions organized all around and above. According to Francisco Spadoni, gaining an empty set in that area - one of the densest in the city -, would be fundamental for the desired process of urban requalification. Since the Heritage organizations would defend the maintenance of constructions lining the sidewalks, the project sought to attend these determinations in a hybrid mode, with part of these constructions designing the alignment, and part allowing the interior to be visible. The roofing spaces of perforated and zip-lock metal sheeting, important architectonic elements of the set, were used to consolidate the upper volumes.