Debate: softwares de projeto | aU - Arquitetura e Urbanismo

Tecnologia

Softwares de projeto

Debate: softwares de projeto

POR: LUCIANA TAMAKI
Edição 259 - Outubro/2015
Divulgação: Contier Arquitetura

Mais do que mudar do papel para a máquina, os programas que operam em BIM trazem uma nova maneira de projetar

Dentre as diversas opções de softwares para desenvolvimento de projeto de arquitetura, alguns programas oferecem mais do que a representação bidimensional do projeto concebido. São os programas de modelagem com aplicação de Building Information Modeling (BIM), que fazem a construção virtual da edificação.

Os programas CAD, embora sejam uma plataforma digital, trabalham de forma semelhante aos desenhos em prancheta, concordam arquitetos como Gui Mattos e Luiz Augusto Contier. "Já a modelagem em BIM é uma tecnologia disruptiva. No BIM eu não desenho mais, eu construo", explica o arquiteto titular do Contier Arquitetura.

Uma das vantagens mais notáveis do uso da modelagem é o clash, ou cheque de interferências - um exemplo clássico é o de sistemas atravessando estruturas. Mas há outras particularidades. Se, por um lado, o desenho (em papel ou DWG) aceita tudo, a modelagem, que segue a lógica da construção real, alerta se o usuário tenta criar algo impossível na realidade, como uma janela no pilar ou uma porta fora de uma parede.

A construção virtual auxilia inclusive no processo criativo do arquiteto. "Instantaneamente posso ver se a ideia tem força ou não", diz Gui Mattos. Em seu escritório, para cada projeto são feitas algumas propostas iniciais, que são avaliadas pela equipe. "A arquitetura não tem protótipo, é do projeto para a realidade", enfatiza o arquiteto.

Outra característica da modelagem em BIM é que o modelo do projeto é um arquivo único, de onde geram-se os cortes, vistas, plantas, elevações e todos os detalhes construtivos. Qualquer componente que é colocado ou retirado do modelo será modificado em todos os arquivos, e isso evita erros e retrabalhos. Dessa forma, documentos como memorial descritivo ficam mais assertivos.

A extração de quantitativos é exata, pois é feita a partir do projeto real. Isso permite que o arquiteto possa oferecer o quantitativo do projeto, e não outro profissional, como o orçamentista. "A gente não fazia por medo de errar. Por outro lado, o orçamentista não é autor, ele faz deduções e tem taxas de tolerância. Como agora eu não erro, eu faço, porque a conta não é feita por mim, mas por um programa no qual inseri dados", resume Contier.

MIGRAÇÃO SEGURA
Para trabalhar com construção virtual, é fundamental a experiência em obra. No Contier Arquitetura, onde todos os projetos são feitos em BIM, não há mais a função de estagiário, e a idade média dos projetistas aumentou de 20 e poucos para 30 e poucos anos, ou seja, pessoas mais experientes que conhecem obra.

Dependendo do tamanho e da cultura do escritório, a migração para o BIM pode ser mais ou menos fácil. Em geral, escritórios maiores têm mais inércia, mais gente para investir na mudança de cultura, mas isso não deve impedir as atualizações. No Aflalo/Gasperini, por exemplo, houve um período de experimentação que durou quase dois anos, em que foram sendo criadas bibliotecas e rotinas com uma ou duas pessoas trabalhando com BIM. Após esse período, em 2009, iniciou-se o primeiro projeto totalmente em BIM, o edifício multiuso fl, de três torres na avenida Faria Lima, em São Paulo.

Já no escritório do Gui Mattos, a mudança foi feita em todos os projetos simultaneamente. Com o suporte de uma professora representante do software, os projetistas foram construindo seus projetos na plataforma sem deixar de avançar no projeto em 2D, até que, em determinado momento, o BIM alcançou o estágio atual e o 2D foi deixado para trás. "Em três meses, ninguém mais queria saber de CAD", conta. Processo semelhante ocorreu no escritório RK Arquitetura, no qual um funcionário mais treinado dá suporte a todo o escritório, que também conta com treinamentos constantes de atualização.

 

Divulgação: Contier Arquitetura
Projetado para a Faria Lima Prime Properties, o edifício B32, em São Paulo, tem 24 pavimentos e seis subsolos, totalizando 120 mil m² de área construída. O idealizador, Rafael Birmann, pediu ao Contier Arquitetura que o projeto do edifício fosse feito em BIM, com todas as informações para que fosse possível fazer o facilities management na mesma plataforma durante a vida útil do empreendimento. Constam, por exemplo, todas as instalações, mapa do entrepiso e entreforro, assim como cada um dos acabamentos utilizados, incluindo os quantitativos

 

Não só o processo de projeto, mas todas as áreas do escritório são afetadas com a migração. "Mexe com toda a cadeia, desde o atendimento da secretaria, o jurídico, suprimentos, coordenação, compatibilização", explica João Gaspar, arquiteto e diretor da escola AEC Pro. "Quando se altera o tipo de arquivo a receber, mexe-se no contrato e no requisito mínimo do seu parceiro."

Por mais que isso ainda não aconteça em totalidade, só há vantagens quando os diversos atuantes da indústria da construção adotam o modelo. "A maior delas é que o BIM não favorece uma ou outra entidade de trabalho, mas serve para todo mundo. Os projetos saem melhor compatibilizados, há menos chance de percalços na obra e o cliente tem um modelo com dados imputados para o gerenciamento do imóvel", explica Takuji Nakashima, arquiteto associado do Aflalo/Gasperini e coordenador de BIM.

"A cadeia sempre foi muito fragmentada, isso impede esses ganhos de produtividade. Para o ganho grande, precisamos conversar mais - projeto, obra, orçamentação", pondera Edison Lopes, sócio-diretor da Argis Arquitetura e Gestão Integrada.

 

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