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Exposição investiga a situação dos rios em São Paulo

Casa feita com tubulação aparente é metáfora para o soterramento das águas paulistanas

Camila Berto Tescarollo
3/Junho/2014

Uma instalação que se assemelha a uma casa, feita de canos e painéis que ilustram um pouco da história das relações entre São Paulo e seus rios. Essa intervenção é a Casa Invisível, e faz parte da Mostra Rios e Ruas, aberta para o público até o dia 31 de julho.

A iniciativa partiu do projeto homônimo que, desde 2010, identifica os rios da cidade, soterrados ou não. A estrutura de 200 m², idealizada por Charles Groisman e com curadoria de Marcello Dantas, tem espaços interativos que discutem a importância da água no cotidiano e propõe reflexões sobre como trazê-los de volta ao convívio urbano.

A visita à Casa Invisível é gratuita e pode ser feita diariamente das 6h30 às 19h, na Praça Victor Civita, na rua Sumidouro, 580, Pinheiros, em São Paulo.

Em sua inauguração, dia 31 de maio, o evento contou com uma expedição organizada pelo projeto Rios e Ruas, que percorreu a pé o curso do riacho das Corujas, da Vila Madalena a Pinheiros. Na abertura, Marcello Dantas conversou com AU sobre sua instalação e a problemática dos rios em São Paulo.

Por que os rios foram, ao longo do tempo, canalizados e excluídos da integração com a cidade?
É um processo natural de expansão urbana. Para passar uma avenida, você precisa encontrar um caminho, e esse caminho era o caminho natural que estava disponível: o rio. Isso não está essencialmente errado, a questão é como foi feito. Optou-se cada vez mais por tampar os rios. Primeiro elimina a várzea, que é a capacidade que ele tem de vazar. Depois elimina sua convivência, seu oxigênio, sua vida e transforma o rio em um invólucro. É correto você aceitar que se tampe um pedaço desse rio, mas quando se vê uma bacia hidrográfica como a de São Paulo, vemos que tampamos praticamente todos. Deixamos apenas o Tietê e o Pinheiros e, ainda assim, modificados. Aquilo que pontualmente não era um problema, no geral se transformou em uma coisa irreal, e hoje questões como enchentes ou falta d’água, poluição dos rios se relacionam. A gente trata mal a água que tem.

E você acredita que é possível trazer esses rios de volta para a cidade?
Não, porque isso significa reurbanizar a cidade e ninguém faz isso.

Por falta de vontade ou por inviabilidade?
Por inviabilidade. E não há vontade para tirar uma avenida de um lugar.

Mesmo com toda essa discussão recente sobre a questão dos rios?
Eu sou muito cético quanto à capacidade das pessoas fazerem isso, porque afeta muita coisa. Dá para destampar um pedacinho ou outro de um rio que esteja disponível, mas olhando o mapa, não é possível derrubar edifícios. Temos que arrumar um jeito de conviver com o que temos. Não vai dar para transformar São Paulo em Veneza. Teremos que encontrar formas de conviver com os rios destampados ou não de maneira bacana e saudável. Tem pequenas coisas que podem ser feitas, como abrir as nascentes, com água pura e limpa visível. Alargar as várzeas para eliminar as inundações, ou seja, lugares que estão sistematicamente sujeitos a inundações deveriam ter essas áreas repensadas, transformadas em áreas de drenagem. Isso é estratégico. Dá para mexer nas várzeas e nas nascentes, mas abrir os rios de novo, olhando o trabalho que dá, desfaz a cidade.

Na exposição, como você resolveu transpor a dinâmica dos rios na cidade em uma instalação?
Eu quis falar com uma metáfora: os rios estão para uma cidade, assim como os canos estão para uma casa, as veias para o corpo humano. Ou seja, se você acha que os canos de uma casa não são importantes, experimente uma infiltração. Negligenciar o veículo e a maneira de transportar a água dentro dos organismos, sejam organismos geográficos, arquitetônicos ou biológicos, é talvez cometer o maior equívoco sobre si próprio. E quis alertar pra isso. Uma casa é feita de canos, isso é o que faz nós estarmos protegidos ali dentro, senão ela seria um abrigo. Uma casa é água, o resto é abrigo.



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