Arquitetura hospitalar: projetos e detalhes | aU - Arquitetura e Urbanismo

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Como especificar

Arquitetura hospitalar: projetos e detalhes

Por Maryana Giribola
Edição 247 - Outubro/2014

A arquitetura hospitalar tem ganhado um novo foco. Os projetos mais recentes concebem espaços que, além de funcionais, também contribuem para a recuperação dos pacientes. Na prática, ambientes clínicos e assépticos vêm ganhado um ar mais acolhedor, com materiais de acabamento, mobiliários e cores que fogem, na medida do possível, do tradicional padrão hospitalar.

O emprego das fachadas unitizadas em peles de vidro é um exemplo de tendência que tem ganhado força na área. Segundo Roberto Aflalo Filho, sócio-diretor da Aflalo/Gasperini Arquitetos, os hospitais vêm acompanhando a evolução dos demais edifícios comerciais no sentido de se tornarem mais sustentáveis. "É um material que se tornou razoavelmente acessível com custos cada vez menores. Proporcionam eficiência energética para o interior das edificações, além de contarem com fácil manutenção e boa durabilidade", afirma o arquiteto.

Para atender a essa nova demanda, o primeiro passo é entender o perfil do equipamento de saúde que está sendo projetado. "Essas especificidades são importantes de serem equacionadas no início do projeto, porque geram uma série de soluções peculiares com relação a assuntos operacionais, a custos de construção, de instalação de equipamentos e de gestão do equipamento de saúde", conta Adriana Levisky, arquiteta e urbanista titular do escritório Levisky Arquitetos Estratégia Urbana.

Os cuidados devem começar na escolha dos terrenos. Siegbert Zanettini, arquiteto e urbanista reconhecido e premiado nacionalmente pela contribuição de seu escritório na área hospitalar, alerta que "o projeto tem de receber as influências e também contribuir para o local onde ele se implanta em todos os aspectos". Em projetos de implantação mais complexos, é preciso inclusive elaborar planos diretores a fim de zonear corretamente as áreas do complexo.

Em projetos de hospitais, as áreas de fluxo internas e externas merecem atenção especial. O principal cuidado nessa fase é descentralizar a área de atendimento geral, onde o fluxo de pessoas é maior, das demais áreas como consultórios, pediatria e alas específicas. Elevadores, corredores e demais acessos também merecem planejamento cuidadoso. "Quando o projeto começa com uma definição de programa clara, as dificuldades na execução não fogem ao comum", aconselha Adriana.

Outra particularidade da arquitetura hospitalar são os aspectos de flexibilidade. Hospitais têm plantas que se atualizam numa agilidade muito grande. E as soluções de fachadas e de estruturas devem ser pensadas para que a edificação proposta não fique engessada. Por isso, é importante adotar soluções que permitam a alteração de layout, como divisórias internas de gesso acartonado e corredores, portas e elevadores com áreas mínimas de circulação.

As instalações também são um ponto crítico nos projetos de hospitais. "Normalmente a solução é embutir, é o que acontece com a maioria dos hospitais. Mas a melhor prática é organizá-las em armários, com codificações com selos e cores. Isso facilita manutenção, conservação e durabilidade desses sistemas", aconselha Zanettini.

Para atender a todas essas premissas e evitar problemas durante a execução desses empreendimentos, a compatibilização dos projetos é imprescindível. "Nesse sentido, o advento do Building Information Modeling (BIM) vem beneficiando a arquitetura hospitalar. É possível, pelos sistemas de detecção de problemas do software, antecipar incompatibilidades que só seriam notadas na fase de execução", explica Roberto Aflalo.

Além das normas e portarias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) peculiares a cada ambiente hospitalar, como a portaria 453 da Anvisa para instalação de raios X, o projeto arquitetônico desses hospitais devem seguir os requisitos da RDC 50/02, também da Anvisa. Esta resolução dispõe sobre o regulamento técnico para planejamento, programação, elaboração e avaliação de projetos físicos de estabelecimentos assistenciais de saúde.

MATERIAIS FUNCIONAIS
A especificação dos materiais de revestimento em ambientes hospitalares tem de levar em conta as necessidades mínimas de funcionamento de cada ambiente. "De maneira geral, todas as áreas requerem soluções de fácil manutenção e limpeza como pré-requisito", explica Adriana. Nas áreas de maior circulação, como em salas de espera e ambientes de descompressão e café, é possível trabalhar com os materiais de maneira mais flexível do ponto de vista dos cuidados hospitalares.

Já nas áreas hospitalares, os cuidados dependem basicamente do uso e da intensidade de movimentação de pessoas e equipamentos. Onde os fluxos são mais intensos, com trânsito constante de equipamentos pesados, pisos mais frágeis terão curta durabilidade. "Para a circulação de serviços, costumo especificar granito, porcelanato ou cerâmica, dependendo do perfil do hospital", conta Zanettini. Em ambientes de permanência curta, como dormitórios e áreas de internação, é possível empregar pisos vinílicos, não tão resistentes quanto às pedras, mas que funcionam bem para o tipo de uso.

Outro cuidado na escolha dos materiais é com relação àqueles que serão empregados nas áreas que emitem fontes de radiação, como em salas de raios X. "O posicionamento desses equipamentos acaba determinando uma série de decisões de projetos", explica Zanettini. Basicamente, a radiação desses ambientes não pode ser extrapolada nos demais locais de permanência. Portanto, além de especificar materiais que contenham essa radiação dentro da sala, é importante planejar, ainda em fase de projeto, que nenhum veículo em movimento (como carros e elevadores) ou algum paciente com marca-passo possa passar por essa área de radiação.

Especialmente nessas áreas, os fechamentos laterais, pisos e forros devem ser devidamente tratados. Entre os materiais indicados para fazer essa proteção está a argamassa baritada: um composto de areia, cimento e aglomerante destinado a regularizar ou preencher superfícies que, por contar como agregado um minério de alta densidade - chamado barita ou sulfato de bário hidratado (BaSO4) -, é indicado para a proteção radiológica. Em divisórias feitas com drywall, é possível aplicar a barita nos vazios entre as duas chapas de gesso acartonado. Para conter a radiação nos pisos, normalmente se usa uma malha de aterramento formada por fitas de cobre sobre o revestimento.

Fachada eficiente
Na Unidade Avançada Perdizes do Hospital Albert Einstein, localizada na zona Oeste de São Paulo, as fachadas com vidros insulados serigrafados resolveram a necessidade de iluminação natural e controle do aquecimento solar no interior do prédio. A solução de baixo custo resultou em um sombreamento que não depende de persiana e propicia redução no consumo de ar-condicionado, além de criar ambientes mais intimistas para as áreas de permanência. O prédio, que conta com acessos separados para funcionários e pacientes, contempla ainda áreas de descompressão ao ar livre para os funcionários e sistema de automação para controle do ar-condicionado.

FICHA TÉCNICA
ARQUITETURA
Levisky Arquitetos | Estratégia Urbana
COAUTORIA E LAYOUT HOSPITALAR Kahn do Brasil
ÁREA CONSTRUÍDA 20 mil m²
PROJETO ESTRUTURAL ETCPL e Cia de Projetos
INSTALAÇÕES Grau Engenharia e Selten Engenharia
AR-CONDICIONADO Grau Engenharia e Enthal - Engenharia de Tratamento de Controle do Ar
ACÚSTICA Harmonia Acústica
PROJETO DE ESQUADRIAS QMD Consultoria
PISO ELEVADO Bausystem
REVESTIMENTO VINÍLICO DE PAREDE Bravargen
ESTRUTURA DE CONCRETO Construções GBN
EQUIPAMENTOS DE AUTOMAÇÃO Dorma
ELÉTRICA E HIDRÁULICA Selten
AR-CONDICIONADO Enthal
PISO VINÍLICO Forbo
ESTRUTURA METÁLICA Meta Steel
CAIXILHOS Técnica
ELEVADORES ThyssenKrupp
DIVISÓRIAS DE GESSO Wallplac
DATA DA CONCLUSÃO DA OBRA 2010

Intervenção estudada
Realizar uma intervenção em um hospital requer planejamento e adoção de materiais que interfiram o mínimo possível no funcionamento das atividades. A ampliação do Hospital Baía Sul, em Florianópolis, abrangeu os seis pavimentos de um dos blocos do complexo, que abrigava uma clínica de diagnóstico por imagem e uma unidade hospitalar. Foram acrescentados três novos pavimentos à edificação original, totalizando nove. Nesse processo, a adoção de materiais e tecnologias não convencionais solucionou as dificuldades de acesso, a sobreposição da obra às instalações em funcionamento e a ausência de área livre para expansão. Foram empregadas estruturas metálicas, fechamentos em light steel framing, lajes em steel deck e paredes internas de drywall.

FICHA TÉCNICA
ARQUITETURA
Studio Domo
ÁREA CONSTRUÍDA 6 mil m²
CLIMATIZAÇÃO E AR-CONDICIONADO Rocha Engenharia
CONTROLE E AUTOMAÇÃO Allconect
CAIXILHOS Aluserv Alumínios
FUNDAÇÃO Labanowski & Moore Engenharia
INSTALAÇÕES ELÉTRICAS Santa Rita
INSTALAÇÕES HIDRÁULICAS Eloir Gugel
PAISAGISMO Jardins e Afins
INFRAESTRUTURA Labanowski & Moore
AÇO INOX Metanox
ESQUADRIAS EXTERNAS E VIDROS Aluserv Alumínio
PISO VINÍLICO Dwall e Forbo
CONCRETO Supermix
DRYWALL Artplac
ESTRUTURA METÁLICA CLW Estruturas Metálicas
ELEVADORES Thyssenkroupp
DATA DA CONCLUSÃO DA OBRA 2010

Preservar o entorno
A contribuição para o entorno foi uma das premissas seguidas no Complexo Hospitalar Mater Dei, em Belo Horizonte. Toda a mata que envolve o terreno foi preservada e as entradas foram separadas uma das outras em níveis, respeitando a inclinação do terreno. Um desafio no desenvolvimento do projeto foi com relação às vagas da garagem. Para projetar um subsolo para 850 vagas, os custos com a fundação chegariam a 150 milhões de reais, o que era impeditivo para o projeto. Para revolver o problema, as garagens ficaram localizadas no meio do prédio, entre as atividades hospitalares nos primeiros andares e os leitos nos pisos superiores. A fachada que veta a área de estacionamento conta com vazios que permitem a circulação de ar e os materiais escolhidos foram painéis modulares estruturados com perfis de alumínio e vidros de alta eficiência energética em sistema unitizado.

FICHA TÉCNICA
ARQUITETURA
Zanettini Arquitetura, Planejamento e Consultoria
ÁREA CONSTRUÍDA 66.493,59 m²
FUNDAÇÕES MG&A Consultores de Solos S/S (parede-diafragma) e Rubens Morato (blocos
de fundação)
INSTALAÇÕES DE ELÉTRICA, HIDRÁULICA, AR-CONDICIONADO E LUMINOTÉCNICA MHA Engenharia
ESTRUTURA METÁLICA Codeme Engenharia
ESTRUTURA DE CONCRETO Rubens Morato Projetos e Consultoria Técnica
DATA DA CONCLUSÃO DA OBRA 2014

FORNECEDORES
GESSO ACARTONADO
Knauf
VIDROS INTERNOS E PERSIANAS Glassec, Cebrace, Eurocentro
GRANITO Phenix Granitos
PISO ELEVADO INTERNO Inova
VINÍLICO HOMOGÊNEO Tarkett
ALUMÍNIO COMPOSTO (ACM) Projeto Alumínio

Iluminação em foco
A mudança de uso foi o principal desafio de concepção do hospital Moriah, em São Paulo. Anteriormente, o edifício abrigava uma emissora de televisão. A necessidade de transformar a edificação existente para atender aos requisitos de um edifício contemporâneo levou à adoção de tecnologias construtivas, funcionais e de sistemas com soluções ecoeficientes e sustentáveis, como a orientação das membranas de vidro que compõem a fachada do prédio - a solução foi estudada para permitir que a luz solar iluminasse ambientes como o atrium, o restaurante e a administração do hospital. O sistema de ferragens tipo spider de aço inox é fixado ao vidro para absorver as dilatações da estrutura sem comprometer as vedações e o desempenho estrutural. Como o projeto fica nas proximidades do aeroporto de Congonhas, também foi preciso pensar em uma solução que atenuasse os ruídos para o interior, como os vidros de 16 mm de espessura complementados com quatro películas de polivinil butiral (PVB).

FICHA TÉCNICA
ARQUITETURA
Zanettini Arquitetura, Planejamento e Consultoria
ÁREA CONSTRUÍDA 9.535,75 m²
ESTRUTURA METÁLICA E DE CONCRETO HJ Projetos
FUNDAÇÕES Apoio Assessoria e Projetos de Fundações
INSTALAÇÕES Engenheiros Associados Projeto e Consultoria (Eapec)
CLIMATIZAÇÃO Unitempo Engenharia
LUMINOTÉCNICA Godoy Luminotécnica
ACÚSTICA Sresnewsky Engenharia
DIVISÓRIAS INTERNAS Abatex Divisórias
PISO ELEVADO Pisoag e Tate
PORCELANATOS Portobello
PISO VINÍLICO Forbo
IMPERMEABILIZAÇÃO Viapol
ESQUADRIAS DE ALUMÍNIO ERG's
VIDROS/SPIDER Speed Temper
FORROS E DRYWALL Grupo Knauf
FERRAGENS E MOLAS Dorma
DATA DA CONCLUSÃO DA OBRA 2014