Debate: revestimento com pedras naturais | aU - Arquitetura e Urbanismo

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Debate: revestimento com pedras naturais

POR: CAMILA BERTO TESCAROLLO
Edição 265 - Abril/2016
Sérgio Israel
 

Neste ambiente conjugado, para dar privacidade à cozinha, o arquiteto Maurício Karam projetou a instalação de uma grande chapa de mármore marrom imperial polida em ambos os lados. Suspensa com um fio de aço em seu entorno, que distribui o peso por toda a sua extensão, a pedra foi fixada com ganchos de ferro na laje e na extensão da viga linear

Com um vasto leque de rochas disponíveis no mercado, não pode faltar conhecimento na hora de especificar o revestimento ideal para o projeto. Para não errar, os arquitetos precisam conhecer as características de cada material e ponderar diversos fatores na hora de escolher o melhor tipo de pedra para o uso pretendido. A análise deve levar em conta o tipo de ambiente - interno ou externo, comercial ou residencial -, o tráfego de pessoas, os tipos de materiais que são manuseados no local e as características das rochas. "Como o cliente geralmente está preocupado com a estética e não conhece as diferenças técnicas entre as rochas, o arquiteto precisa fazer essa distinção e focar no desempenho para especificar o melhor produto", afirma a arquiteta Ana Cristina Tavares, da KTA Arquitetura.

Em termos gerais, as rochas podem ser classificadas como silicáticas (granitos), carbonáticas (mármores, travertinos e calcários), silicosas (quartzitos e cherts) e síltico-argilosas (ardósias). Segundo o geólogo e pesquisador do IPT Eduardo Quitete, a nomenclatura das pedras engloba uma grande variedade de matérias-primas, às vezes com características bastante diferentes mesmo pertencendo à mesma categoria.

"Em geral, o mármore reage ao ácido muriático e é menos resistente do que o granito", explica Eduardo. Por isso, em casos de ambientes com grande tráfego, é mais indicado trocar o mármore por um piso de granito ou quartzito. A especificação de mármore também deve ser mais cuidadosa em regiões litorâneas, por conta da ação da maresia e da areia.

Menos brilhantes, mas ainda assim resistentes, a ardósia e a pedra mineira são rochas que não pegam muito polimento, trazendo um aspecto mais rústico ao projeto. "Por serem extraídas diretamente em chapas para aplicar, o custo é menor", conta Eduardo. No caso da ardósia, Ana Carolina afirma que o material, justamente por ser mais barato, foi amplamente empregado em diversos ambientes, e ficou com a imagem de uma opção datada. Ela, no entanto, ressalta: "Com um corte ou um acabamento diferente, a ardósia também pode ser uma boa alternativa para projetar".

Segundo o geólogo do IPT, o arquiteto tem muita liberdade para trabalhar com as opções de pedras, desde que saiba trazer soluções que balanceiem os pontos negativos. Em ambientes em que haja risco de queda de materiais, por exemplo, é indicado escolher polimentos menos lisos ou aplicar antiderrapantes. Em bordas de piscina, além de pensar no atrito da rocha, o profissional deve levar em conta a cor do produto. Pedras mais escuras absorvem mais calor e podem se tornar inconvenientes em dias quentes.

O arquiteto também deve ficar atento ao projetar com duas pedras em um mesmo ambiente. Por conta dos diferentes níveis de desgaste, as rochas podem ficar com alturas irregulares ao longo do tempo, especialmente em ambientes com muito tráfego de pessoas.

SEM PATOLOGIAS
Eduardo explica que, além de manchamentos em materiais mais porosos, causados por queda de líquidos como vinho e café, as principais patologias que afetam projetos com pedras estão relacionadas à umidade que vem dos materiais sob a superfície. A água em excesso do contrapiso, quando evapora, causa manchas amarelas por causa do ferro presente no material.

Principalmente em mármores, as pedras também estão sujeitas a eflorescências, também causadas por umidade. "A água de substratos ou de lavagem pode dissolver alguns sais, que se tornam um pó fino sobre a rocha", explica o pesquisador. A solução, nesses casos, é evitar o contato com água. Os granitos, por sua vez, estão mais sujeitos à descamação e ao lascamento devido às subeflorescências, causadas pela cristalização de sais sob a superfície polida. Nesses casos, a solução é verificar as fontes de umidade e fazer a impermeabilização da rocha. Apesar disso, o geólogo destaca que o ideal é tomar cuidados prévios, porque as patologias podem danificar a rocha permanentemente.

Por isso, ao especificar a instalação dos pisos, geralmente feita diretamente sobre o contrapiso, é fundamental que o arquiteto reforce para a equipe de obras a importância da limpeza do local de aplicação, evitando que fiquem resíduos de ferro e outras substâncias que podem danificar as pedras, e do cuidado redobrado com a feitura da argamassa, principalmente a do tipo farofa. Deve-se lavar e peneirar a areia, evitar a adição de cal e usar o mínimo de água na mistura. Quando se opta por argamassa colante, é preciso também verificar a superfície da base, que deve ser seca e uniforme. Em ambos os casos, o arquiteto pode indicar a impermeabilização do contrapiso, principalmente se estiver sujeito à umidade ascendente. Em pedras brancas e beges, é ainda recomendado usar uma tonalidade de substrato mais clara para evitar manchamentos, seguindo a indicação da NBR 14.081:2004 Argamassa colante industrializada para assentamento de placas cerâmicas - Requisitos.

FACHADAS
Em projetos de fachadas, a escolha da rocha deve ser ainda mais cuidadosa, porque em caso de má especificação pode haver quedas das placas. Além disso, as fachadas estão bastante sujeitas a intempéries, fazendo com que a escolha de um granito ou mármore de porosidade adequada seja fundamental. Nesses casos, o trabalho do arquiteto precisa ser feito em conjunto com o do engenheiro. "Conhecendo os laudos, os engenheiros conseguem, a partir da flexão da rocha, balancear a espessura e o tamanho das chapas", explica Eduardo.

Se nos interiores o revestimento de paredes geralmente é feito com argamassa, nas fachadas com alturas maiores de 3 metros é indicado fixar as pedras com insertos, fazendo fachadas aéreas. Em conformidade com a NBR 15.846:2010 Rochas para revestimento - Projeto, execução e inspeção de revestimento de fachadas de edificações com placas fixadas por insertos metálicos, por questões de segurança, devem ser feitas inspeções frequentes para verificar o possível deslocamento das placas e o estado das estruturas.

O cuidado com as pedras vai além da instalação. O arquiteto também deve passar para o morador as instruções necessárias sobre a manutenção do material e sobre o que pode ou não ser colocado sobre a pedra. Fontes de ferro oriundas de suporte de vasos e cadeiras, por exemplo, podem causar manchas permanentes. "Em áreas externas, muitos moradores tratam granito e mármore como se fossem piso frio, lavando-os com baldes de água, o que pode ser prejudicial para a pedra a longo prazo", diz o pesquisador. Nessas situações, panos úmidos e produtos de limpeza pouco abrasivos costumam resolver o problema.

FICHA TÉCNICA

LOCAL São Paulo
DATA DO PROJETO 2015
ARQUITETURA Maurício Karam Arquitetura
MÁRMORES Pedra de Esquina
ILUMINAÇÃO Acerbi
MOBILIÁRIO City Design
REVESTIMENTO Euroville

 

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