Perdemos o timing | aU - Arquitetura e Urbanismo

Editorial

Perdemos o timing

Edição 278 - Maio/2017
Assistimos ao maior fenômeno de empoderamento financeiro - mesmo que momentâneo e baseado em alicerces duvidosos - e desperdiçamos a oportunidade, como arquitetos, de criar algo novo, de fato, para a habitação de interesse social no Brasil

O professor e escritor indiano C. K. Prahalad, antes de lançar o livro A Riqueza na Base da Pirâmide, em 2003, concedeu entrevista à revista Exame. O pesquisador da Universidade de Michigan estudou 12 casos de empresas que obtiveram êxito nos negócios com o público que ele chamou de base da pirâmide. Dentre os objetos de análise, escolheu uma grande rede varejista de móveis e eletrodomésticos brasileira. Sobre a empresa, disse: "O fundador da companhia começou com a ideia de servir aos pobres. Estava à frente dos outros. Hoje, são mais de 300 lojas, que atendem a mais de 10 milhões de consumidores. A rede ajuda o consumidor a poupar e comprar. Também tem um sistema tecnológico sofisticado para apoiar o negócio". Em seu livro, o pesquisador evidencia o papel importante, na economia brasileira, desse tipo de comércio e a relevância nas cifras totais do varejo do país. "Maior prova de que o consumidor de baixa renda valoriza marca é o caso dessa varejista, maior vendedora de produtos Sony no Brasil." Com apelo aspiracional, a empresa tornou-se a maior do setor no país.

O Brasil está de ressaca. Com o boom da Nova Classe Média, com a explosão de projetos populares financiados pelo governo e produzidos pela iniciativa privada - o Minha Casa Minha Vida - o país viveu o ápice da produção de moradia em larga escala. O MCMV, adaptado à nova linha do governo federal pós-impeachment, ainda é a força motriz do setor da construção civil. Mas é fato que o volume de projetos criados para atender ao programa não apresentou nada de inovador. Diante da demanda das construtoras segmentadas, poucos projetos (ou nenhum) saltaram aos olhos pela inventividade ou ousadia dos arquitetos. O legado, anos depois, independentemente das causas, é um número assustador de patologias precoces nas unidades do MCMV entregues país afora.

Assistimos ao maior fenômeno de empoderamento financeiro - mesmo que momentâneo e baseado em alicerces duvidosos - e desperdiçamos a oportunidade, como arquitetos, de criar algo novo, de fato, para a habitação de interesse social no Brasil. Tínhamos volume, financiamento, ferramentas. É verdade que, em meio à bonança do crédito, pouco se avançou na criação de programas diferenciados da habitação social, em pequena ou larga escala.

Um contra-exemplo, embora pontual, de uso de materiais convencionais em programa inventivo vem do vizinho Paraguai, que desde 2013 - embora hoje em processo de desaceleração - cresce a ritmo chinês. Talvez por lá aconteça algo semelhante ao cenário do Brasil de dez anos atrás. Voltamos os olhos para os paraguaios e, ao contrário de um MCMV adaptado à realidade deles, descobrimos uma série de projetos únicos da Oficina Comunitaria de Arquitectura. O grupo cria a partir da necessidade individual de moradores de rua, projetos que reinventam materiais banais em composições de encher os olhos. Esse é o caso da Vivienda Lui, criada pelo arquiteto Luis Godoy, que ilustra a reportagem intenacional desta edição.

Perdemos o timing. Desperdiçamos uma ótima oportunidade para criar.

GUSTAVO CURCIO