Ricardo Bofill: a arquitetura de autor no século 20 | aU - Arquitetura e Urbanismo

aU Educação

Documento

Ricardo Bofill: a arquitetura de autor no século 20

POR LUIZ FLORENCE
Edição 251 - Fevereiro/2015

O espanhol Ricardo Bofill é um dos ícones da arquitetura pós-moderna. Por mais verdadeira que seja esta frase, ao dizer isso também corremos o risco de reduzi-lo a um estereótipo, como acontece com arquitetos como Aldo Rossi, James Stirling, Peter Eisenman ou Robert Venturi.

Vale a pena analisar a obra de Ricardo Bofill, repleta de edifícios icônicos não apenas representativos do pós-moderno mas também outras importantes referências para a prática contemporânea, da qual o arquiteto participa de maneira prolífica até hoje. Podemos extrair de seus projetos as sutilezas de um vaidoso arquiteto e conceituador de arquitetura, famoso por investigar estilo e elegância clássica, interessado nos últimos movimentos da arquitetura europeia, misturando com raízes ibéricas e críticas ao suposto simplismo da industrialização, chegando a uma conciliação com a estética da tecnologia em seus últimos projetos, reforçando o caráter camaleônico de sua obra.

Warren A. James atribuiu o termo "classicismo moderno" para definir a obra de Ricardo Bofill durante a década de 1980. Para qualquer visitador educado na arquitetura, percebe-se a veracidade desse termo simplifi- cado. Sua verve historicista foi mais presente durante a década de 1970 e 1980, quando notamos um forte contraponto à estética da industrialização nos grands ensambles Franceses, ou nos siedlungen Alemães, em projetos como o Les Espaces D'Abraxas (Paris, 1978/1982), embebido na distribuição axial do espaço e em elementos de fachada típicos da école des beaux arts da virada do século. Ao contrário de outros colegas pós-modernos como Michael Graves ou James Stirling, Bofill sempre foi mais rigoroso ao adotar estilos de época, e não fazia as mesmas experimentações radicais de seus contemporâneos.

Uma das facetas mais interessantes da crítica dos arquitetos e pensadores pós-modernos de arquitetura ao movimento anterior, ensinado e praticado por seus professores, foi a promessa não cumprida de filiação do modernismo às ciências da industrialização, da chamada "primeira era da máquina". Matemática, física, geometria, mecânica dos fluidos, as ditas ciências duras, como chamadas pelos historiadores Jean-Louis Cohen, Anthony Vidler ou Gwendolyn Wright, foram o alicerce de uma ideologia que pregava por construções mais sadias, ensolaradas, expurgadas dos malefícios do primeiro ciclo de industrialização.

Na segunda metade do século 20, com a revisão do ensino de arquitetura seguindo o modelo moderno, então hegemônico, não somente o ensino e a pesquisa de história de arquitetura retornam ao currículo, mas a arquitetura como disciplina estabelece relações mais claras com outras ciências, como a filosofia, a sociologia, a literatura, a biologia e a antropologia. Nesse panorama, Ricardo Bofill forma-se arquiteto na década de 1950 e monta seu escritório, o Taller de Arquitectura, formado não somente por arquitetos, mas também por filósofos, escritores e matemáticos.

Expostos quando crianças aos problemas filosóficos do racionalismo na Segunda Guerra Mundial, essa geração questiona a estética da linha de montagem na qual o modernismo se apoia

Ricardo Bofill faz parte, portanto, de uma geração mais sensível à tecnologia e mais crítica a seus exageros. Expostos quando crianças aos problemas filosóficos do racionalismo na Segunda Guerra Mundial, essa geração questiona a estética da linha de montagem na qual o modernismo se apoia. Seu projeto mais contundente dentro dessa atitude crítica é a readequação de uma antiga fábrica de cimento para abrigar o Taller de Arquitectura e sua residência própria, em outra ala da planta industrial (Barcelona, 1973/1975).

Como uma provocação à proposta do funcionalismo modernista, utilizar uma edificação outrora tida como a maior fábrica de cimento da Espanha como residência, não somente é uma drástica redução de escala, como também é um comentário discreto contra a noção de tábula rasa moderna. Sem adornos, e com uma parcimônia na aplicação de materiais refinados, apenas fazendo reparos simples às estruturas das chaminés e silos, Bofill aplicou um "retrofit retrô": uma obra que tardou mais de um ano no processo de demolição, um exercício fastidioso de construção e implementação de paisagismo, subtração e adições, que hoje podem ser lidas como datadas tanto quanto a construção original. Nota-se claramente, neste projeto, o comentário crítico ao funcionalismo moderno: espaços gigantescos utilizados como salas de reunião, salas de jantar e dormitórios.

Segundo Bofill, o arquiteto deve ser capaz de acessar não somente o espaço mas também o tempo, e deve ter a experiência das cidades em sua escala histórica, apoderandose de elementos de estilos e de experiências do passado

O salto de escala na produção do Taller de Arquitectura se deu pela tipologia habitacional, no deslocamento de produção da Espanha para a França, durante a década de 1970. Nas nouvelles villes nos arredores de Paris, Bofill e sua equipe desenvolveram projetos nos quais puderam testar o adensamento de volumes e tipologias construtivas de arquitetura em densidades e verticalidades inusitadas. No Barrio Gaudí (1964/1968), na cidade de Reus (terra natal de Antoni Gaudí), foi feito um ensaio cruzando referências das ruas elevadas dos conjuntos de Alison e Peter Smithson com a topografia gerada pelo conjunto residencial vernacular mediterrâneo; o Castelo de Kafka (1966/1968), em Barcelona, apresenta uma versão antecipada da notória megaestrutura residencial Montral 1968; La Muralla Roja (Alicante, 1973) apresenta experimentações que flertam com organizações espaciais dos Casbahs do Mediterrâneo Árabe, experimentações cromáticas de Barragán, e construções espaciais que remetem a propostas axiais de Louis Kahn e Charles Correa. Não podemos, é claro, nos furtar a indicar a clara referência à obra do próprio Gaudí nessa geração de projetos.

O caso mais eloquente é a topografia escavada e vertiginosa do conjunto Walden-7 (1970/1975), na Catalunha, que Ricardo Bofill chamou sem nenhuma modéstia de monumento habitado. No mesmo sítio em que se encontra a Fábrica, Walden 7 forma o conjunto caseiro de experiências que lançaram o arquiteto para a notoriedade. É um investimento pessoal - tanto financeiro quanto artístico: um campo de experimentações originado no Barrio Gaudí em Reus, um jogo entre monumentalidade do conjunto e intimidade da planta residencial, no qual o caráter extremamente autoral do arquiteto vem à tona: a vertiginosa curva interna do conjunto construído - uma verdadeira fortificação - amparado pelas cores vibrantes das superfícies, experimentadas também na Muralla Roja, fixou a imagem do conjunto habitacional na memória coletiva dos estudantes de arquitetura espanhóis, abrindo caminho para extravagâncias eloquentes como as de seus conterrâneos Mansilla y Turrón e Enric Mirales.


PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>