Secretário da Habitação do estado de São Paulo fala sobre o Complexo Júlio Prestes, um espaço de 94,6 mil m² em construção na Região da Luz. O projeto é uma aposta na revitalização dessa área central com unidades residenciais, espaços comerciais e escola de música | aU - Arquitetura e Urbanismo

Entrevista

Secretário da Habitação do estado de São Paulo fala sobre o Complexo Júlio Prestes, um espaço de 94,6 mil m² em construção na Região da Luz. O projeto é uma aposta na revitalização dessa área central com unidades residenciais, espaços comerciais e escola de música

Alexandra Gonsalez
Edição 276 - Março/2017
Rodrigo Garcia e o modelo volumétrico do complexo Júlio Prestes, em São Paulo

Quem tem mais de 60 anos lembra com saudades da região dos Campos Elíseos, que se estende do Bom Retiro, ao lado do Centro de São Paulo, até a Barra Funda. Primeiro bairro projetado da capital paulista, o local surgiu com a inauguração da estação de trens São Paulo Railway, nos anos de 1870, e o serviço de abastecimento domiciliar de água da Cia. Cantareira. Também foi a primeira área considerada nobre, porque era lá que os ricos fazendeiros de café foram morar no fim do século 19, aproveitando a proximidade com a estação de trem Sorocabana, atual Júlio Prestes.

Até o fim da década de 1940, a elite ocupava casarões e sobrados na região e passeava no imponente Parque da Luz, aberto em 1825. Ali ficava o Palácio dos Campos Elíseos, antiga sede do governo do estado, e a Estação da Luz, inaugurada em 1901, com a maior parte de suas estruturas importadas da Inglaterra. A deterioração da Região da Luz começou na década de 1950, e a instalação da antiga estação rodoviária, em 1961, contribuiu para essa decadência.

Dos anos 1960 e até o começo dos 1980, os casarões, já há muito tempo abandonados pelas famílias ricas, foram se transformando em cortiços, bares e hotéis baratos, ocupados por prostitutas, pequenos marginais e produtoras de filmes pornográficos. O local ficou conhecido como Boca do Lixo. Do fim do século 20 até hoje, o que restou das construções originais virou local para consumo de drogas. No começo dos anos 2000, as ruas no entorno da Estação da Luz foram ocupadas por centenas de usuários de crack, e a região ganhou o triste apelido de Cracolândia. Desde então, dezenas de iniciativas públicas para revitalizar a área e combater o consumo e o tráfico de entorpecentes fracassaram.

A mais nova aposta para requalificar a região central é o projeto Complexo Júlio Prestes, com 94,6 mil m2, que irá oferecer conjunto habitacional, praça, escola de música, creche e lojas. As obras integram a Parceria Público-Privada da Habitação (PPP) no Centro, realizada em conjunto com os governos estadual e federal. O investimento total da iniciativa privada será de R$ 900 milhões. A participação do Estado será de R$ 465 milhões, divididos ao longo de 20 anos, com contrapartida máxima anual de R$ 82 milhões. A prefeitura de São Paulo irá participar com fornecimento de parte dos terrenos.

Os trabalhos começaram em janeiro de 2017, e são realizados pela construtora Canopus Holding S.A. "A previsão é que tudo esteja concluído em três anos. Porém, esperamos que até meados de 2018 parte das moradias já esteja pronta", afirma Rodrigo Garcia, secretário da Habitação do estado de São Paulo. Nesta entrevista Garcia explica mais sobre o projeto e a importância da arquitetura em sua implementação.

Quantas unidades habitacionais estão previstas? Quais são suas características?
No setor residencial, serão oito edifícios: quatro prédios com 17 andares, um com 13 andares e três com 12 andares. No total, serão 3.683 moradias, das quais 2.260 de interesse social e 1.423 para o mercado popular. Haverá mais de 1.000 habitações de interesse social subsidiadas pelo governo estadual para famílias com renda mensal de até R$ 4.344, com 902 unidades de dois dormitórios, 216 com um dormitório e 12 com três dormitórios. Outras 72 unidades destinadas aos de mercado popular, para famílias com renda entre R$ 4.344 e R$ 8,1 mil, com dois dormitórios. Cada bloco contará com áreas de lazer internas e uma quadra esportiva compartilhada.

Sob o ponto de vista arquitetônico, o que há de mais contemporâneo no projeto do Complexo Júlio Prestes?
O projeto, desenvolvido pelo escritório Biselli & Katchborian, tem como ideia principal a interseção desse centro histórico com a nova construção. É um modelo urbanístico de integração total do empreendimento com os diversos públicos da região: os moradores, as pessoas que trabalham no Centro, os turistas que frequentam as opções culturais e comerciais no entorno. Ele também se integra à Sala São Paulo, e tivemos a preocupação de que o complexo não interferisse na percepção de que a melhor sala de espetáculos da América Latina é um dos principais marcos da região. Essas caracterísricas foram respeitadas e utilizadas como referência no projeto, fator primordial para obtermos a aprovação do Condephaat. Além disso, o empreendimento foi concebido para que todos os blocos residenciais, as unidades comerciais, a Escola de Música Tom Jobim e a creche, com capacidade para 200 crianças, fossem espaços que dialogassem com a cidade, abertos ao público, e não restritos apenas àquela localidade. Para isso, o projeto prevê um boulevard com 199 árvores, que será uma extensão da Rua Santa Ifigênia, e duas lojas-âncora na ala comercial, no piso térreo.

"É um modelo urbanístico de integração total do empreendimento com os diversos públicos da região: os moradores, as pessoas que trabalham no Centro, os turistas que frequentam as opções culturais e comerciais no entorno"

Como é democratizar a infraestrutura da cidade aproveitando equipamentos públicos do Centro ao inserir moradias populares nesse espaço? Qual é o papel da arquitetura nesse processo?
O Centro tem o privilégio de contar com uma grande infraestrutura, porém subutilizada há decadas. O complexo fica em uma região que tem oferta de emprego e transporte público, mas poucas opções de moradia. A aproximação das pessoas com seu local de trabalho ajudará a reduzir os longos deslocamentos por ônibus, trem e metrô, desafogando um pouco esses sistemas e oferecendo mais qualidade de vida a quem vier viver no Centro. Uma das exigências para se inscrever e participar do sorteio para adquirir um apartamento é que pelo menos um membro da família trabalhe no Centro. Das unidades residenciais, 80% são destinadas a pessoas que não moram no Centro, mas trabalham nessa região. Os outros 20% serão reservados para interessados que morem e trabalhem no Centro. Há anos, várias iniciativas apontavam a importância do adensamento populacional na região, e o papel da arquitetura nesse processo é justamente mostrar que é possível repovoá-lo.

A concepção do espaço, com áreas comerciais no térreo, contribui para incentivar a circulação de pessoas o tempo todo, não apenas no horário comercial, como acontece atualmente. A arquitetura foi pensada para que haja uma integração total com o entorno.

Antiga rodoviária da Luz, inaugurada em 1961 e fechada em 1982. O prédio foi desocupado em 2007, mas a demolição só começou em 12 de abril de 2010

"Projetos de moradia social no Brasil sempre são vistos como um produto de segunda linha, com pouca preocupação em relação à arquitetura do edifício e sua inserção na cidade. Hoje, há uma maior preocupação com essas questões"

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